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Obtenha e tome pílulas abortivas com segurança, pessoalmente ou pela internet

Informações sobre aborto medicamentoso com segurança nos EUA — com dicas que importam também pra quem vive sob a criminalização do procedimento no Brasil

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  • O aborto medicamentoso é seguro e comum nos EUA, mas no Brasil só pode ser realizado em ambiente hospitalar;
  • A proteção da privacidade é fundamental, especialmente em locais onde o aborto é visto de forma hostil;
  • Mesmo sendo uma decisão segura e comum, o aborto pode exigir cuidados posteriores e suporte emocional.
Escrita por Tomas Apodaca para The Markup
Traduzida por Lídia Lino

Reportagem original The Markup
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A maioria dos abortos nos EUA é medicamentoso, feito nas primeiras 10 semanas de gravidez usando mifepristona e misoprostol. Estudos clínicos mostram que esses medicamentos são mais seguros do que muitos medicamentos de venda livre, mas devem ser prescritos por um médico.

[Nota d’AzMina: No Brasil, o misoprostol só pode ser utilizado em ambientes hospitalares ou de maneira clandestina. E o mifepristona não tem uso regulamentado no país.

Alguns estados permitem que apenas médicos prescrevam medicamentos para aborto, mas na Califórnia, vários profissionais de cuidados primários podem prescrever pílulas abortivas, incluindo médicos, assistentes médicos e enfermeiros. As receitas também podem ser obtidas em clínicas de aborto ou por meio de consultas virtuais com um médico.

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Feminismo bem informado

Em estados onde o aborto é legal, a CVS e a Walgreens atendem prescrições de medicamentos para aborto. Funcionários das farmácias têm o direito individual de optar por não disponibilizar os comprimidos em razão de crença pessoal; no entanto, a loja deve providenciar que haja alguém para atender as receitas em tempo hábil. 

Em San Diego, uma mulher que estava sofrendo um aborto espontâneo acusou a CVS de reter indevidamente os medicamentos para o aborto dela. Também é possível encomendar medicamentos para aborto pelo correio. A maioria das organizações que enviam medicamentos para aborto os embrulham em embalagens que não revelam o conteúdo e informam isso em seus sites.

Nos estados onde o aborto não é legal, ainda é possível solicitar que o medicamento seja enviado por correio de um estado ou país onde os provedores estão protegidos de repercussões, mas há riscos legais. A Linha de Ajuda Jurídica da Repro pode ajudar com estas questões jurídicas.

Tomar mifepristona e misoprostol tem sido o padrão de tratamento recomendado há décadas, mas conforme as leis mudam nos EUA, alguns profissionais de aborto estão aconselhando que as pacientes alterem a maneira como tomam a segunda pílula, o misoprostol, para obterem mais privacidade. O misoprostol pode ser tomado por via oral ou inserido na vagina. 

Se você mora em um estado com restrições ao aborto, alguns provedores recomendam tomar misoprostol apenas por via oral, porque a pílula pode não se dissolver completamente na vagina. Embora seja impossível diferenciar os sintomas de sangramento e cólicas causadas por aborto espontâneo ou provocado por medicamentos, um profissional que realiza um exame vaginal pode encontrar restos da pílula.

PERFIL DO ABORTO NO BRASIL 1 em cada 7 mulheres até os 40 anos já fez pelo menos um aborto no Brasil; Entre as mulheres que já abortaram: 81% tem religião; 39% usaram medicamento; 43% procuraram um hospital para finalizar o aborto; 52% tinham 19 anos ou menos quando fizeram seu primeiro aborto; 46% fizeram o procedimento dos 16 aos 19; 1 em cada 5 realizaram um segundo aborto. Para cada 10 mulheres brancas que fizerem aborto haverá 15 mulheres negras, aproximadamente (dados de 2016 a 2021) Fonte: Pesquisa Nacional do Aborto 2021

Consiga ajuda financeira e faça pagamentos sem se expor

Nos EUA, se você tiver seguro de saúde, ele poderá cobrir o aborto, mas se sua cobertura fizer parte do plano de outra pessoa, ela poderá ser notificada quando uma solicitação for feita. Em alguns estados, há maneiras de preservar sua privacidade. Por exemplo, na Califórnia, dependentes de um plano de seguro de saúde podem enviar uma solicitação de comunicação confidencial à seguradora para garantir que as informações não sejam repassadas ao segurado principal.

