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Sudeste: esperas e viagens para acessar um direito reprodutivo previsto em lei

Mesmo nos casos de aborto legal, o procedimento esbarra em demora, julgamentos e negligência. Direito garantido não é acesso garantido

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Este conteúdo faz parte de uma série:

Selo da série de reportagens 'Aborto e Democracia', com textos em verde e roxo e um triângulo em verde-claro em forma de play.
  • Demora e negligência: longas esperas, falta de orientação e falta de acolhimento são algumas das barreiras para acessar o aborto legal na região Sudeste e todo o Brasil; 
  • Julgamentos e falta de apoio: mulheres que buscam o aborto legal enfrentam julgamentos sociais e falta de apoio emocional, como foi o caso de Isabel, que recebeu críticas da comunidade; 
  • Judicialização e desigualdade: o processo de judicialização e a falta de serviços especializados expõem desigualdades no acesso ao aborto legal, afetando principalmente mulheres vulneráveis.

Moradora de Taboão da Serra (SP), a cerca de 20 km da capital paulista, Isabel* viveu um percurso doloroso no Sistema Único de Saúde (SUS) para conseguir acessar o aborto legal. Mãe de três meninos, ela descobriu na quarta gestação que esperava uma menina — sonho antigo que veio acompanhado de uma suspeita grave.

Primeiro, os médicos disseram apenas que o bebê estava “mal posicionado” durante o ultrassom. Depois, ela leu no pedido de exame uma suspeita não explicada a ela: microcefalia. Veio então um novo exame, duas semanas mais tarde, e o diagnóstico se ampliou: encefalocele, uma má-formação no crânio, incompatível com a vida.

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Feminismo bem informado

Ela não recebeu acolhimento psicológico. Pessoas a parabenizavam pela barriga. Seu filho pequeno acariciava seu ventre dizendo que a irmã logo chegaria. E, Isabel, sem saber o que dizer, se calava.

O aborto legal no Brasil é descriminalizado em poucos casos — estupro, risco à vida da gestante ou anencefalia fetal (má-formação no cérebro). Mas, mesmo dentro dessas exceções, quem busca o serviço enfrenta dificuldades, falta de orientação e demora para receber o atendimento. O acesso a um atendimento rápido e acolhedor é raro.

>> Esta reportagem faz parte do projeto Aborto e Democracia, da Artigo 19 e AzMina, que investiga as barreiras de acesso aos direitos reprodutivos em cada região do país. A série de cinco reportagens (uma por semana) se soma ao novo Mapa do Aborto Legal, atualizado pela Artigo 19, como ferramenta para garantir o aborto legal no Brasil. As matérias foram produzidas em parceria com os veículos feministas: Paraíba Feminina, Portal Catarinas e Nós, Mulheres da Periferia.

O banner traz uma ilustração colorida em colagem digital. À esquerda, mulheres diversas aparecem protestando em frente a um hospital laranja com a palavra “HOSPITAL” em destaque. Algumas seguram megafones verdes, outras levantam cartazes ou punhos cerrados. Ao fundo, há o mapa do Brasil em verde e elementos gráficos em lilás e laranja que remetem a mobilização. À direita, sobre fundo bege, está o texto: “Mapa do Aborto Legal. A primeira ferramenta a mapear os hospitais do SUS que fazem aborto legal no Brasil acaba de ser atualizada. Clique aqui para navegar pelo Mapa”
O banner traz uma ilustração colorida em colagem digital. À esquerda, mulheres diversas aparecem protestando em frente a um hospital laranja com a palavra “HOSPITAL” em destaque. Algumas seguram megafones verdes, outras levantam cartazes ou punhos cerrados. Ao fundo, há o mapa do Brasil em verde e elementos gráficos em lilás e laranja que remetem a mobilização. À direita, sobre fundo bege, está o texto: “Mapa do Aborto Legal. A primeira ferramenta a mapear os hospitais do SUS que fazem aborto legal no Brasil acaba de ser atualizada. Clique aqui para navegar pelo Mapa”

A espera pela autorização

O caminho de Isabel até a interrupção legal foi lento. Foram dois meses de espera até a primeira consulta com um serviço de medicina fetal. E mais algumas semanas até o laudo recomendando a interrupção da gestação. Como a encefalocele não se enquadrava automaticamente nas exceções para o aborto no Brasil (a previsão é para anencefalia), Isabel teve que solicitar uma autorização judicial. 

