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Os planos da oposição para o governo de Bolsonaro

Diálogo, olhar para além da bolha, rede de proteção a minorias e trabalho de base, essa é a estratégia que movimentos sociais, ativistas e partidos de oposição estão desenhando
por Amanda Célio
12 de novembro de 2018
Bolsonaro após reunião com Michel Temer em Brasília sobre transição de governo. Foto: Rogério Melo/PR/Fotos Públicas

Como enfrentar o governo de Jair Bolsonaro, eleito a presidente do Brasil, é a pergunta que tem martelado a cabeça de todo mundo que é oposição ao que ele prometeu ao longo de sua campanha, como criminalização dos movimentos sociais ou  o fim da política de cotas nas universidades. A Revista AzMina perguntou para movimentos sociais, ativistas e partidos políticos de oposição que estratégias estão planejando para os próximos anos. Não existe uma resposta única e definitiva, mas, em comum, todos querem retomar o diálogo, falar para além das bolhas, criar redes de proteção a minorias e intensificar o trabalho de base.

O movimento espontâneo e suprapartidário que atuou nas ruas para evitar a eleição de Bolsonaro foi a prévia do que deve ser essa resistência. Baixada a poeira das eleições e passada a ressaca mais pesada, os grupos progressistas estão fazendo os diagnósticos de como chegamos até aqui e como responder ao novo governo. “Estamos nos preparando para longos anos de resistência e é importante unificar a frente de luta que construímos. Precisamos estimular, coletivamente, e apoiar os movimentos para que se auto organizem”, diz a pedagoga e militante do movimento negro Dandara Tonantzin.

Para ela, é necessário combinar uma agenda política para além de atos e marchas nas ruas. “Os movimentos de resistência não vão começar a nível nacional, mas vão começar na base, de baixo para cima, com coletivos apartidários, suprapartidários, com todos que se sentem ameaçados pelo discurso do presidente eleito”, defende.

O trabalho em sistema de rede visto entre o primeiro e segundo turno, com pessoas se mobilizando para dialogar nas ruas, deve continuar. Exemplo disso foi a campanha com a hashtag “Vira Voto”, que começou na internet e pouco tempo depois foi para a rua, tendo como símbolo uma mesa improvisada na calçada com a frase “1 conversa sobre política = 1 pedaço de bolo”. O objetivo era reverter o resultado que se desenhava e reuniu artistas e militantes dispostos a convencer eleitores indecisos.  

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“As alternativas que passam pelo fortalecimento da organização popular acontecem nas escolas, nas igrejas, nos bairros, nos diversos grupos sociais”, afirma a deputada federal eleita em Minas Gerais Áurea Carolina (Psol). “Os retrocessos nas agendas sobre igualdade de gênero e livre orientação sexual vão ser contidos com um trabalho de despertar de consciência, de reflexão crítica, na proximidade com as pessoas”, diz a deputada eleita, que é ativista feminista e antirracista. 

“A grande mensagem que precisamos carregar daqui pra frente é que não podemos nos dispersar. Na dinâmica da resistência vamos ter que nos construir, nos proteger e combinar ações. Temos que procurar os grupos que estão organizados nas quebradas e se organizar com os outros maiores e buscarmos recursos, cobrarmos formação e estabelecermos uma rede cada vez mais poderosa, independente e autônoma”, afirma o professor de história da Uneafro, Douglas Belchior.

Mobilização na periferia

O estado de mobilização permanente é a palavra de ordem da Cooperifa, movimento cultural das periferias da zona sul de São Paulo que há 17 anos dialoga com os jovens da “quebrada” por meio de músicas, grafite, literatura, poesia e slams. “A tarefa é não desesperar, não sucumbir, porque para nós nunca foi fácil”, diz Jairo Periafricania, membro da Cooperifa.

Na avaliação dele, o estado de direito democrático para quem é da periferia nunca existiu. As ações militares e policiais nas favelas durante a intervenção federal decretada no Rio de Janeiro evidenciam isso ao expor os abusos cometidos aos moradores. As forças de segurança invadiram casas, roubaram pertences, praticaram espancamentos, torturas e estupros, segundo 0 relatório parcial Circuito de Favelas por Direitos, da Ouvidoria Externa da Defensoria Pública do Rio de Janeiro.

Muito por conta disso o discurso da defesa pela democracia dos atos #EleNão não encontraram grande ressonância na periferia. Pesquisa do Monitor do Debate Político no Meio Digital mostrou que as pessoas que foram às ruas no protesto do dia 29 de setembro em São Paulo, convocado pelo grupo “Mulheres unidas contra Bolsonaro”, eram majoritariamente brancas (61%), com curso superior (86%) e de renda elevada (57% com renda familiar superior a 5 salários mínimos). Ou seja, fazem parte de uma elite branca.

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O discurso conservador cresceu na periferia na brecha deixada por movimentos e partidos progressistas nos últimos anos. Esse é um dos pontos dos críticos da esquerda, como o cantor Mano Brown. No palanque de Fernando Haddad, candidato do PT a presidência, na semana anterior ao segundo turno, o cantor disse que se o PT “não conseguiu falar a língua do povo, tem que perder mesmo”. “A cegueira que atinge lá, atinge aqui também. Isso é perigoso”, disse Brown no comício nos arcos da Lapa, no Rio.

Periafricania, da Cooperifa, avalia que umas das primeiras frentes a ser prejudicada no novo governo será a da educação e da cultura. “Agora, precisamos dialogar mais do que nunca com os nossos jovens, atuar dentro das escolas até onde for permitido, criar células e bases de diálogo na rua, por meio das músicas, das poesias”, afirma. Ele avalia que jovens da periferia que votaram em Bolsonaro levados pelas notícias falsas (fake news). “Muitas pessoas votaram por questões ideológicas, essas pessoas votaram sabendo. Agora o jovem que votou na periferia não pensou nas consequências, não tem noção do que pode acontecer, porque a informação certa não chegou ali. A nossa missão é abraça-los quando ele começar a descobrir.”

