logo AzMina

Mulheres negras usam estratégias de quilombo na política

Ocupando a Câmara e assembleias legislativas pelo país, mulheres negras eleitas deputadas propõem trabalhar de forma coletiva, junto com a sociedade e movimentos sociais
por Thais Folego
22 de outubro de 2018
mulheres negras politica
A deputada estadual reeleita por SP Leci Brandão. Crédito: Raoni Diniz Lemos/RAOOS Irie

O senso comum costuma associar a ideia do quilombo a locais de refúgio de escravizados de um passado brasileiro distante. Mulheres negras, porém, estão buscando nesse tipo de organização (cujas comunidades remanescentes existem até hoje) ferramentas para fazerem resistência à guinada conservadora em marcha na política. “A gente tem usado essas estruturas para nos aquilombar. Porque como estão aí hoje, elas não nos interessam”, diz Erica Malunguinho, mulher negra e transexual eleita deputada estadual em São Paulo pelo Psol.

Na Assembleia de São Paulo, ela se juntará a Leci Brandão, reeleita para o terceiro mandato de deputada estadual pelo PCdoB. “Nunca me esqueci que uma vez ela me disse: não posso ficar lá sozinha. E agora seremos vizinhas de gabinete”, conta Malunguinho. Elas terão a companhia ainda de Mônica Seixas, jornalista negra eleita a deputada estadual pela Bancada Ativista, grupo de ativistas que se reuniram em torno de uma só candidatura e conta com Erika Hilton, mulher trans e negra. “Tô cansada dessa história de primeiro negro aqui, a primeira negra a entrar ali. Há quantos anos estamos aqui?”, questiona Leci.

Na política, as mulheres negras propõem trabalhar de forma coletiva, junto com a sociedade e movimentos sociais. “Não temos condições de estarmos sozinhas nesse espaço e dizer que vamos fazer diferença estando lá isoladas”, diz Andreia de Jesus, deputada estadual eleita em Minas Gerais pelo Muitas, movimento que faz campanha e mandatos coletivos pelo Psol. Em 2016, o movimento elegeu a vereadora negra Aurea Carolina por Belo Horizonte, que venceu agora a disputa a cadeira de deputada federal com um número de votos dez vez maior do que em sua candidatura anterior.

“Temos mulheres negras ocupando assembleias estaduais pelo país todo. Não estaremos sozinhas e temos tecnologias ancestrais para superar esse modelo de democracia branca”, diz Andreia. Ela defende um processo democrático mais radical, em que as pessoas de fato construam os projetos de lei e interfiram no cotidiano do espaço político – que ela classifica como burguês, aristocrático e colonizador. “Assim é possível enfrentar não só esse momento conjuntural, mas toda a estrutura política.”

Leia mais: Mulheres na política: A luta histórica pela voz

Erica Malunguinho, primeira mulher trans negra a ocupar a Assembleia de SP. Crédito: RAOOS Irie

Erica Malunguinho diz que o povo negro viu ser construída a estrutura opressora em que se baseia a sociedade: com o homem branco no topo, seguido da mulher branca, do homem negro e, na base, a mulher negra. “Temos capacidade de desconstruir essa estrutura”, diz, citando Angela Davis: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”.

A experiência de aquilombamento é vivida por Erica na Aparelha Luzia, centro político e cultural que pariu no centro de São Paulo. O lugar se tornou um importante espaço de resistência negra da cidade e promove os mais variados tipos de eventos: de cursos e debates até lançamentos de livros e exposições de arte, passando por festas e aniversários. No fim, é um espaço de convivência onde negros e negras dividem vivências e afetos. Tanto que é definido por seus frequentadores como um quilombo urbano. “Muita gente descobriu agora que política é o território dos afetos”, diz a criadora da Aparelha.

Erica, Leci e Andreia estiveram juntas na última semana para a aula pública “No país da escravidão, de que fascismo falamos?”, organizada pela Uneafro, pelo Núcleo de Consciência Negra na Universidade de São Paulo (USP) e pela Aparelha Luzia. Elas falaram a uma plateia lotada de aproximadamente 700 pessoas no Teatro Oficina, em São Paulo. “Estamos aqui para falar de resistência. Nossas tecnologias são o aquilombamento e o ajuntamento”, disse Mariléa de Almeida, doutora em História, na abertura da aula.

Fascismo

Ideologia política ultranacionalista e autoritária, o fascismo ganhou destaque na Europa no século 20. Ele faz prevalecer os conceitos de nação e raça sobre os valores e direitos individuais e é caracterizado por um governo ditatorial e pela repressão da oposição. Seus principais expoentes foram o italiano Benito Mussolini e o alemão Adolf Hitler.

A associação do candidato Jair Bolsonaro com o fascismo tem sido feita devido às suas pautas e falas extremistas, com características bastante próximas da ideologia fascista. Entre elas está a mitificação do passado, o desprezo aos valores democráticos, o autoritarismo com elogios à ditadura militar, a negação dos direitos humanos e o ataque às minorias.

Leia mais: Como seria um governo de Bolsonaro para as mulheres?

“O autoritarismo, o militarismo e o desrespeito aos corpos é contado como tendo surgido na Europa no século 20, mas nós já o tínhamos vivido quatro séculos antes. O que acontece é que nosso sofrimento não causou empatia aos europeus”, diz Maria José Menezes, mais conhecida como Zezé, gestora do Núcleo de Consciência Negra na USP.

