logo AzMina

“Uma mulher com o peito de fora dá para prender, mas cinco mil fica mais difícil”

Criadora do bloco feminista Vacas Profanas, Dandara Pagu organizou o bloco de Carnaval depois de sofrer violência policial
por Thais Folego e Suzana Rodrigues
19 de fevereiro de 2020
Dandara Pagu, criadora do bloco feminista Vacas Profanas (Foto: Anne Karr)
Dandara Pagu, criadora do bloco feminista Vacas Profanas (Foto: Anne Karr)

A Polícia pode prender uma mina que sai com os peitos de fora no Carnaval, mas cinco mil mulheres “despeitadas” fica mais difícil. Foi com essa tática de guerrilha que a produtora cultural Dandara Pagu colocou o bloco feminista Vacas Profanas nas ruas de Olinda, Pernambuco, há quatro anos, após sofrer violência policial por estar com os seios à mostra. 

Hoje, o bloco sai lá no sábado de Carnaval com cerca de cinco mil mulheres. Desde 2018, também sai no pré-Carnaval de São Paulo. “Esse bloco é de vocês, pra vocês, com a energia de vocês. Porque sem vocês nem o mundo existiria. A gente fabrica gente, não esqueçam disso”, disse Dandara no último sábado (15), minutos antes de colocar o Vacas Profanas nas ruas da Pompeia, bairro da zona oeste de São Paulo que de tão acidentado lembra um pouco as ladeiras de Olinda.

Natural de Recife, o Carnaval faz parte da vida de Dandara desde que ela se entende por gente e representa um brincar que ultrapassou a infância. Após a violência policial, o brincar do Carnaval passou a ter também uma reflexão sobre a liberdade da mulher sobre seu próprio corpo.  

“Não acho que a hipersexualização do corpo da mulher vai acabar, mas o que eu acho legal é que isso [a reflexão] se estende para além do Carnaval, cada uma escolhendo como quer sair”, diz Dandara em entrevista à Revista AzMina. Confira os principais trechos da conversa. 

Leia mais: Qual a diferença entre assédio e paquera?

Revista AzMina: O que é o Carnaval para você?

Dandara: Eu sou de Recife, Pernambuco, e Carnaval para mim é religião. Eu tenho uma religião, eu sou do Candomblé, mas o Carnaval também tem esse lugar para mim. Olinda, por exemplo, é uma cidade super pequena que aporta milhões de pessoas em ruazinhas e o negócio funciona, anda. Tem que ser muito um corpo que está ligado no outro para conseguir passar e tal. Entra nesse lugar da religião porque a gente entra num transe.

Pernambuco, em si, ele tem uma explosão, um respirar cultural. Tem um múltiplo de ritmos e o Carnaval é essa passarela, um palco para essa multicultura que a cidade tem: o maracatu, o caboclinho, o frevo – temos dois tipos de frevo! Várias coisas que a cidade respira o ano inteiro de cultura, mas o Carnaval é o lugar em que pode se ver tudo junto. 

AzMina: Quando o Carnaval entrou na sua vida?

Dandara: Meus avós me levaram desde muito criança para brincar Carnaval. Uma coisa que lembro muito é que quando ia chegando perto, se a gente fazia algo de errado, eles diziam: “ah é, depois quer sair no Carnaval”. Aí a gente gente se comportava até o Carnaval para não perder a festa. A gente ia sempre à noite para Recife, onde tinham os desfiles. Tinha uma arquibancada, que era onde aconteciam os cortejos dos desfiles das pessoas que vinham da Zona da Mata. Eles faziam tipo uma cabana nas arquibancadas para a gente dormir, porque a gente (eu e meus irmãos) sempre prometia que ficaria acordado, mas sempre acabava dormindo. 

AzMina: Como o bloco Vacas Profanas surgiu?

Dandara: Eu já morava em Olinda e eu e as minhas amigas sempre estávamos nos jornais  por causa das fantasias. Um ano, eu criei essa fantasia de vaca profana, inspirada na música interpretada pela Gal Costa, com os seios de fora e uma máscara de vaca. Um policial me parou, foi super agressivo, falando que isso era atentado ao pudor. Eu fiquei bem mal, quis discutir com ele, mas um amigo tirou a camisa e me deu. 

Isso foi em 2015 e foi aí que eu me questionei até aonde a gente entende o feminismo e tem liberdade sobre o nosso próprio corpo. Ou se o nosso corpo só pode ser mostrado quando tem autorização de um homem, como a Globeleza, ou quando o corpo está dentro de um determinado padrão. Foi aí que eu quis criar um bloco, foi aí que surgiu o Vacas Profanas. No primeiro ano foram sete meninas comigo, depois 50, hoje saem quase 5 mil mulheres juntas em Olinda e desde 2018 o Vacas Profanas também sai no pré-Carnaval de São Paulo, que é onde moro hoje. 

Desfile do Bloco Vacas Profanas de 2016 em Olinda (Foto: arquivo pessoal)
Desfile do Bloco Vacas Profanas de 2016 em Olinda (Foto: arquivo pessoal)

AzMina: E como foi para você esse processo de mostrar os seios?

Dandara: Surgiu por causa da letra da música da Gal, eu curtia muito e fiz algo dentro disso. Eu sempre tive uma boa relação com o meu corpo, então eu tava tranquila em mostrar ou não o meu peito. Eu tenho essa liberdade com o meu corpo, acho que as  pessoas se incomodam muito mais do que eu. E eu sei que isso pode ajudar outras mulheres a também aceitarem o próprio corpo. No bloco, ninguém é obrigada a ficar com o peito de fora, só fica quem estiver confortável para isso.