A autorização para Isabel veio quando a gravidez dela já tinha sete meses (30 semanas), e a interrupção não era mais chamada de aborto, mas de parto de natimorto — feto que nasce sem vida. Não houve acolhimento. Não houve pressa. Mas houve julgamento. Depois que a vizinhança soube do procedimento, Isabel passou a receber ligações hostis de grupos religiosos. Ela nunca soube como a informação chegou até eles.

Uma mulher tentou convencê-la a seguir com a gestação dizendo que ela estava “matando um bebê”. Ninguém sabia da encefalocele, do laudo, do desespero, da ausência de alternativas. “Fiquei muito mal, porque ela não sabe o que eu sinto, não pode me julgar”, desabafa.

Além desse percurso cruel, a experiência de Isabel expõe a alta judicialização dos casos de aborto no Brasil. O acesso ao aborto legal no Brasil continua marcado por barreiras estruturais que tornam a lei, muitas vezes, letra morta. A depender da cidade, do tempo de espera e das condições do sistema de saúde, mulheres encontram percursos muito distintos.

A imagem mostra um banner de campanha. À esquerda, há um lenço verde com a frase “Aborto livre, legal e gratuito para todes”. Ao lado, em letras grandes, lê-se: “Junte-se à maré VERDE”. À direita, há um botão rosa com os dizeres “CLIQUE AQUI”.

Entre 2021 e 2024, 3.859 pessoas realizaram aborto por razões médicas e legais na região Sudeste, segundo o Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS). Enquanto isso, entre 2020 e 2025, 28.837 passaram pelo procedimento de aspiração manual intrauterina (AMIU). Os números de AMIU não especificam o tipo de aborto relacionado, o método pode ser aplicado em abortos espontâneos, por exemplo, quando deixam resíduos no útero.

Mas o método mais utilizado nesse período foi a curetagem — raspagem do útero para remover restos do embrião. Só na região Sudeste, foram 247.716 registros. E esse é um procedimento defasado, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomenda há mais de 10 anos.

Além do risco à saúde, mulheres que interrompem uma gestação em situações não previstas na legislação brasileira — ou até devido à dificuldade de acessar um aborto legal — também lidam com a insegurança jurídica. Entre 2020 e junho de 2025, 4.291 processos judiciais relacionados ao aborto foram registrados na região Sudeste, cerca de dois por dia (em média), segundo o Painel de Estatísticas do Poder Judiciário

O infográfico apresenta dados sobre processos judiciais relacionados ao aborto nas unidades da região Sudeste do Brasil, com gráficos detalhados para os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo. Cada gráfico exibe a quantidade de processos em diferentes categorias e anos, com os dados de 2020 a 2025. As categorias de processos incluem: Aborto provocado por terceiro Aborto (sem especificação) Aborto provocado pela gestante com ou sem seu consentimento Aborto qualificado São Paulo (SP) O gráfico de São Paulo mostra um número significativo de processos, com destaque para os anos de 2020 e 2021, quando houve maior quantidade de processos em todas as categorias. O "Aborto provocado por terceiro" (10918) teve 24 processos, enquanto outras categorias, como o "Aborto provocado pela gestante", variaram entre 7 e 18 processos. Rio de Janeiro (RJ) No Rio de Janeiro, os números são mais equilibrados, com uma grande parte dos processos envolvendo o "Aborto provocado por terceiro". Para o ano de 2021, o número de processos foi especialmente alto, com destaque para 31 casos no "Aborto provocado por terceiro" e 33 casos para o "Aborto provocado pela gestante". Minas Gerais (MG) Em Minas Gerais, o padrão é similar ao de São Paulo, com o número de processos variando entre 19 e 24 casos nos anos de 2020 e 2021, especialmente no "Aborto provocado por terceiro". Em outros tipos de aborto, como o "Aborto qualificado", o número de processos foi mais baixo. Espírito Santo (ES) No Espírito Santo, a quantidade de processos é consideravelmente menor. Os números de processos para 2020 e 2021 são baixos, com apenas 2 ou 3 registros por categoria. "Aborto provocado por terceiro" aparece com 3 casos, mas os números para os outros tipos de aborto variam entre 0 e 2 casos. Esses dados são fornecidos pelo Painel de Estatísticas do Poder Judiciário, e as cores no gráfico indicam os anos de 2020 a 2025, facilitando a visualização das tendências ao longo do tempo. O infográfico utiliza mapas dos estados para ilustrar cada região e destaca as estatísticas de forma clara, permitindo uma análise comparativa das diferentes categorias de processos judiciais sobre aborto nos estados do Sudeste.

