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Sabedoria ancestral em potinhos

Como o autocuidado dos povos originários foi parar nas redes sociais

Antes mesmo de estudar e aprender que Aloe vera era o nome científico da babosa, a bióloga e empreendedora baiana Sueli Conceição, 46 anos, já utilizava desde criança a planta medicinal para hidratar os cachos dos seus cabelos. Ela também já sentia o sabor amargo da gelatina de babosa que, misturada com água ou cajuína, uma bebida típica do nordeste brasileiro, aliviava quase que milagrosamente a prisão de ventre.

“É ruim, mas é bom”, dizia há quarenta anos a avó de Sueli, a lavadeira Camila Batista. Foi dela que Sueli herdou o interesse pelos saberes ancestrais das plantas e ervas que eram cultivadas no quintal de casa e usadas em rituais de autocuidado envolvendo toda a família. “Era assim que, a cada seis meses, ela fazia limpeza, banhos de assento, preparava purgantes com algumas ervas, óleos, e cuidava de todos nós”, contou.

Bem longe desse contexto de memória afetiva e sem dar o devido crédito, marcas se apropriam dos conhecimentos tradicionais de matrizes africana e indígena. Enchem as prateleiras dos supermercados e de lojas online com produtos ditos “naturais ou veganos” para atrair um mercado consumidor que vem crescendo no mundo há mais de dez anos. O segmento, com o selo repaginado do “autocuidado”, cresceu durante e após a fase mais severa da pandemia do coronavírus.

“A pandemia de 2020 intensificou a determinação de quase todos os consumidores em fazer algo para cuidar de si mesmos”, apontou um relatório internacional publicado em junho do ano passado (2021) sobre a “evolução do autocuidado” no período. Nessa busca, os consumidores querem soluções que vão além dos produtos tradicionais e fornecem uma “base holística para o bem-estar”. As vendas de alimentos e bebidas à base de plantas, por exemplo, aumentaram 34% em 2020 em relação a 2019.

Durante a quarentena, lembra Sueli, uma marca famosa lançou um óleo essencial da Jurema. “Eu fiquei muito indignada. Porque o comercial não explicava o que era a Jurema [uma planta sagrada para os povos originários]”, lembra Sueli, acrescentando que a empresa colocava aquela música de fundo que remetia aos indígenas, que remetia à floresta, mas sem dar o protagonismo.

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A bióloga Sueli Conceição já utilizava desde criança planta medicinal para hidratar os seus cabelos (Arquivo Pessoal)

E isso não acontece só com cosméticos. No período do isolamento social por conta da Covid-19, conta a bióloga, muitas empresas e profissionais da saúde tentaram criar cursos de benzimento, de rezadeiras e de ervas, navegando nessa linha do autocuidado e bem -estar. Sueli recebeu ligações de médicos do Sul querendo que ela indicasse comunidades quilombolas para que eles pudessem fazer uma imersão e aprender a utilizar as ervas nas suas práticas alopáticas. Com isso, desconsideravam os cuidados exigidos para evitar o contágio da doença. “As comunidades que atuam com a gente na produção de matéria-prima estavam fechadas por causa do vírus; E, claro, se negaram a receber gente de fora.”

Saberes, memórias e registros

Em 2018, quando fundou em Salvador a Iyá Omi, empresa familiar de cosméticos naturais e veganos, Sueli tinha feito um curso de cosmetologia na área e há anos já produzia seus próprios produtos para cuidar da pele e dos cabelos dela e da sua família. Sueli é também doutora em desenvolvimento e meio ambiente, fitoterapeuta e Egbon do Terreiro Ile Alaketu Ase Oju Omi. O desafio, segundo ela, foi unir os conhecimentos acadêmicos com os tradicionais para encontrar respaldo científico nas receitas caseiras que aprendeu desde pequena.

“Meu avô, por exemplo, usava a planta mal-me-quer [nome científico: Sphagneticola trilobata (L.) Pruski] e fazia uma tintura com alho e álcool para passar nas articulações, porque ele tinha reumatismo”. Sueli esclareceu que, analisando cientificamente, a planta e o alho são dois analgésicos importantes; o alho também é um grande anti-inflamatório. “Então, você vê que pessoas como meus avós, que nunca foram pra academia, tinham essas manipulações que possuem aplicações bem parecidas na ciência”, afirmou.

No Rio de Janeiro, o casal de empreendedores e candomblecistas Claudio Marques, 27, e Felipe Garcia, 24, fundou há três anos a Kurandé Cosméticos. Eles são netos e bisnetos de curandeiras. Para divulgar os produtos e iniciativas da empresa, sediada no Complexo do Alemão, usam as redes sociais, e aproveitam para resgatar e promover a história e costumes dos povos originários.