Depois de escolher onde e como você fará o aborto, a clínica poderá lhe dar opções de pagamento e, possivelmente, recomendar organizações que podem ajudar você a cobrir os custos. Se o provedor não tiver referências disponíveis, o Women’s Reproductive Rights Assistance Project e a National Network of Abortion Funds são recursos confiáveis para encontrar assistência financeira, embora as organizações nacionais estejam tendo dificuldades para atender à demanda.

Conheça mais do cenário nacional em abortonobrasil.info

Segurança de pagamento

  • Pague em dinheiro ou em vales postais, se possível;
  • Se seus extratos bancários não forem privados, use um cartão de crédito pré-pago depois de verificar se seu profissional o aceitará. Pode ser necessário confirmar sua identidade para registrar e usar o cartão;
  • Se você usa aplicativos de pagamento como Venmo e Cash App, informe-se sobre como eles lidam com informações privadas e desabilite o compartilhamento público.

Para pagar pelos serviços, especialistas em privacidade recomendam moedas físicas. “O dinheiro é rei”, disse Cooper Quintin, tecnólogo sênior da Electronic Frontier Foundation. “Mas se não for dinheiro, as ordens de pagamento dos correios são as mais próximas… em termos de anonimato.”

“Se você precisa pagar por algo online, cartões de crédito pré-pagos provavelmente são uma boa opção”, disse ele. Especialmente se “você estiver em uma situação em que alguém olha seus extratos de cartão de crédito e não vai concordar com isso”.

Minimize a vigilância do Estado caso tenha que viajar

Cruzar fronteiras estaduais para obter serviços de saúde reprodutiva é legal e protegido constitucionalmente. Mas mesmo que você não precise visitar outro estado para receber atendimento, o fardo de uma viagem pode tornar o aborto na clínica mais arriscado.

Empresas de tecnologia e agências de segurança pública têm usado telefones e outros dispositivos móveis, como laptops e tablets, para rastrear pessoas quando elas viajam. Alguns estados proíbem a polícia de compartilhar dados de vigilância, mas há agências policiais que continuam a fazê-lo. Muitos estados também participam de trocas de informações médicas que tornam muitos aspectos da assistência médica mais baratos e eficientes, mas isso também significa que os médicos em estados onde o aborto é criminalizado podem ter acesso aos registros médicos sem o conhecimento do paciente, disse Barrow, advogada do Centro de Saúde Reprodutiva, Direito e Políticas Públicas da UCLA.

Leia mais: Conselhos de medicina atuam no lobby antiaborto

Califórnia e Maryland são os únicos dois estados que aprovaram leis de proteção médica que impedem que serviços relacionados ao aborto sejam compartilhados em trocas de informações de saúde.

Especialistas em privacidade dizem que há maneiras de minimizar o risco ao viajar. De acordo com Edward Hasbrouck, especialista em viagens e consultor do The Identity Project, “[Há] muitos motivos pelos quais você pode voar para Las Vegas por um fim de semana. Talvez alguém esteja se casando, talvez você esteja indo jogar jogos de azar. O vestígio vai se perder nas diversas possibilidades, mesmo que eles tenham acesso aos dados da reserva.”

“Se você estiver atravessando fronteiras estaduais para fazer um aborto, você provavelmente não deve levar seu celular principal com você. “Compre um telefone descartável para esse propósito, se você puder pagar”, disse ele.

Se deixar seu telefone para trás não for uma opção, especialistas em privacidade digital recomendam que qualquer pessoa que não queira que empresas de tecnologia usem ou vendam sua localização deve desativar o compartilhamento de localização em seus dispositivos. Em 2021, The Markup identificou um mínimo de 47 empresas que coletam, vendem ou negociam dados de localização de celulares. Neste ano, a 404 Media divulgou como as agências policiais dos EUA compraram uma ferramenta que pode rastrear a localização de smartphones, incluindo clínicas de aborto e locais de culto, ao redor do mundo.

Proteção de Vigilância Digital

Não viaje se não for necessário. Em vez disso, receba medicamentos para aborto pelo correio.