São Paulo: gestões e projetos antiaborto

De acordo com o Mapa do Aborto Legal, atualizado em 2025 pela ONG Artigo 19, o estado de São Paulo conta com 75 serviços (no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde – CNES) para realização do procedimento. Entretanto, apenas 10 destes tiveram três camadas de confirmação da realização do procedimento (federal, estadual e local), e um dos serviços afirmou, por ligação telefônica, não fazer aborto nas hipóteses legais. 

Entre os anos de 2020 e 2025, diversos projetos de lei em tramitação na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP) evidenciaram um movimento político crescente voltado à restrição da prática do aborto e à proteção jurídica do nascituro — embrião ou feto em desenvolvimento dentro do útero, mas ainda não nascido. 

O infográfico apresenta as propostas legislativas que estão em tramitação na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP) entre 2020 e 2025, abordando questões relacionadas ao aborto. A seguir estão as propostas com seus respectivos números, autoras e autores e as descrições de seus objetivos: PL 638/2025 - Altair Moraes (REPUBLICANOS) Obriga a fixação de cartazes críticos sobre o aborto em unidades de saúde do estado. PL 444/2025 - Fabiana Bolsonaro (PL) Institui uma campanha anual sobre os impactos do aborto, com foco em adolescentes. PL 98/2023 - Letícia Aguiar (PP) Garante proteção jurídica ao nascituro e obriga a notificação de suspeita de aborto voluntário. PL 582/2020 - Janaina Paschoal (PSL), Letícia Aguiar (PP), Marcio Nakashima (PDT) Exige a notificação à polícia e a coleta de material genético em casos de aborto por estupro. PL 549/2025 - Gil Diniz (PL) Cria uma campanha para promover a entrega legal de bebês para adoção como alternativa ao aborto. PL 1572/2023 - Gil Diniz (PL) Proíbe o uso de telemedicina em casos de aborto. PL 704/2021 - Gil Diniz (PL) Cria o "Dia em Memória às Vítimas do Aborto". Cada proposta é destacada ao longo de uma linha do tempo visualmente clara, com imagens representativas que ajudam a ilustrar a questão do aborto. As propostas tratam de uma variedade de questões, desde campanhas de conscientização e proteção jurídica até a proibição de telemedicina em casos de aborto, buscando regulamentar e sensibilizar a população sobre o tema.

Fechamento de serviços

Nos últimos anos, a cidade de São Paulo (SP) também tem sido palco de propostas legislativas que criam barreiras no acesso ao aborto legal. E, enquanto parlamentares tentam mudar as leis para dificultar ainda mais, na prática, os poucos serviços que existem sofrem cortes, interrupções e falta de apoio. 

Foi isso que aconteceu, por exemplo, em março de 2020, quando o Hospital Pérola Byington — um dos principais do país nesse tipo de atendimento — suspendeu o serviço de aborto legal durante a pandemia de Covid-19. 

Já em dezembro de 2023, outra unidade de referência em aborto legal, o Hospital Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte da capital paulista, teve o serviço suspenso pela Secretaria Municipal de Saúde. O hospital era o único na cidade que realizava o procedimento em gestações acima de 22 semanas.

“Quando a cidade de São Paulo, que foi onde teve o primeiro serviço de aborto legal do Brasil, fecha o único lugar onde é possível atender meninas e adolescentes vítimas de violência sexual em gestações mais avançadas, é muito simbólico e muito triste”, pontua a psicóloga Daniela Pedroso, mestre em Saúde Materno-Infantil. 

Veja mais: Projeto Meninas Mães

“E aí o que acontece? Crianças e adolescentes vítimas de violência sexual têm que viajar para outras cidades que têm esse serviço de referência”, exemplifica Daniela. Foi o que aconteceu com uma menina de 15 anos, grávida após um estupro, que já estava com o procedimento agendado. O aborto só aconteceu porque ela viajou mais de 2 mil km até Salvador (BA).

As médicas que trabalhavam no serviço de aborto legal do hospital Cachoeirinha também tiveram suas licenças suspensas pelo Conselho Regional de Medicina (Cremesp). Em abril de 2024, o órgão ainda publicou uma resolução proibindo o uso da assistolia fetal acima de 22 semanas de gestação — o procedimento interrompe os batimentos cardíacos do feto antes da retirada dele do útero, e é feito especialmente em gestações mais avançadas. A resolução foi suspensa pelo Supremo Tribunal Federal em maio do mesmo ano.

Até a publicação desta reportagem, o serviço de aborto legal continua suspenso no Hospital Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, apesar de decisões judiciais determinarem a retomada do atendimento.