Leia mais: Carnaval é hora de lutar por direitos?

AzMina: Como o bloco pode ajudar outras mulheres a aceitarem o próprio corpo?

Dandara: Há uma padronização social voltada para mulher, do que pode o que não pode. Homem sem camisa pode, mas mulher sem blusa não pode. O que tento trazer é uma naturalização dos corpos. Tipo: e daí que ela tem um peito que chamam de caído? Eu chamo de peito direcionado para baixo. Isso é algo que vem dos pornôs, de um contato com o nu de um corpo de uma mulher que não existe, porque tudo foi manipulado. Alguém determinou um padrão e a gente tá vivendo a mercê dele a vida inteira. 

O que acontece no bloco é único. As mulheres não precisam ficar com os peitos de fora se não se sentirem confortáveis. O importante é estar bem e se sentir vontade de mostrar o corpo que seja por vontade própria e não por pressão dos outros. 

Tem uma das mulheres que sempre participou do bloco e só no ano passado ela ficou com os seios de fora. E é isso, todas as mulheres com vários tipos de peito, com seus tipos de corpos e o legal do bloco é que pode ter uma ressignificação do corpo da mulher, mas é muito uma coisa dela com ela mesma, cada uma com a sua vivência. 

Eu não acho que a hipersexualização do corpo da mulher vai acabar, mas o que eu acho legal é que isso se estende além do carnaval, cada uma escolhendo como quer sair. E mesmo que possa ter algum homem babaca que diga “vou lá para ver peitos”, a energia do bloco é muito maior que essas barreiras.

Leia também: Mamilos adesivados no Carnaval: transgressão ou censura?

AzMina: Qual o papel dos homens no bloco?

Dandara: Não é lugar pra macho escroto. No desfile em Olinda, as mulheres ficam no centro, com a banda, e os homens acompanham da calçada. Eu nem me preocupo, pois as próprias mulheres já fazem isso e comunicam que no meio são elas quem ficam, esse é um lugar que elas se sentem à vontade para estar ali mais livres. 

As pessoas sempre me perguntam se homem pode ir no bloco, mas, assim, eu nunca disse que homens não podiam. Inclusive, eles são importantes para algumas discussões. Eu não acho que homens não têm mais jeito. Se você, homem, apoia, respeita esse espaço, se preocupa, o bloco está aberto.

AzMina: Você acha que o Carnaval é algo político?

Dandara: O Carnaval é político dentro do viés de cada bloco. Em Recife tem muito bloco político que nasceu de partidos ou de pessoas que lutaram na ditadura. Política é o comportamento das pessoas em relação a uma coisa e no Carnaval cabe tudo. Então vai ter o bloco dos velhos, tem o bloco feminista que é político também, cada um tem a sua história e a minha é de uma mulher preta que sofreu violência policial e trouxe outras mulheres para que ninguém mais tenha que sofrer isso. Porque uma mulher com o peito de fora dá para prender, mas cinco mil fica mais difícil, né.

Assista também: Carnaval é hora de lutar por direitos?

AzMina: Qual o trabalho para pôr o bloco na rua?

Dandara: Não precisa de muito, mas todo ano é um sufoco, todo ano eu acho que o bloco não vai sair, mas na última hora ele sai! O bloco não tem carro de som, a gente sai com uma orquestra de frevo no chão, como é em Pernambuco. Mas a gente precisa de dinheiro para pagar a orquestra e o mínimo: água, som para dar avisos antes, música para fazer um esquenta. Este ano, por exemplo, queríamos trazer a Orquestra de Mulheres que toca em Olinda aqui para São Paulo, formada por musicistas profissionais, mas não tínhamos dinheiro para a passagem, hotel, o cachê. 

Leia também: O carnaval e a criminalização da cultura negra

AzMina: É muito diferente fazer Carnaval em Pernambuco e em São Paulo?

Dandara: Uma coisa que eu percebi morando aqui em São Paulo é que o Carnaval ainda é uma coisa nichada. Você tem que ir para um lugar para ter Carnaval, enquanto o resto da cidade continua funcionando normal, você não encontra pessoas fantasiadas pelo caminho. Tem também essa ideia da permissividade sexual, não que não tenha em Recife, mas lá você vai ver um maracatu e não vai ficar se beijando no meio de uma manifestação cultural africana que é o maracatu. É um desfile, tem uma ideia, você vai ver um frevo de bloco, são senhoras de 80 anos que pensaram na fantasia o ano inteiro. 

São Paulo é burocrata né, então querem controlar o número de blocos, tem que acabar até tal hora, tem que sair desse determinado local. Em Olinda não tem isso. Lá tem alguns cadastros, mas no fim junta 10 pessoas e sai, já é um bloco. Entendo a importância de organizar, mas pra mim é diferente da livre expressão do Carnaval. 

Apoie AzMina

A Revista AzMina alcança cada vez mais gente, já ganhou prêmios e tem mais de quatro anos de impacto na vida de milhares de mulheres. A gente acredita que o acesso a  informação de qualidade muda o mundo. Por isso, nunca cobraremos pelo conteúdo. Mas o jornalismo sério e responsável que fazemos demanda tempo, dinheiro e trabalho duro – então você deve imaginar por que estamos pedindo sua ajuda.

Quando apoia iniciativas como a nossa, você faz com que gente que não pode pagar pela informação continue tendo acesso a ela. Porque jornalismo independente não existe: ele depende das pessoas que acreditam na importância de uma imprensa plural e livre para um país mais justo e democrático.

Apoie AzMina

Apoie o jornalismo em defesa da mulher