Hoje, ela vê esse autoritarismo presente na vida dos pretos da periferia que vivem uma realidade de arbítrios. “Na periferia a polícia arromba porta e mata. O que está acontecendo é uma exacerbação disso, agora o professor universitário também está sendo ameaçado. E isso causa comoção”, afirma.

O processo de desumanização da política deu espaço para “caricaturas humanas de arquétipos ocidentais”, avalia Erica. Ela observa que mesmos os campos mais progressistas são ocupados majoritariamente por homens brancos. “Temos que humanizar a política e trazê-la de volta para as pessoas. Humanizar o processo diz respeito a falar o que Bolsonaro não quer que falemos.”

Resistências

As mulheres negras reconhecem outras formas de resistências além das tradicionais mobilizações populares. “Escola de samba é resistência. Religião de matriz africana é resistência. Segurança alimentar [práticas alimentares tradicionais africanas] é resistência. É tudo no simbólico. Vai com religiosidade, com afeto que acolhe”, diz Andreia. Ela faz uma paralelo com os povos indígenas, que buscam a cura pela raiz. “Eles não sobem no topo da árvore.”

Erica defende ainda o autocuidado. Contou que havia acabado de chegar de Pernambuco, onde nasceu. Foi visitar mainha, comer macaxeira e “mais uma vez reafirmar que São Paulo não é o umbigo desse país”. “Temos muitos Brasis nesse território”. A deputada diz que é importante se dizer nordestina e transexual. Isso porque há uma naturalização da ausência de corpos negros, trans e LGBT nos mais diversos espaços – que se transformam em resistência quando se dispõem a estar dentro das instituições.

“Ou a gente faz um novo pacto civilizatório ou essa bomba vai estourar na cara de todo mundo”, diz Erica. Isso quer dizer, afirma a deputada, que esses corpos ocupem esses espaços não mais como destinatários de políticas públicas, mas sim as escrevendo. “O povo preto fundou a cultura brasileira apesar de toda a opressão. Somos o futuro”, diz.

Leia mais: Nilma Bentes: visibilidade às mulheres negras

As deputadas Andreia de Jesus, Erica Malunguinho e Leci Brandão. Crédito: RAOOS Irie

A coisa tá preta (e boa)

Com uma história longa dentro dos movimentos sociais, as mulheres negras têm se lançado cada vez mais na política institucional. Após o assassinato da vereadora Marielle Franco em março deste ano, crime que segue sem resposta, o Rio de Janeiro foi o Estado com o maior número de mulheres autodeclaradas pretas concorrendo nas eleições de 2018, segundo levantamento do Congresso em Foco com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

E essas sementes têm florescido. O Rio elegeu quatro mulheres negras ligadas ao trabalho e ao legado da vereadora assassinada. Amiga de Marielle e vereadora com o maior número de votos em Niterói nas últimas eleições municipais, Talíria Petrone foi eleita deputada federal pelo Estado. Já Renata Souza, Mônica Francisco e Dani Monteiro, todas assessoras de Marielle, foram eleitas como deputadas estaduais.

Leia mais: Mulheres no Congresso aumentam confiança na democracia, diz especialista da OEA

O mesmo se seguiu em outras zonas eleitorais. A Bahia, Estado com a maior população preta do Brasil, elegeu a sua primeira deputada estadual negra, a professora Olívia Santana, que já tinha sido vereadora em Salvador. Essa foi uma eleição vitoriosa também para as indígenas e populações tradicionais, com a eleição de Joenia Wapichana a deputada federal por Roraima, a primeira mulher indígena eleita no país, destaca Rebecca Souza, colunista d’AzMina.

Essas mulheres se juntam a pretas que já atuam na política há mais tempo. Como a ex-governadora do Rio de Janeiro, Benedita da Silva, que foi reeleita ao cargo de deputada federal, assim como Leci Brandão, que terá mais um mandato na Assembleia Legislativa de São Paulo. “Nossos passos vêm de longe”, lembra Erica.

O avanço das mulheres negras caminha junto com o movimento de mulheres por maior representatividade política – ainda que a questão de raça avance mais lentamente do que a de gênero. Levantamento do site Gênero e Número mostra que, em 2019, haverá 50% mais mulheres na Câmara dos Deputados do que havia em 2015. Nessas eleições foram eleitas 77 deputadas federais, 26 a mais do que em 2014. O número de negras aumentou de 10 para 13, enquanto de brancas cresceu de 41 para 63.

Como disse Malunguinho parafraseado um dos grandes sucesso de Leci: “As Marias do caroço estão chegando para fazer alvoroço”.

Para ouvir (e resistir)

A nossa colunista Luisa Toller, que escreve Vulva a Arte, fez uma lista de músicas para esses tempos de luta. Siga o perfil d’AzMina no Spotify e aperte o play!

Apoie AzMina

A Revista AzMina alcança cada vez mais gente e já ganhou mais prêmios do que poderíamos sonhar em tão pouco tempo. A gente acredita que o acesso a  informação de qualidade muda o mundo. Por isso, nunca cobraremos pelo conteúdo. Mas o jornalismo investigativo que fazemos demanda tempo, dinheiro e trabalho duro – então você deve imaginar por que estamos pedindo sua ajuda.

Quando você apoia iniciativas como a nossa, você faz com que gente que não pode pagar pela informação continue tendo acesso a ela. Porque jornalismo independente não existe: ele depende das pessoas que acreditam na importância de uma imprensa plural e independente para um país mais justo e democrático.

Apoie AzMina

AzMina é uma resposta feminista à desigualdade e ao preconceito