Este infográfico apresenta dados detalhados sobre o aborto em São Paulo, com informações sobre os tipos de aborto realizados, as razões médicas, e outros aspectos relacionados aos cuidados pós-aborto. A seguir estão os principais tópicos abordados: Abortos por Razões Médicas (2021 a 2024) Gráfico de barras: Exibe o número de abortos realizados por razões médicas ao longo dos anos, de 2021 a 2024. Em 2021, o número foi muito baixo, com apenas 14 casos. Em 2022, esse número aumentou para 595. Em 2023, foram realizados 733 abortos, com uma leve queda para 742 casos em 2024. Total de abortos realizados por razões médicas entre 2021 e 2024 é de 2.084. Abortos por Razões Médicas por Cor (2024) Gráfico de setores: Mostra a distribuição dos abortos realizados por razões médicas em 2024, segmentados pela cor das mulheres. Branca: 410 casos Parda: 259 casos Preta: 64 casos Amarela: 7 casos Total de abortos por razões médicas em 2024 é 740. Curetagem Pós-Aborto / Puerperal (2020 a 2025) Gráfico de barras: Apresenta os números de curetagens realizadas pós-aborto ou puerperais de 2020 a 2025. Em 2020, foram 17.702 curetagens. Esse número subiu para 25.377 em 2021, antes de cair para 23.878 em 2022 e continuar diminuindo ao longo dos anos seguintes. Total de curetagens pós-aborto previstas até 2025 é de 120.579. Esvaziamento de Útero Pós-Aborto por Aspiração Manual Ultra-Interina (AMIU) (2020 a 2025) Gráfico de barras: Mostra os dados sobre o esvaziamento de útero pós-aborto realizado por aspiração manual ultra-interina (AMIU), um método utilizado para abortos em situações específicas. O número de procedimentos foi de 1.307 em 2020. Esse número cresceu para 1.916 em 2021, chegando a 2.414 em 2023. Para 2024 e 2025, o número de esvaziamentos tende a cair, com um total estimado de 11.177 procedimentos até 2025. O infográfico é uma representação visual clara e informativa sobre os diferentes aspectos dos abortos realizados no estado de São Paulo, com dados atualizados e segmentados para proporcionar uma visão detalhada sobre o tema.

Rio de Janeiro: mais abortos e apenas 4 serviços

Segundo o Mapa do Aborto Legal, o estado do Rio de Janeiro conta com 41 serviços cadastrados para realização do aborto legal. No monitoramento, apenas quatro destes têm mais de uma camada de confirmação da realização do procedimento (federal, estadual e local). Assim como em São Paulo, um dos serviços afirmou, por ligação telefônica, não fazer aborto. O estado é o segundo com o maior número de abortos legais. 

Dentre as propostas legislativas contrárias ao aborto que passaram pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) entre 2020 e 2025 destaca-se a autoria por parlamentares de partidos conservadores (como UNIÃO BRASIL, PL e REPUBLICANOS). O deputado estadual Rodrigo Amorim (UNIÃO BRASIL), autor de quatro das propostas em tramitação.

O infográfico apresenta as propostas legislativas sobre o aborto que estão em tramitação na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) entre 2020 e 2025. As propostas são organizadas de forma visual com suas respectivas autoras/autores e números dos projetos de lei (PL), e apresentam as descrições dos objetivos de cada uma. Aqui estão as principais propostas: PL 5603/2025 - Rodrigo Amorim (UNIÃO BRASIL) Obriga a cremação ou o enterro de fetos e embriões de abortos, seja espontâneo ou provocado, proibindo o descarte como lixo hospitalar e exigindo a comunicação às autoridades. PL 3197/2024 - Anderson Moraes (PL) Cria uma campanha escolar permanente sobre a valorização da vida intrauterina no estado. PL 1711/2023 - Rodrigo Amorim (UNIÃO BRASIL) Exige a fixação de placas sobre a entrega legal de bebês em unidades de saúde no estado. PL 591/2023 - Márcio Gualberto (PL) Exige que a equipe médica ofereça ultrassom e forneça informações sobre o feto e ouça seus batimentos antes de realizar o aborto legal. PL 3584/2021 - Valdecy da Saúde (PL) Institui a “Semana Pro-Vida”, com o objetivo de alertar sobre os danos causados pelo aborto. PL 5451/2025 - Rodrigo Amorim (UNIÃO BRASIL) Obriga a fixação de cartazes críticos sobre o aborto em unidades de saúde do estado. PL 2564/2023 - Thiago Gagliasso (PL), Fred Pacheco (PMN), Marcelo Dino (UNIÃO BRASIL), Tia Lú (REPUBLICANOS), Munir Neto (PSD), Giselle Monteiro (PL) Institui o “Dia Estadual da Valorização da Vida Intrauterina”. PL 844/2023 - Rosenverg Reis (MDB) Cria o “Dia Estadual da Marcha pela Vida Contra o Aborto”. PL 543/2023 - Rodrigo Amorim (UNIÃO BRASIL) Cria o “Dia em Memória às Vítimas do Aborto”, com atividades escolares e apoio a entidades pró-vida. Cada proposta é ilustrada com uma linha do tempo, destacando os anos de tramitação, e a arte é complementada por uma figura que simboliza a mobilização e a defesa de diferentes posições sobre o aborto.

