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28 de março de 2019

Dapper Dan, o alfaiate do Harlem que desafia as grifes de luxo – e o racismo delas

Como o inventor da estética de hip hop na moda passou de plagiar grandes grifes a ser um porta-voz da apropriação cultural
Dapper Dan e o cantor Bruno Mars (Reprodução Facebook)

O ano era 1988 e o NY Times publicava a seguinte manchete: “Tyson machuca mão direita em briga com boxeador”. O artigo então explicava que o incidente aconteceu no Harlem, em um lugar listado nas listas telefônicas como “Dapper Dan”, e que Mike Tyson descreveu como uma loja de roupas 24 horas que atendia artistas.

Mike Tyson havia acabado de passar na loja para buscar sua icônica jaqueta “Don’t believe the hype”, em couro branco e com acabamentos em preto e dourado – que ele exibiu com orgulho na coletiva de imprensa na manhã seguinte ao acontecido.

A notícia serviu para garantir a Mike Tyson seu título de homem mais malvado do mundo, mas também colocou no radar o estilista que definiu o estilo hip hop novaiorquino nos anos 80 e 90: Dapper Dan. Apreciado e vestido por rappers como LL Cool J e Salt-n-Pepa, traficantes famosos como Alpo Martines e até atletas como a medalhista olímpica Diane Dixon, além do polêmico Mike Tyson.

Dan ficou conhecido na região do Harlem por criar conjuntos de roupas completas – a calça, jaqueta e até os tênis – completamente estampados com os logos das grandes grifes européias como Fendi, Prada e Louis Vuitton.

Ele enxergou uma fatia de mercado que era ignorada pela produção de alta moda: os artistas, performers e esportistas do gueto americano, as pessoas envolvidas na cultura de hip hop que passavam a ter acesso a grana e consumo de luxo, mas que possuíam um estilo e uma preferência estética que as grandes marcas não queriam nutrir.

Os rappers e os artistas negros queriam e podiam comprar alta moda – mas os criadores de alta moda não queriam vender para eles.

Numa época em que as grifes estampavam apenas bolsas e carteiras, Dapper Dan desenvolveu em seu ateliê uma técnica de estamparia de logomarca para peças inteiras de roupa e calçados. Ele ficou particularmente popular quando passou a estofar o interior dos carros de seus clientes com a mesma técnica.

A festa durou até 1992, quando a Gucci processou Dapper Dapper por usar sua marca em criações feitas à mão e customizadas pelo estilista do Harlem, cuja popularidade passava a ser uma ameaça para as grifes de luxo – que, lá nos anos 90, muito antes de Kanye West, Jay-Z e Beyoncé, não enxergavam na cultura street um público alvo e uma fatia de mercado interessantes.

Dapper Dan ficou recluso e anônimo por mais de 20 anos após o processo. Mal saberia ele que em 2017 a mesma Gucci que o processou por uso indevido de sua logomarca plagiaria uma de suas criações, a jaqueta de pele com marcas bufantes usada por Diane Dixon em 1988, recriada idêntica nas passarelas da coleção de Outono/Inverno 2018.

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Em tempos de internet certos bafões viralizam rapidamente, e a Gucci foi obrigada a admitir ter se inspirado no estilista para a coleção – do que se seguiu uma parceria de Dapper com Gucci, que reabriu seu ateliê original no Harlem e o deu carta branca para criar suas coleções em parceria com a marca italiana.

Na coleção de inverno do ano seguinte a Gucci desfilou uma máscara de ski que remetia à blackface, para a surpresa do próprio Dan, que escreveu em suas redes: “Sou um homem negro frente a uma marca. Não há desculpa que apague esse tipo de insulto”.

Ser uma pessoa negra frente a um mercado criado e dominado pela cultura vigente branca européia é um eterno gerenciar de contradições e cegueiras.

Dapper Dan, que criou uma cultura estética de hip hop, foi destruído pela Gucci, e agora é por causa dela que ele está de volta. A Gucci ignorou a cultura de rua americana por décadas, agora depende dela para vender seus produtos – o que não significa que a empresa já mudou por completo um posicionamento estrutural de quase 100 anos de gerenciamento branco.

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Se a marca italiana ainda precisa aprender a realmente trazer diversidade para sua equipe criativa, Dapper Dan está definitivamente trazendo a história da moda street americana para o lugar de destaque que merece: uma cinebiografia inspirada no designer está sendo produzida e ele diz que está pronto pra contar tudo.

“De crescer com buracos nos sapatos e nadar no rio do Harlem a atravessar o Nilo em busca da minha identidade. Eu não tinha nada, e fui abençoado com uma parceria com a Gucci, meu livro será publicado e a Sony fará um filme sobre minha vida. O Harlem e a África moldaram a minha vida.”

Melody é professora, consultora de estilo e pesquisadora de moda com foco em história, semiótica e antropologia. Começou a escrever sobre moda na redação da Lilian Pacce, quando decidiu que faria seu próprio jornalismo de moda após descobrir o mundo de ostentação e superficialidade do jornalismo mainstream, Tem agora seu próprio blog, repete roupa!, onde fala sobre feminismo, minimalismo, moda e cultura pop. É palestrante e já trouxe os assuntos moda, sociedade e sustentabilidade para instituições como Fatec e Senac, e também ministra oficinas de amarração de lenços, moda&literatura e análise de figurino.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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