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Mulher negra com cabelos longos trançados e aparelho ortodôntico
14 de outubro de 2026

A disputa pelo Brasil se intensifica nas redes sociais

O primeiro turno das Eleições de 2026 apresentou o desafio do engajamento pelas redes sociais e agora movimentos à esquerda se unem para se especializar nesse jogo

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Imagem em preto e branco, com detalhes gráficos em verde-limão, azul e roxo. Duas mulheres aparecem em posições opostas, conectadas pelas mãos: uma está na parte superior, inclinada para baixo, enquanto a outra está na parte inferior, sentada e estendendo o braço para cima. Ao fundo, há formas geométricas coloridas e elementos que remetem à interface de uma rede social, como ícones de curtida, comentário, compartilhamento e marcador.

Susto. Desespero. Raiva. Aflição. Medo. Preocupação. Incredulidade. São alguns dos sentimentos que coletei a respeito do resultado do primeiro turno dessas Eleições 2026 no Brasil, sobretudo os números confortáveis à extrema direita vinculados aos Bolsonaro. Junto a esses sentimentos, um questionamento que é cíclico: como usar as redes sociais para dialogar com o eleitorado mais à esquerda, ou sem posição definida, e atrair essas pessoas para votarem em candidaturas progressistas? Ou, como a extrema direita vinculada aos Bolsonaro conseguiu articular um Partido Digital, usando de métodos de articulações online que foram inaugurados nos movimentos de base mais à esquerda? 

Um breve disclaimer. O ciberativismo, isto é, o uso de redes sociais e sites da Internet para manifestações políticas, começou há algum tempo, não é recente. Em 2010 aconteceu a Primavera Árabe (Nações Árabes – 2010), um fenômeno que reescreveu o papel dos espaços digitais nas deliberações políticas. Depois disso, um número robusto de outros eventos estão registrados nos autos da memória ciberativista no mundo: o movimento #BlackLivesMatter (EUA – 2013), as Jornadas de Junho (Brasil – 2013), a Primavera Feminista  (Brasil – 2015), o Movimento Ele Não (Brasil – 2018) e a  Marcha das Mulheres Negras (Brasil – 2015, 2025), são alguns movimentos importantíssimos que aconteceram igualmente nas ruas e nas redes sociais, com resultados comprovados na nossa história. 

Banner horizontal com fundo preto, preenchido por texturas e formas abstratas em azul-escuro e verde-limão. À esquerda, em letras brancas e verde-limão, está escrito: “NOSSOS DIREITOS ESTÃO EM RISCO” e, em destaque maior: “AZMINA PRECISA ESTAR AQUI”. À direita, lê-se: “Ajude a manter o jornalismo feminista”. Abaixo, dentro de uma caixa contornada em verde-limão, está escrito: “APOIE AGORA A PARTIR DE R$ 15”. O banner usa tipografia em negrito e alto contraste, com elementos gráficos abstratos ao fundo
Banner vertical com fundo preto, preenchido por texturas e formas abstratas em azul-escuro e verde-limão. Na parte superior, em branco, está escrito: “NOSSOS DIREITOS ESTÃO EM RISCO”. Logo abaixo, em letras grandes e verde-limão: “AZMINA PRECISA ESTAR AQUI”. Na parte central inferior, em branco, lê-se: “Ajude a manter o jornalismo feminista”. Na parte inferior, dentro de uma caixa com contorno verde-limão, está escrito: “APOIE AGORA A PARTIR DE R$ 15”. A composição utiliza tipografia em negrito e alto contraste, com elementos gráficos abstratos em azul e verde ao fundo.

Entre esses grandes movimentos, estão registradas também campanhas eleitorais que igualmente transformaram a compreensão sobre mobilização online. Na eleição presidencial nos Estados Unidos de 2008, a campanha de Barack Obama utilizou o slogan “Yes, we can” (Sim, nós podemos) que chamou atenção pelo uso amplo e estratégico do Twitter. A estratégia mobilizou e transformou pessoas comuns em voluntárias, doadoras e defensoras engajadas e empoderadas por meio das redes sociais, de campanhas de mobilização por e-mail, de mensagens de texto e de vídeos on-line. Esse é o primeiro registro notável de uma bem sucedida campanha eleitoral que usou as redes sociais largamente, inclusive engajando jovens em um país onde o voto é facultativo.

No Brasil, o Movimento Brasil Livre (2014), um movimento Liberal-conservador que reuniu a liderança de cinco homens, aprendeu o jogo das big techs há pelo menos dez anos. O MBL nasceu apostando no discurso anti-Petista desde os áureos tempos do Facebook e, inclusive, acionando a juventude e a classe trabalhadora, com uma capa de revolução. Seu projeto buscava “mudar a linguagem” associada à Direita”, escreveu María Martín em 2014. E a esquerda partidária, talvez, não tenha acreditado nesse caminho, apesar dos sinais e das famigeradas métricas. 