Cartazes com mensagens antiaborto em unidades de saúde

Na esfera municipal, o Projeto de Lei nº 2486/2023 foi aprovado na Câmara de Vereadores da capital fluminense e sancionado pelo prefeito Eduardo Paes (PSD) como a Lei Municipal 8.936, em 12 de junho de 2025. A norma determinava a obrigatoriedade da fixação de cartazes com mensagens antiaborto em unidades de saúde. Dentre elas: “Você possui o direito de realizar a entrega voluntária do bebê para adoção de forma confidencial.

Tratam-se de políticas públicas distintas. “Uma coisa é você não querer maternar e levar a gravidez até o fim. Outra é querer interromper porque é seu direito — não é a mesma coisa entregar para adoção”, alerta Roberta Siqueira Mocaiber Dieguez, mestre em Saúde Coletiva pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e especialista em Gênero, Sexualidade e Direitos Humanos pela Fiocruz, contestando essa tentativa de confundir as políticas.

Leia mais: Dois dias num ônibus para realizar um aborto legal: meninas e mulheres ficam desassistidas em SP

A legislação carioca, no entanto, foi suspensa por decisões judiciais em duas ocasiões distintas. A primeira, em 20 de junho, foi proferida pela juíza Mirela Erbisti, que classificou a norma como uma forma de violência obstétrica. A segunda decisão, em 3 de julho, veio por meio de uma liminar do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ).

Porém, na ALERJ, o PL 5451/2025, de autoria de Rodrigo Amorim (UNIÃO BRASIL), prevê a extensão da afixação dos cartazes críticos ao aborto para todas as unidades de saúde estaduais.

Este infográfico apresenta dados detalhados sobre o aborto no estado do Rio de Janeiro, com informações sobre abortos realizados por razões médicas, os cuidados pós-aborto e os procedimentos de esvaziamento de útero. A seguir estão os principais tópicos abordados: Abortos por Razões Médicas (2021 a 2024) Gráfico de barras: Mostra o número de abortos realizados por razões médicas de 2021 a 2024. Em 2021, o número foi muito baixo, com apenas 1 caso registrado. Em 2022, houve um aumento para 323 casos. Em 2023, o número subiu para 339. Em 2024, foi registrado um total de 392, totalizando 1.055 abortos por razões médicas entre 2021 e 2024. Abortos por Razões Médicas por Cor (2024) Gráfico de setores: Apresenta a distribuição dos abortos realizados por razões médicas em 2024, segmentados pela cor das mulheres. Parda: 301 casos Branca: 49 casos Preta: 38 casos Total de abortos por razões médicas no Rio de Janeiro em 2024 foi 388. Curetagem Pós-Aborto / Puerperal (2020 a 2025) Gráfico de barras: Apresenta o número de curetagens realizadas pós-aborto ou puerperais de 2020 a 2025. O número de curetagens foi de 7.694 em 2020, subindo para 11.305 em 2021. Em 2022, o número foi de 11.440, e em 2023, 10.593. Para 2024, a previsão é de 10.709, com um total estimado de 55.672 curetagens pós-aborto até 2025. Esvaziamento de Útero Pós-Aborto por Aspiração Manual Ultra-Interina (AMIU) (2020 a 2025) Gráfico de barras: Mostra os dados sobre o esvaziamento de útero pós-aborto realizado por aspiração manual ultra-interina (AMIU), uma técnica utilizada para abortos em situações específicas. Em 2020, foram realizados 817 procedimentos. O número aumentou para 1.230 em 2021 e 1.405 em 2022. Em 2023, houve um aumento para 1.570, e a previsão para 2024 é de 1.434. O total estimado para 2025 é de 611, com um total de 7.067 procedimentos de esvaziamento de útero projetados até 2025. O infográfico utiliza gráficos claros e dados atualizados para fornecer uma visão detalhada sobre os aspectos do aborto no Rio de Janeiro, com um foco nos tipos de abortos, a distribuição por cor e os cuidados pós-aborto.