1 – Se você tiver que viajar:

Peça recomendações e recursos ao seu contato na clínica escolhida.

Deixe seu telefone em casa ou leve um telefone emprestado, ou descartável.

2 – Se você não puder deixar seu telefone para trás:

Impeça que seu telefone compartilhe sua localização no Apple e no Android.

Desative o histórico de localização no Google, o que se aplica ao Google Maps.

Se você estiver viajando de avião, trem ou ônibus através das fronteiras estaduais, tenha outro motivo para ir ao seu destino.

3 – Se você tiver que dirigir:

Esteja ciente de que carros mais novos podem ser rastreados com aplicativos.

Verifique se há AirTags e outros dispositivos de rastreamento em seu carro.

Não estacione perto da clínica de aborto quando chegar. Use transporte público ou pegue um táxi e pague em dinheiro. Não use aplicativos de compartilhamento de viagens.

Para reduzir o risco de vigilância, Hasbrouck recomenda que as solicitantes ao aborto evitem estacionar perto da clínica de aborto quando chegarem. “A última milha é a mais vulnerável” aos radares com leitores de placa automatizados ou simuladores de estações de celular, disse Hasbrouck.

Ele recomenda estacionar em outro lugar e usar o transporte público, como “um táxi com taxímetro que você paga em dinheiro”, mas não Uber ou Lyft porque seus registros são “associados ao nome e mais fáceis de encontrar”.

Se você não tiver acesso a um carro, fazer todo o trajeto usando transporte público pode ser sua única opção. Isso atenua algumas das armadilhas de dirigir um veículo particular, mas não é possível usar o transporte público de modo completamente anônimo.

As montadoras coletam e vendem dados de localização de modelos de carros mais novos, e fazem com que o processo de não fazer parte disso seja difícil ou inconveniente para o consumidor. Dito isso, Hasbrouck acredita que é improvável que as autoridades policiais tenham amplo acesso aos dados de localização dos carros.

Depois de fazer um aborto

– Busque tratamento para complicações sem revelar informações comprometedoras

O aborto, seja medicamentoso ou procedimental, é um procedimento comum e seguro, mas complicações são possíveis, e o risco é maior quanto mais tempo você estiver grávida. Dor, sangramento excessivo e infecção por conta do procedimento de aborto são complicações incomuns, mas possíveis e que podem ser perigosas se não forem tratadas e expõem você a consequências legais se você procurar tratamento em um estado com restrições ao aborto. Até mesmo mulheres que queriam engravidar e sofreram abortos espontâneos foram acusadas de crimes, tornando o descarte de tecido fetal em abortos autogeridos ainda mais desafiador.

O que dizer nos serviços de cuidados após o aborto

  • Você não precisa dizer se fez um aborto ou tomou medicamentos para aborto.
  • Informe ao seu médico que você acredita que estava grávida e agora está sentindo cólicas e sangramento.

Outras perguntas para as quais se preparar:

  • Quando você começou a sangrar?
  • Quanto você está sangrando (quantos absorventes você enche em uma hora)?
  • Quando foi o primeiro dia da sua última menstruação?
  • Você fez um ultrassom anterior? Se sim, a gravidez foi dentro do útero ou fora do útero (ectópica)?
  • Se você fez um ultrassom, quanto tempo durou sua gravidez?
  • Você está se sentindo tonta ou com vertigem?

As pessoas não precisam revelar que fizeram um aborto para receber serviços de acompanhamento, disse a Dra. Jenn Karlin, médica de atenção primária que fornece serviços de saúde reprodutiva de amplo escopo na University of California San Francisco Health.

Os profissionais geralmente medem seus sinais vitais e realizam um ultrassom. Eles também podem coletar sangue para confirmar se você está grávida ou não.

“Se alguém está tendo sangramento vaginal, não há como o médico saber se ela tomou pílulas ou se está tendo um aborto espontâneo sem tomar pílulas. “Esses dois processos no seu corpo parecem os mesmos, em termos de sintomas”, disse Karlin.

Se lhe perguntarem diretamente se você tomou medicamentos para aborto, você não precisa responder a esta pergunta, disse Karlin. Em vez disso, as pacientes podem dizer ao médico que acreditavam estar grávidas e agora estão sentindo cólicas e sangramento.