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Neste polarizado, conturbado e, para muitas pessoas, inesperado resultado do primeiro turno das nossas Eleições presidenciais de 2026, o assunto do uso das redes sociais tem sido pautado de forma a fazer uma autocrítica à esquerda sobre sua capacidade comunicativa para mobilizar, engajar e converter voto a favor de Lula. Sobre o Partido Digital Bolsonarista, a Revista Piauí publicou uma matéria sobre como essa organização vem mobilizando a pauta dos valores morais religiosos em contraposição à ciência, educação e à pluralidade cultural. Possivelmente esse seja o resultado do combo movimentos de igreja – movimentos de base – engajamento em redes sociais. 

Da rejeição à reação

Um fenômeno da esquerda que saiu fortalecida das Eleições de forma surpreendente é a Ana Elisa (PT – MG), que, aos 21 anos, foi eleita deputada federal por Minas Gerais e usou as redes sociais como base para a sua campanha. Ana Elisa foi a mulher mais votada da história do estado. Ela sai apontada como a grande vitoriosa da esquerda nas redes pela forma que fez do digital seu campo de batalha.

Considerada uma “puxadora de voto”, ela foi convidada a contribuir com a equipe do Lula no segundo turno para a Eleição presidencial. Mesmo enfrentando uma enxurrada de violências e ameaças nas redes sociais por aliados da extrema direita vinculados aos Bolsonaro, Ana Elisa acredita que não existe mais separação entre as redes sociais e as ruas. 

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Feminismo bem informado

Há quem analise que enquanto os partidos de esquerda se mantiveram mais burocráticos e hierárquicos no desenho de suas estratégias, os movimentos da extrema direita conseguiram se organizar e capitalizar a dinâmica das plataformas. Alcançou desde pessoas jovens a pessoas idosas, atravessou classes sociais e níveis educacionais, isto é, furou a bolha.

Mas há uma reação em curso e ela pode fazer grande diferença neste e nos próximos pleitos: o reconhecimento de que o medo está mobilizando. O medo de perder direitos tem provocado uma mobilização que arrisco dizer, é inédita. Desse resultado que trouxe a autocrítica, vemos um Q de reação aos sentimentos descritos na abertura do texto. O movimento “vira voto” que está acontecendo, parece que finalmente encontra um alinhamento entre as esquerdas com o propósito de diminuir os danos do primeiro turno, clamando pela reeleição do Lula.

“Agora é guerra digital”

“Agora é guerra digital”, ouvi de uma amiga mais jovem. A estratégia então é aprofundar a compreensão de redes sociais com as quais não jogamos antes, tal qual o Kwai, bem como o delicado uso da inteligência artificial para a construção dessa reação. Apresentar os planos de governo, mostrar os abismos de direitos entre os candidatos. A linguagem deve ser assertiva e a comunicação “menos arrumadinha”. 

A prioridade é mostrar o absurdo de uma forma rápida e apresentar as possíveis sequelas na vida prática das pessoas, caso Lula não seja reeleito, já que as ameaças da extrema direita já nem podem mais ser enquadradas como ameaças, são promessas para um projeto de país com grandes perdas de direitos. O status do WhatsApp é a estrela do ecossistema da disputa digital nessa mobilização que pretende furar a bolha, como forma de desviar das interferências da Meta na moderação de conteúdo no Instagram, cuja seletividade algorítmica favorece o candidato da extrema direita em detrimento do candidato da esquerda na entrega e engajamento dos conteúdos.

Leia Mais: Óculos da Meta: privacidade, vigilância e consentimentos são questões de gênero e raça

Os resultados desse esforço devem ser reconhecidos ao final das Eleições, ainda que a esquerda não leve a presidência. Quero ser otimista de que aprendemos algo importante e que nos próximos anos não vamos nos perder mais nesta dinâmica das plataformas digitais, apesar do escancarado jogo pró extrema direita feito pelas grandes corporações de tecnologias. Ao mesmo tempo, torço para que a esquerda aprenda sobre a necessária construção de comunidades digitais como caminho para disputa política e construção de projetos plurais. Ainda há muito trabalho nessas semanas, mas desde já quero fazer do bordão de André Gabeh as minhas palavras de encerramento do texto: desejo vitória ao 13! 

Em tempo: quero agradecer a enorme contribuição dos amigos Tamara Mesquita e Felipe Pedroso, cujo debate construiu esse texto.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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