Minas Gerais: maior número de serviços de saúde confirmados

O Mapa do Aborto Legal aponta que Minas Gerais concentra 49 serviços cadastrados para realização do procedimento previsto em lei e conta com altas taxas de confirmação desta informação: 30 serviços estão listados com três níveis de confirmação (federal, estadual e local). 

Entre 2020 e 2025, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) promoveu a tramitação de propostas legislativas contrárias ao aborto com temas como riscos psicológicos, defesa da vida intrauterina e crítica à atuação institucional em casos de aborto. 

As desigualdades regionais em Minas dificultam o acesso ao atendimento emergencial para vítimas de violência sexual, especialmente nas áreas com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). 

Ane Caroline Vieira, mestre em Desenvolvimento Urbano e especialista em Direito Público, afirma que o problema começa logo após a violência. “Quando a mulher não faz uso da contracepção de emergência, ou não recebeu essa profilaxia logo após o episódio de agressão sexual, isso impacta num resultado mais severo, que é a gravidez.”

O infográfico detalha as propostas legislativas em tramitação sobre o aborto na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) entre 2020 e 2025. A seguir, estão as principais propostas, com as respectivas autoras e autores: PL 3000/2024 - Alê Portela (PL) Exige a notificação à polícia e coleta de material genético em abortos por estupro. PL 1922/2023 - Chiara Biondini (PP) Exige orientação detalhada às gestantes sobre os riscos do aborto legal e alternativas como a adoção legal. PL 1102/2023 - Chiara Biondini (PP) Institui o Dia Estadual do Nascituro e de Conscientização sobre os Riscos do Aborto. PL 2802/2021 - Bruno Engler (PRTB) Proíbe o uso de telemedicina em casos de aborto. PL 2241/2024 - Alê Portela (PL) Institui o Dia Estadual da Valorização da Vida do Nascituro. PL 1921/2023 - Caporezzo (PL) Exige orientação detalhada às gestantes sobre os riscos do aborto legal e alternativas como a adoção legal. PL 3117/2021 - Celise Laviola (MDB) Institui o Dia Estadual de Conscientização Contra o Aborto. PL 1479/2020 - Bruno Engler (PSL) Autoriza a apreensão e leilão de imóveis usados em abortos clandestinos para financiar programas materno-infantis. O infográfico é organizado em uma linha do tempo, destacando as propostas em diferentes anos, com uma paleta de cores verde e ilustrando cada projeto com uma imagem simbólica de um profissional de saúde. A apresentação é visualmente clara, facilitando o entendimento das propostas e seus objetivos.

Objeção de consciência x aborto legal via telessaúde

Além da estrutura precária, há resistência dentro dos próprios serviços de saúde. Em maio de 2025, o Ministério Público de Minas (MPMG) recomendou que o Hospital Regional João Penido, referência para atendimento a vítimas de violência sexual em Juiz de Fora (MG), mantenha exclusivamente médicos sem objeção de consciência — quando profissionais se recusam a realizar o procedimento por motivos pessoais, religiosos ou morais — no serviço de aborto legal. A medida foi motivada pela recusa de alguns profissionais em realizar o procedimento, o que deixava pacientes desassistidas, colocando suas vidas em risco.

Essa situação é recorrente: um estudo publicado na revista Femina em 2020 revelou que 60,6% das equipes médicas credenciadas pela Secretaria de Saúde de Minas Gerais entre 2018 e 2019 se recusavam a realizar abortos legais por objeção de consciência, com motivos predominantemente religiosos.

Veja mais: abortonobrasil.info

“Tem profissionais que se recusam a fazer o procedimento, mesmo em hospitais de referência — isso não é objeção de consciência, é negligência institucional”, aponta Cláudia Medeiros de Castro, mestre em Psicologia Social e doutora em Ciências. Para ela, quando o acesso ao aborto legal se torna incerto e desigual, o Estado falha com as mulheres, especialmente as mais vulneráveis.

Nesse cenário desafiador, destaca-se o trabalho do Núcleo de Atenção Integral às Vítimas de Agressão Sexual (Nuavidas), em Uberlândia (MG), coordenado pela médica e pesquisadora Helena Paro. Em 2021, durante a pandemia, ela criou o primeiro serviço público de telemedicina — atendimento médico à distância — para aborto legal no Brasil.