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No Rio de Janeiro, o casal de empreendedores e candomblecistas, Claudio e Felipe, fundou a Kurandé Cosméticos. (Arquivo Pessoal)

Felipe alerta para o saber científico das populações indígenas e africanas, do tanto que existe, do quanto que se perdeu e do quanto foi apropriado, como aconteceu com a Baunilha do Cerrado, exemplifica ele. O caso, que ganhou repercussão em abril de 2019, envolve produtores quilombolas do Território do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga e o chef Alex Atala. Os quilombolas alegaram terem sido prejudicados pela atitude do chef de registrar no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) o uso do nome da baunilha produzida por eles. Atala emitiu nota na época dizendo que tomou a decisão para “preservar o projeto, proteger a baunilha de uma possível super exploração em estado selvagem e cumprir com o convênio com a Fundação Banco do Brasil”.

“Daqui a cem anos, a gente não vai mais saber que aquele produto era feito numa comunidade quilombola e quem vai ficar como grande descobridor da baunilha vai ser quem foi lá e a patenteou”, diz Felipe, que é estudante de biologia.

Nas redes sociais, chama a atenção a quantidade de posts compartilhados com as hashtags #selfcare (64.455.571 publicações só no Instagram) e #autocuidado (com 7.276.592 publicações). Muitos vêm com frases motivacionais e selfies de influenciadores digitais vestidos de roupão com rodelas de pepino nos olhos. Há todo tipo de receitas naturais e dicas de produtos e serviços que prometem o combo ‘equilíbrio e bem-estar’, mas podem estar focados mesmo é na aparência e no consumo.

“É preciso que as pessoas reflitam sobre a origem do que estão comprando e colocando na cara. Ficam apenas naquela coisa da indústria da beleza e acabam tornando fútil algo que é essencial para todo ser humano”, comenta Felipe.

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Sustentabilidade

O momento do autocuidado é também de conscientização para os jovens empreendedores do Complexo do Alemão. Entre uma sessão de massagem ou aplicação de cremes para skincare com familiares, amigos e vizinhos da comunidade, Felipe e Cláudio aproveitam para conversar sobre autonomia e sustentabilidade.

“Muitas vezes a gente vê blogueiras falando sobre insumos de fora, como óleo essencial, que você tem que comprar, mas são extremamente caros”, afirma Felipe, indicando que é possível utilizar matérias-primas que têm na região, “que são nossas, fazem um efeito melhor ao tipo de pele do nosso povo e ao nosso clima, são mais acessíveis”. E, o mais importante, podem gerar renda para quem não pode pagar por esse autocuidado.

A realidade é que o autocuidado é essencial para todos, mas não está acessível para a maioria da população brasileira. Qual o acesso, por exemplo, que a mulher pobre, preta e periférica, que historicamente foi excluída, tem? Ela vai escolher se vai pagar uma escola melhor pro seu filho ou vai comprar cremes? Vai fazer feira ou vai malhar? Esses questionamentos são da psicanalista Letícia Rezende, do Centro de Pesquisa em Psicanálise e Linguagem (CPPL), no Recife. “O autocuidado vem da necessidade individual, mas as necessidades são diferentes quando falamos, sobretudo, de gênero e raça”, destacou ela.

Para a bióloga Sueli Conceição, é mesmo um contrassenso debater o autocuidado sem levar em consideração a desigualdade social. “As pessoas que se apropriam desse discurso são bem nascidas, têm tempo de acordar e fazer um alongamento, respirar fundo, fazer uma meditação e pensar nesse lugar do autocuidado”, considera. Do outro lado, tem-se pessoas que estão “tentando atender suas necessidades diárias, seja na alimentação, em busca de emprego, cuidando de um monte de filhos, tentando sobreviver.”

A jornalista pernambucana Geísa Agrício, 40 anos, se divide entre o papel de mãe, de gestora cultural do Desenvolvimento Institucional do Paço do Frevo e de militante feminista, negra e gorda para criar conteúdo nos perfis @Gordaquechama e @RecifePretour. Ela ressalta que as mulheres negras da periferia também curtem se cuidar, “lotam os salões de beleza e investem dinheiro nisso, até o que não tem.” Só que o debate é mais complexo quando se vai além do consumo individual.

“Ensinamos as meninas a terem orgulho do que são. Elas aceitam seus corpos e trançam o cabelo para se sentirem bonitas”, conta Geisa. Mas o cuidado com elas também precisa estar em entender o que é consentimento, “evitar relacionamentos violentos e abusivos, e poder usar camisinha nas relações sexuais”, pondera Geisa.

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Beleza negra

Pensar o autocuidado apenas sob o viés do consumo também faz com que as mulheres caiam nas velhas armadilhas montadas pela publicidade. As marcas estão de olho nos avanços das lutas feministas e negras e nos novos padrões de beleza estabelecidos, com o objetivo de sempre: vender.

