
Entre o “sim” e o “não”. O debate sobre aborto no Brasil ganha novos contornos quando analisamos as opiniões das mulheres de forma mais aprofundada.
Duas pesquisas recentes revelam um cenário muito mais complexo do que as polarizações políticas tradicionais sugerem. Uma delas, Mulheres em Diálogo, foi realizada pelo Instituto Update com 668 mulheres de todas as regiões do país, sendo 90% religiosas. A outra, qualitativa, ouviu apenas evangélicas e foi feita pelo Instituto Lamparina em parceria com a Casa Galiléia.
Os achados mostram que as opiniões sobre aborto variam significativamente conforme religião, idade, classe social, escolaridade e posicionamento político. E os resultados evidenciam a necessidade de um debate com mais nuances na sociedade brasileira.
Ambas as pesquisas buscaram ouvir tanto mulheres conservadoras quanto progressistas, a fim de compreender as convergências entre elas em diversos assuntos. É um esforço importante num momento em que o debate público costuma ser capturado por extremos e binarismos.
Identificar pontos de encontro pode abrir caminhos para políticas públicas mais eficazes para mulheres e estabelecer um diálogo mais empático e construtivo entre diferentes setores da sociedade. Entretanto, o aborto é a pauta que provoca maior desalinhamento entre elas.
Maioria rejeita descriminalização, mas contexto importa
Segundo a pesquisa do Instituto Update, 74,7% das mulheres entrevistadas são contrárias à descriminalização do aborto. Essa posição é especialmente forte entre mulheres mais velhas, de baixa renda e alinhadas politicamente à direita. O destaque fica para as evangélicas, 82% delas rejeitam a descriminalização.
Apenas 16,5% das entrevistadas se mostraram favoráveis à descriminalização. Esse grupo é composto principalmente por mulheres jovens, de esquerda, com ensino superior e pertencentes às classes A/B. Regionalmente, o Sul do país apresenta o maior percentual de apoio, com 20%.
Por outro lado, nos chama atenção que aproximadamente 9% das mulheres estão indecisas sobre o tema, principalmente aquelas sem religião, de centro-esquerda e da região Nordeste. Isso sugere que existe espaço para diálogo e reflexão sobre o assunto.
Um dos achados mais surpreendentes da pesquisa é que 71,7% das mulheres reprovam a punição com prisão para quem realiza aborto fora das situações legais. Essa posição é especialmente forte entre mulheres católicas, sem religião, de esquerda e centro-esquerda, além de mulheres pretas e das classes D/E.
Apenas 28,3% concordam com a prisão, concentradas entre mulheres de 45 a 59 anos, evangélicas, de classe C e alinhadas ao centro, centro-direita e direita. Isso sugere que, mesmo discordando do aborto, muitas mulheres não veem a criminalização da prática como a solução adequada.
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O dilema silencioso das mulheres evangélicas
Ao ouvirmos as evangélicas mais de perto, é possível compreender o que sustenta essa posição da maioria delas contra o aborto. Segundo a Pesquisa Nacional do Aborto (PNA) de 2021, 70% das mulheres que recorrem ao procedimento se identificam como cristãs.
A pesquisa qualitativa da Casa Galiléia e do Instituto Lamparina ouviu essas mulheres, frequentemente reduzidas a estereótipos. Foi constatado que “as ocorrências de aborto dentro de suas comunidades evangélicas são mais comuns do que as entrevistadas inicialmente admitiam.”
Tal realidade é mantida em sigilo devido a julgamentos, como relatou uma das entrevistadas: “uma vizinha foi estuprada e tirou o bebê, mas ela precisou mudar de igreja porque passou a ser julgada. “Entre as mulheres evangélicas ouvidas, emergiu uma posição significativa: “nem contra, nem a favor” do aborto. Essa perspectiva, entretanto, não significa indiferença, mas reconhece as múltiplas variáveis envolvidas na questão.
A pesquisa identificou aceitação quase unânime do aborto em casos específicos: gestação resultante de abuso sexual, principalmente quando a gestante é uma criança que não possui condições psicológicas ou físicas para a maternidade, ou casos de risco à vida da mulher.