Desde o lançamento da cartilha “Aborto legal via telessaúde” (2021), a médica vem sofrendo retaliações que vão de ataques virtuais a ações políticas e um processo ético-profissional no Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG), que pode levar à perda de sua licença médica.

Apesar das pressões, o serviço continua ativo. Por outro lado, na Assembleia Legislativa mineira, o PL 2802/2021, de autoria de Bruno Engler (PRTB), que proíbe a realização de qualquer procedimento abortivo por telemedicina no Estado, segue em tramitação.

Este infográfico apresenta dados sobre o aborto em Minas Gerais, com informações sobre os tipos de aborto, as razões médicas, e outros dados relacionados aos cuidados pós-aborto. A seguir estão os principais pontos abordados: Abortos por Razões Médicas (2021 a 2024) Gráfico de barras: Mostra o número de abortos realizados por razões médicas de 2021 a 2024. Em 2021, houve apenas 24 casos. Em 2022, o número subiu para 165. Em 2023, foram realizados 183 abortos por razões médicas. Em 2024, o número caiu para 173, totalizando 545 casos entre 2021 e 2024. Abortos por Razões Médicas por Cor (2024) Gráfico de setores: Apresenta a distribuição dos abortos realizados por razões médicas em 2024, segmentados pela cor das mulheres. Branca: 72 casos Parda: 119 casos Preta: 14 casos Amarela: 3 casos Total de abortos por razões médicas em 2024 foi de 208. Curetagem Pós-Aborto / Puerperal (2020 a 2025) Gráfico de barras: Apresenta o número de curetagens realizadas pós-aborto ou puerperais de 2020 a 2025. O número de curetagens foi de 8.432 em 2020 e subiu para 12.427 em 2021. Esse número diminuiu nos anos seguintes: 12.105 (2022), 11.663 (2023), e 10.550 (2024). A previsão para 2025 é de 3.899, com um total de 59.076 curetagens projetadas até 2025. Esvaziamento de Útero Pós-Aborto por Aspiração Manual Ultra-Interina (AMIU) (2020 a 2025) Gráfico de barras: Mostra os dados sobre o esvaziamento de útero pós-aborto por aspiração manual ultra-interina (AMIU). Em 2020, foram realizados 1.094 procedimentos. O número subiu para 1.913 em 2021 e caiu para 1.683 em 2022. Em 2023, houve um aumento para 1.917, seguido por 2.195 procedimentos projetados para 2024. O total previsto para 2025 é de 889 procedimentos, com um total de 9.691 até 2025. O infográfico é uma forma clara e visual de apresentar dados sobre os diferentes aspectos do aborto em Minas Gerais, com gráficos que facilitam a comparação entre os anos e as categorias analisadas, como os dados por cor, tipo de procedimento e cuidados pós-aborto.

Espírito Santo: fragilidade da rede de saúde faz menina viajar

Com 175 abortos legais registrados entre 2021 e 2024, o Espírito Santo apresenta os menores números do Sudeste. Em 2024, 72% desses procedimentos foram realizados em mulheres negras. Segundo o Mapa do Aborto Legal, o estado é o que menos conta com serviços na região, tendo apenas sete cadastrados para a realização do procedimento. Destes, somente dois possuem mais de um nível de confirmação (federal e local).

No Legislativo estadual do Espírito Santo, o tema aborto é recorrente. A Assembleia Legislativa do Espírito Santo (ALES) recebeu, entre 2020 e 2025, diversas propostas com foco na regulação e restrição do aborto. A maioria dos projetos ainda em tramitação é assinada por parlamentares do Partido Liberal (PL), sendo o deputado estadual Lucas Polese (PL) autor de três das propostas.

O infográfico mostra as propostas legislativas que estão em tramitação sobre o aborto na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (ALES), de 2020 a 2025. As propostas estão organizadas ao longo de uma linha do tempo, destacando os projetos de lei (PL), seus números e autores, com a descrição dos objetivos de cada um: PL 55/2024 - Wellington Callegari (PL) Cria uma campanha permanente contra o aborto no estado, com foco em crianças e adolescentes. PL 4/2024 - Alcântara Filho (REPUBLICANOS) Também cria uma campanha permanente contra o aborto no estado, com foco em crianças e adolescentes. PL 924/2023 - Lucas Polese (PL) Obriga a fixação de cartazes críticos sobre o aborto em unidades de saúde do estado. PL 755/2023 - Lucas Polese (PL) Cria um programa de proteção ao nascituro e obriga a denúncia de aborto, rompendo o sigilo médico. PL 920/2023 - Capitão Assumpção (PL) Proíbe o uso de telemedicina em casos de aborto. PL 508/2023 - Lucas Polese (PL) Exige a notificação de casos de aborto para criar um banco de dados que subsidiará políticas públicas contra o aborto. Cada proposta está ilustrada com cores vibrantes e imagens que representam mobilizações relacionadas ao tema, como figuras que simbolizam a luta contra o aborto e o envolvimento em campanhas e movimentos. O infográfico oferece uma visão clara sobre as intenções legislativas no estado do Espírito Santo