“O fato de terem tomado ou não comprimidos, se estiverem em um estado do país que restringe o aborto, não afeta a tomada de decisão médica. “Eu teria de tratar alguém que está tendo um aborto espontâneo e alguém que tomou [pílulas] da mesma forma, independentemente de eu saber ou não”, disse Karlin.

Algumas linhas diretas, como a Linha Direta do Aborto e Aborto Espontâneo, são administradas por profissionais de saúde que podem dar recomendações sobre se você precisa ser atendida pessoalmente e como se preparar para conversas presenciais.

Descarte mensagens, recibos e papeis com segurança

Se você compartilha espaço ou recursos (como um serviço de coleta de lixo) com pessoas que você não quer que saibam sobre seu aborto, tome cuidado ao descartar recibos físicos ou documentos que você coletou. Destrua-os ou separe qualquer parte da papelada que tenha seu nome ou outras informações de identificação do restante e jogue-a em um recipiente de lixo público.

Se outra pessoa tiver acesso aos seus dispositivos eletrônicos, é uma boa ideia excluir e-mails e mensagens que você enviou e recebeu sobre seu aborto.

Excluir um e-mail pode exigir duas etapas. No Gmail, por exemplo, excluir um e-mail o move para a pasta Lixeira, onde ele ainda fica acessível por 30 dias. Você pode excluí-la permanentemente acessando a pasta Lixeira, selecionando a mensagem e clicando em Excluir definitivamente. Ou você pode clicar em Esvaziar Lixeira agora para destruir todas as mensagens na sua lixeira.

É possível excluir uma mensagem enviada ou recebida na maioria dos serviços de mensagens. No Apple Messages, por exemplo, você pode tocar e segurar uma mensagem para abrir um menu, selecionar Mais… depois tocar no ícone da lixeira para excluí-la.

Na maioria dos casos, isso excluirá o e-mail ou a mensagem dos seus dispositivos, mas não dos dispositivos das pessoas que os enviaram ou receberam de você. Alguns serviços de mensagens oferecem as opções “Excluir para todos” (Signal) ou “Cancelar envio para todos” (Facebook Messenger), mas não é possível garantir que a mensagem será excluída dos dispositivos de todos.

A menos que você esteja usando um aplicativo de mensagens criptografadas de ponta a ponta, como o Signal, a empresa que administra o aplicativo pode ter cópias de suas mensagens em seus bancos de dados, que podem ser compartilhadas com as autoridades policiais.

Busque suporte emocional

Pesquisadores concluíram, por diversas vezes, que a maioria das pessoas que fizeram um aborto sentem que foi a decisão certa, mesmo que tenha sido difícil tomá-la. Mas só porque alguém decidiu que o aborto é a opção certa para ela, não significa que ela não queira ou precise de apoio emocional.

Grupos de defesa da saúde reprodutiva avaliaram diversos grupos de apoio para todas as experiências de gravidez, incluindo aborto espontâneo:

A Planned Parenthood recomenda opções de apoio gratuitas e confidenciais para pessoas que fizeram um aborto ou sofreram um aborto espontâneo, incluindo pessoas que buscam orientação religiosa e espiritual. A All-Options Talkline é uma linha direta administrada por pares que oferece suporte para todas as experiências relacionadas à gravidez, incluindo aborto, aborto espontâneo e parentalidade. Elas também atuam como parceiras e amigas de pessoas grávidas. Esteja ciente de que a linha telefônica administrada por voluntários pode cair na caixa postal e solicitar um número de retorno.

Acesse a primeira parte da reportagem: Como proteger minha privacidade caso eu precise fazer um aborto?

*Artes de Kath Xapi

**The Markup é uma agência de notícias sobre tecnologia e seus impactos que integra a CalMatters, organização jornalística apartidária e sem fins lucrativos da Califórnia, nos Estados Unidos, usa técnicas de jornalismo investigativo, análise de dados e engenharia de software para desafiar a tecnologia a servir ao interesse público. Assine a Klaxon, uma newsletter que envia nossas histórias e ferramentas diretamente para sua caixa de entrada.

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