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Histórias de resistência para inspirar dias de luta

O resultado das eleições tem gerado medo e apreensão pelos dias que estão por vir, então fomos buscar inspiração nas mulheres indígenas e negras, que resistem e lutam por direitos há mais de 500 anos
por Thais Folego
31 de outubro de 2018

O Brasil elegeu Jair Bolsonaro a presidência do país em uma eleição bastante polarizada e que contou com o maior  percentual de nulos desde 1989. Com um histórico de posicionamentos machistas, racistas, homofóbicos e antidemocráticos, o resultado das eleições tem gerado medo e apreensão pelos dias que estão por vir.

Fomos, então, buscar inspiração nas mulheres indígenas e negras, que resistem e lutam por direitos há mais de 500 anos. “Aprendamos com as estratégias quilombolas, com a arte da capoeira de saber desviar, gingar, bater na hora certa”, escreveu a filosofa Djamila Ribeiro em sua rede social.

Sonia Guajajara

Eleições
Sonia Guajajara. Crédito: Mídia Ninja

“Não posso, não devo, não quero desistir. Preciso mostrar para todos que vou vencer. Sou uma guerreira”. Esse é o mantra de Sonia Guajajara, candidata a vice-presidência pela chapa do Psol nas eleições de 2018. O livro “Extraordinárias: Mulheres que revolucionaram o Brasil” a classifica como a líder mais expressiva do movimento indígena no século 21.

Onde vai, ela denuncia os ataques e as violações sofridas por todos os povos da Amazônia. Já viajou mais de 25 países fazendo suas denúncias e falou em uma conferência da ONU sobre as questões indígenas. Seu povo, os guajajara-tenetehara, é um dos povos indígenas mais numerosos do Brasil e estão espalhados por nove terras demarcadas no interior do Maranhão. Sonia escolheu a via da educação para lutar.

“Qualquer luta é vitoriosa quando se luta por educação.”

Trabalhou como empregada doméstica e babá entre os 10 e 14 anos para pagar o ensino fundamental, fez magistério, graduação em Letras e pós-graduação em educação especial.

 

Angela Davis

Angela Davis. Crédito: Wikimedia

Em 1968, a ativista Angela Davis se juntava aos Panteras Negras, grupo revolucionário norte-americano que lutava pelos direitos da população negra. Exatos 50 anos depois, ela luta contra as políticas racistas do presidente dos Estados Unidos Donald Trump, a quem Bolsonaro costuma ser comparado.

“É importante não reagir a cada declaração que Trump faz para mobilizar suas bases e não deixá-lo manobrar a conversa”, disse a lendária ativista, filósofa e acadêmica em entrevista coletiva recente.

Davis foi definida como uma “ativista muito perigosa” pelo presidente norte-americano Richard Nixon. Em 1970 foi perseguida pelo FBI numa grande campanha nacional. Foi presa para responder a um processo forjado de motivação discriminatória. Seu julgamento gerou grande comoção sobre a criminalização do ativismo social e o encarceramento seletivo da população negra. As manifestações pela sua libertação envolveram passeatas, shows e mobilizações. Uma das grandes lutas de Davis tem sido tornar o feminismo um movimento integrador. Ela vem estudando e denunciando há decadas a conexão entre as injustiças raciais, de gênero e econômicas.

Zeferina

Se negro se pesa em arrobas, como já disse Bolsonaro, em 2017, Zeferina pesava muitas na luta por liberdade. Líder abolicionista, mulher negra de origem angolana, trazida ainda criança ao Brasil como escrava, Zeferina se rebelou contra o sistema escravocrata e teve papel fundamental na criação, no século 19, do Quilombo do Urubi, localizado onde se encontra o Parque São Bartolomeu, em Salvador.

Símbolo de resistência, junto com escravizados e escravizadas fugidos e indígenas, Zeferina planejou um levante para atacar salvador, matar os brancos e conquistar a liberdade. A insurreição, porém, foi desmantelada pela polícia do Império, que prendeu sua líder e a sentenciou à morte. O artista Dalton Paula fez a pintura da representação de Zeferina que você vê acima para a exposição Afro-Atlânticas propondo uma reflexão acerca dos processos de apagamento e do silenciamento de personagens da historiografia brasileira.

Margarida Maria Alves

Margarida Alves. Crédito: Prefeitura de João Pessoa

Símbolo da resistência no campo, Margarida Maria Alves foi líder dos trabalhadores rurais de Alagoa Grande, na Paraíba, e estaria hoje na linha de frente contra as propostas dos aliados do presidente eleito de criminalizar os movimentos sociais.

Assassinada em 1983, seu legado permanece vivo por meio da  Fundação de Defesa dos Direitos Humanos Margarida Maria Alves e pela Marcha das Margaridas, que luta pela reforma agrária e dos direitos dos trabalhadores rurais.

A mais nova de nove irmãos, Margarida começou a trabalhar na lavoura aos oito anos e estudou apenas até a quarta série do ensino fundamental. Foi a primeira mulher no estado a ocupar a liderar um sindicato da categoria (foi presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande) e criou o Centro de Educação e Cultura do Trabalhador, para fortalecer e a agricultura familiar.

Destemida, moveu mais de 600 processos trabalhistas contra usineiros e fazendeiros exigindo direitos trabalhistas de outras classes trabalhadoras. Quando foi morta, tinha 72 ações na Justiça. “Do sangue derramado de Margarida, outras Margaridas nascerão”, dizia uma faixa em seu enterro. A data de sua morte se tornou o Dia Nacional de Luta Contra a Violência no Campo e Pela Reforma Agrária.

 

 

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