Hoje temos shampoo para cachos, hidratante para diversas tonalidades de pele e por aí vai. O feminismo negro deu uma chacoalhada nos padrões. Aquela beleza apenas da mulher branca, de cabelos lisos, olhos azuis ficou ultrapassada, demandando incluir a beleza da pele negra, dos cabelos cacheados e crespos.

Graças aos movimentos sociais, as pessoas negras, e também as gordas, passaram a ocupar os espaços e já não querem abrir mão dessa representação na mídia e na publicidade. Mas o debate não pode parar por aí. Geísa destaca que se essa discussão também ficar na camada superficial do indivíduo, a mudança real não acontece.

“É interessante pro mercado que o autocuidado vá só até a camada da beleza e do bem-estar. Mas, se eu continuo preocupada com o etarismo [preconceito relativo à idade], eu não estou mudando nada, eu continuo com medo de envelhecer igual à minha vó”, avalia Geisa.

Colocar a mulher nesse lugar do mito da beleza, tão presente na ditadura do autocuidado, sempre foi uma das estratégias de dominação do patriarcado. “O tempo que a gente gasta individualizando este cuidado, a gente não está agindo em rede, não está se mobilizando coletivamente para as questões de gênero”, aponta Geisa. Segundo ela, o foco deveria estar na autossuficiência financeira, liderança política, planos de carreira, ciência, e “no desenvolvimento de uma nova epistemologia sobre nós mesmas, até o real direito de escolha.”

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Saúde mental e autoconhecimento

Falar sobre autocuidado, principalmente após toda essa vivência pandêmica, pede que se olhar para a saúde mental e o autoconhecimento. “Eu acho que a pandemia trouxe pra nós a dimensão maior do cuidado psíquico, porque obviamente o cuidado físico, o cuidado com a aparência, estavam lá nas redes sociais, no mundo virtual”, ressalta a psicanalista Letícia Rezende, que percebeu o aumento de uma procura por atendimento nos consultórios.

Para a psicanalista, cuidar de si tem dimensões importantíssimas. “A minha aparência pode estar condizente com uma aparência normativa, mas eu posso estar absolutamente descompensada psiquicamente e isso vai ter repercussão na minha vida.”

Letícia indica que autocuidado também diz respeito ao outro, ainda que se entenda o prefixo do termo como algo para si. “Eu preciso estar bem, preciso cuidar de mim para não adoecer o outro.”

E, mais uma vez, o conhecimento ancestral do povo preto e indígena tem muito o que contribuir com essa discussão também. Sueli Conceição é bióloga, acadêmica, mas também é uma mulher do Candomblé. “De onde eu venho, cultuamos muito o Ori, a cabeça. E ela tem que estar equilibrada para todo corpo estar equilibrado”, considera.

Primeiro, você tem que refletir sobre você, se reconhecer, se identificar, a partir do processo também de autopreservação. “Só assim poderá fazer escolhas, inclusive identificar quais são aqueles produtos ou serviços que vão te trazer para esse equilíbrio”, explica Sueli.

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Pensando no coletivo

Os empreendedores do Complexo do Alemão se viram motivados a diversificar a atuação nas comunidades durante a pandemia e criaram o Instituto Casa Kurandé. Lá, eles oferecem cursos, oficinas, palestras e eventos nas áreas de saúde, bem-estar, terapias holísticas e fabricação de produtos naturais, estimulando o empreendedorismo local e a geração de renda. Ao todo, 1.580 pessoas foram impactadas.

O curso de Sabão da Costa foi um dos mais procurados. Pelo menos 500 a 600 pessoas puderam aprender a fabricar seu próprio sabão e a se proteger do coronavírus, além de ganhar dinheiro. Em 2020, a iniciativa recebeu um prêmio de aceleração de empresas; e, este ano (2022), será ampliada para outras comunidades, numa parceria com uma instituição privada.

Já Sueli, da Iyá Omi, foi parar recentemente no programa Ideias à venda, um reality show sobre empreendedorismo produzido pela Netflix Brasil. Uma das suas linhas de beleza e autocuidado mais vendidas é feita à base de óleo de dendê com amêndoas, o que chamou a atenção da produção do programa. Apesar de ser mais famoso pela utilização na culinária baiana, o óleo ou azeite de dendê possui diversas outras aplicações e seus benefícios ainda são desconhecidos pela maioria.

“Minha avó usava azeite de dendê para poder pentear os nossos cabelos e manter a hidratação da pele negra, para não ficar acinzentada.” No episódio do reality, Sueli aproveitou para destacar a importância do papel da rede de produção da matéria-prima existente em 12 comunidades tradicionais da região metropolitana de Salvador. Ela aproveitou cada segundo do espaço de visibilidade para falar sobre suas origens e defender os conhecimentos passados por gerações.

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