Minorias  

O sucateamento das secretarias e políticas públicas voltadas para as minorias é a maior preocupação do membro da Rede Nacional de Negros e Negras LGBT, Milton Santos. Para ele, as maiores dificuldades serão manter as secretarias de igualdade social e espaços de controle social onde a sociedade civil sempre participou. “O que temos hoje como alternativa é resistir. É uma bandeira que deve ser levantada por todos os movimentos e por aqueles que se sentirem prejudicados pela falta de instâncias nas estruturas do governo, dos ministérios e em todos os espaços” afirma.

Santos lembra que LGBTs e negros já viveram durante muito tempo no limbo, sem direitos reconhecidos, sendo discriminados e mortos. “Nos últimos anos conseguimos conquistar algumas coisas e, a partir do dia primeiro de janeiro, teremos uma gestão ultraconservadora e vamos precisar resistir, nos manter nos espaços, ter serenidade.” Em casos extremos, Santos não desconsidera a necessidade de pedir ajuda a organizações de direitos internacionais.

Iniciativas da sociedade civil têm surgido para defender as minorias ameaçadas não só pelas políticas conservadoras de Bolsonaro, mas pela legitimidade que concede a violações contra mulheres, negros, índios e LBGTs, que suas palavras e gestos tratam como inferiores. É em meio a ideia de criar uma rede de proteção que nasceu o projeto Ninguém Fica Pra Trás, uma campanha de financiamento coletivo para apoiar iniciativas que acolhem pessoas vítimas de violência, intolerância, misoginia, homofobia e racismo. 

A campanha entrou no ar no dia seguinte ao segundo turno e tem como objetivo apoiar inicialmente cinco organizações de proteção a grupos vulneráveis que serão prejudicados pelo governo e barrar os retrocessos dos direitos dessas pessoas. expectativa do Nossas, organização sem fins lucrativos que atua no campo da política, e uma das articulações a frente do Ninguém Fica Pra Trás, é que a campanha floresça em outras iniciativas.

Autoritarismo

A cientista social e antropóloga Rosana Pinheiro-Machado avalia que o governo de Bolsonaro atuará com um regime híbrido, “que mistura velhas e novas formas de controle e autoritarismo com verniz democrático”, escreveu em artigo no The Intercept.

Ela destaca que, apesar de ser uma ameaça, os tempos são outros. “O Brasil de 2018 não é o mesmo de 1964. Novos movimentos explodiram nas últimas décadas e uma grande parte de brasileiros disse não ao fascismo”, avalia. De fato, a maior parte do eleitorado não votou em Bolsonaro. A soma de abstenções, nulos e brancos passou de 30%, equivalente a 42 milhões de eleitores que não escolheram nenhum candidato no segundo turno, o maior nível de abstenção desde a redemocratização.

O avanço da ultradireita e a fragilização das estruturas democráticas não é um fenômeno restrito ao Brasil, como mostram a saída do Reino Unido da União Europeia (o Brexit) e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. No livro “Como morrem as democracias”, os professores da Universidade de Harvard Steven Levitsky e Daniel Ziblatt alertam que as democracias atualmente não terminam com uma ruptura violenta nos moldes de uma revolução ou golpe militar. Agora, a escalada do autoritarismo se dá com o enfraquecimento lento e constante de instituições críticas, como o Judiciário e a imprensa, e a erosão gradual de normas políticas de longa data.

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Neste contexto, a atuação de parlamentares do campo progressista é fundamental para a construção de diálogos. A deputada federal eleita Áurea Carolina acredita que o diálogo, principalmente com as minorias, tem que vir com a construção cotidiana de formas de resistência, principalmente nas lutas mais urgentes, como o direito à moradia, contra a violência, nas lutas pelo trabalho e pela garantia de uma vida digna. “O governo Bolsonaro vai mostrar suas contradições rapidamente e várias delas já estão ficando cada vez mais nítidas para uma parcela da população que votou nele como esperança de mudança. Precisamos evidenciar as contradições”, diz. 

Para Áurea é essencial continuar fazendo denúncias e usar os espaços institucionais de poder para isso. “Os parlamentares do campo democrático precisam fazer essas críticas, assim como em cada assembleia legislativa, em cada câmara municipal, ter o foco de resistência. A nossa proteção contra violência deve também se dar nas redes de solidariedade.” Ela destaca a atuação e o surgimento de novas iniciativas, observatórios de violência e grupos preocupados com a autodefesa e autocuidado de suas comunidades. “Tem um trabalho grande e duradouro para ser desenvolvido. É um trabalho que ultrapassa qualquer conjuntura eleitoral. É um trabalho de resistência cidadã e de cidadania coletiva”, conclui.

Entre os exemplos dessas novas iniciativas está As Berthas, um projeto para formação política de mulheres. O nome foi inspirado em Bertha Luz, uma das lideres na luta pelos direitos políticos das mulheres brasileiras. Uma das fundadoras do projeto, a jornalista Gabrielle Estevans explica que a ideia é “empoderar mulheres politicamente para que elas tomem consciência e sejam lideranças para suas redes, sejam elas grandes ou pequenas”. As Berthas promovem cursos online de formação de um mês, no formato de vídeo-aulas e de forma gratuita. Ele é dividido em nove módulos, dentre os quais a história da mulher na política no Brasil, o papel das mulheres dentro do ativismo, segurança na rede, autocuidado e auto-liderança. A ideia não é sobre formar mulheres para cargos políticos, mas para que se entendam como seres políticos e se reconheçam como  líderes. 

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