A fragilidade da rede de saúde para o aborto no estado capixaba ficou evidente em 2020, com o caso de uma menina de dez anos, do município de São Mateus (ES). Ao ser internada com dores abdominais, foi constatado que ela estava grávida de cerca de três meses, fruto de estupros sucessivos cometidos pelo tio. Após a denúncia, a criança foi levada para um abrigo pelo Conselho Tutelar, enquanto aguardava decisões judiciais. 

Nesses casos, a justiça entra como mais uma barreira. “Quanto mais tempo você leva para garantir o acesso ao aborto, mais custos emocionais e mais complexo fica o procedimento”, alerta Roberta Siqueira Mocaiber Dieguez, mestre em Saúde Coletiva e especialista em Gênero, Sexualidade e Direitos Humanos.

Em Vitória, a menina foi internada no Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam), mas a equipe do Programa de Atendimento às Vítimas de Violência Sexual (Pavivis) se recusou a realizar o procedimento, sob a alegação de que a idade gestacional — 22 semanas e quatro dias — não estaria coberta pela legislação. Pela lei brasileira, o aborto em casos de violência sexual é permitido em qualquer tempo da gestação. 

O juiz da Vara da Infância e da Juventude autorizou a interrupção com base em uma norma do Ministério da Saúde que apontava que mesmo gestações mais avançadas podem ser legalmente interrompidas. Ainda assim, nenhum hospital do Espírito Santo se dispôs a realizar o aborto. A menina teve que ser transferida para uma unidade de referência em Recife (PE), onde finalmente teve acesso ao procedimento.

Este infográfico apresenta dados detalhados sobre o aborto no estado do Espírito Santo, abordando os tipos de aborto realizados por razões médicas, a distribuição por cor das mulheres que realizaram o aborto, os cuidados pós-aborto e os procedimentos de esvaziamento de útero. A seguir estão os principais pontos abordados: Abortos por Razões Médicas (2021 a 2024) Gráfico de barras: Mostra o número de abortos realizados por razões médicas entre 2021 e 2024. Em 2021, foram registrados 3 casos. Em 2022, esse número subiu para 50. Em 2023, o número foi de 58 casos. Em 2024, houve 64 casos, totalizando 175 abortos por razões médicas entre 2021 e 2024. Abortos por Razões Médicas por Cor (2024) Gráfico de setores: Apresenta a distribuição dos abortos realizados por razões médicas em 2024, segmentados pela cor das mulheres. Parda: 39 casos Branca: 18 casos Preta: 8 casos Total de abortos por razões médicas no Espírito Santo em 2024 foi 65. Curetagem Pós-Aborto / Puerperal (2020 a 2025) Gráfico de barras: Apresenta o número de curetagens realizadas pós-aborto ou puerperais de 2020 a 2025. Em 2020, houve 1.664 curetagens. Esse número subiu para 2.383 em 2021, 2.415 em 2022 e 2.400 em 2023. Em 2024, o número previsto é de 2.531 curetagens, e para 2025, são esperadas 996 curetagens. O total de curetagens projetadas até 2025 é 2.389. Esvaziamento de Útero Pós-Aborto por Aspiração Manual Ultra-Interina (AMIU) (2020 a 2025) Gráfico de barras: Mostra os dados sobre o esvaziamento de útero pós-aborto realizado por aspiração manual ultra-interina (AMIU), uma técnica utilizada após abortos. Em 2020, foram realizados 87 procedimentos. Esse número subiu para 110 em 2021 e 147 em 2022. Em 2023, o número foi de 210, e para 2024, espera-se que o número seja 235. O total de procedimentos previstos até 2025 é de 902. O infográfico utiliza gráficos e dados claros para apresentar as estatísticas sobre os diferentes aspectos do aborto no Espírito Santo, permitindo uma visão detalhada sobre os tipos de abortos realizados, as distribuições por cor, os cuidados pós-aborto e os procedimentos médicos relacionados.

*Nome fictício para preservar identidade da entrevistada.

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