A preservação da vida da mulher é aceita, curiosamente, com a justificativa de que ela poderá gerar outra vida no futuro. Isso demonstra uma lógica que valoriza a continuidade da função reprodutiva feminina acima de outros aspectos.
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A religião como organizador social
As igrejas desempenham papel central na vida social dessas mulheres – oferecendo aconselhamento e, muitas vezes, desencorajando a busca por profissionais fora do ambiente religioso. Existe um “paradoxo evangélico” onde essas mulheres buscam empoderamento por meio do casamento e da participação ativa na comunidade de fé. Contudo, essa autonomia encontra limites na “palavra do homem”, que impõe restrições e direcionamentos.
A pesquisa com evangélicas identificou que espaços exclusivamente femininos, como grupos de WhatsApp ou encontros de mulheres, são percebidos como ambientes mais seguros para abordar temas tidos como polêmicos. As mães, em particular, demonstram maior abertura para discutir o aborto, reconhecendo os desafios da maternidade e a dificuldade em ser mãe, quando não se tem esse desejo.
Um achado importante da pesquisa qualitativa é a ineficácia da comunicação ativista tradicional com o público evangélico. Antes de abordar diretamente o aborto, elas priorizam discutir a importância do diálogo familiar, especialmente com adolescentes, sobre sexualidade. Costumam consumir principalmente conteúdos mediados pela religião e tendem a evitar assuntos políticos considerados complexos.
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Argumentos que ressoam
O que mais sensibiliza as evangélicas, segundo a pesquisa, é colocar no centro as mulheres em maior vulnerabilidade — vítimas de abuso, ou em condições tão precárias que tornam inviável cuidar de uma criança.
O argumento mais forte foi que “criança não tem condição de ser mãe”. Esta frase transcende ideologias e apela à moralidade básica de proteger a infância. Por outro lado, discursos como “aborto é lei” são percebidos como banalização do tema, e “o corpo é meu, eu quem decido” não ressoa — pois a decisão suprema é atribuída a Deus.
Essa complexidade de opiniões teve reflexo na política brasileira. Em 2024, quando foi apresentado o Projeto de Lei 1904, que buscava impor limite temporal ao aborto legal, as ativistas utilizaram estratégias que dialogavam com os achados das pesquisas. Daí surgiu o slogan “Criança não é mãe” e o apelido “PL do Estuprador” para a proposta.
A campanha rapidamente ganhou adesão de diferentes esferas da sociedade, incluindo pastores e artistas, demonstrando que existe uma maior convergência sobre a proteção de crianças e adolescentes.
Saúde da mulher como via de aproximação
Tanto a pesquisa nacional quanto a qualitativa apontam a saúde da mulher — mental, física e sexual — como a principal via de aproximação para discussões sobre direitos reprodutivos. Há espaço para essas conversas, mesmo dentro de ambientes religiosos, embora necessariamente de forma individual e cuidadosa.
A pesquisa com evangélicas indica que, embora elas reconheçam a necessidade de educar crianças para protegê-las da violência sexual, a “educação sexual” deve ser guiada pela moralidade cristã e reservada à família, especialmente às mães, na avaliação delas.
A pesquisa qualitativa sugere que as inclinações conservadoras das mulheres evangélicas “não derivam apenas de convicções de fé, mas também de uma cultura social mais ampla onde o aborto não é aceito.” Isso aponta que mudanças culturais mais amplas podem influenciar opiniões religiosas.
As pesquisas mostram a necessidade de abordagens mais sofisticadas no debate sobre direitos reprodutivos. O diálogo respeitoso entre grupos com opiniões distintas, baseado em evidências, e que considere as diferentes realidades socioeconômicas, culturais e religiosas do país, pode ser fundamental.
Para isso, é essencial reconhecer que muitas mulheres têm posições que não se encaixam perfeitamente em categorias políticas tradicionais. Entender o que elas pensam sobre o aborto exige escuta, empatia e coragem para lidar com complexidades e contradições. Há um território de dúvidas, dilemas e experiências que podem orientar políticas públicas mais humanas e, assim, proteger os direitos e a saúde das brasileiras.
*Publicação em parceria com o Instituto Update
