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20 de agosto de 2026

O silêncio sobre a violência sexual me custou anos de vida

Após o abuso sexual na infância e o estupro aos 19 anos, leitora enfrentou o controle de quem pretendia protegê-la, mas tirava sua autonomia

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+++ Aviso de gatilho: Este relato contém informações que podem acionar gatilhos por traumas relacionados à violência sexual e psicológica.

Eu tinha entre 10 e 12 anos. Essa é uma memória que o tempo não apaga, embora eu queira esquecer. Todos os dias, minha rotina incluía uma tarefa obrigatória: levar uma marmita e um litro de leite para um dos meus padrinhos de batismo. Ele era médico e morava sozinho. Minha mãe pagava as consultas médicas da nossa família com serviços eventuais e alimentos.

Naquele tempo, eram muito comuns surtos de doenças infecciosas como sarampo, catapora, coqueluche e rubéola. Eu tive todas elas. Eu também era vista como uma criança muito magra e sofria com enurese e infecções urinárias recorrentes. Por esses motivos, minha mãe me levava com frequência para consultas. 

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Minha criação luterana me ensinou a ver a figura do padrinho como algo sagrado, quase uma extensão paterna. No entanto, o comportamento dele era distorcido. Muitas vezes, ao chegar, eu o encontrava fingindo consertar o carro, deitado debaixo do veículo com os órgãos genitais para fora do calção. Era uma cena chocante. No início, forcei-me a acreditar que era um acidente. Mas, na verdade, era exibicionismo deliberado.

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Sob pretexto de me examinar, ele cometia abuso sexual

O terror escalou rapidamente. Usando balas de menta como isca, ele me atraía para o interior da casa. Lá, me prendia entre suas pernas sob o pretexto de “examinar se eu tinha vermes”. Suas mãos tocavam minhas partes íntimas. Eu sentia um horror paralisante e uma urgência desesperada de fugir, mas ele era muito mais forte que eu. Em outras ocasiões, ele me beijava à força. Até hoje sinto o nojo do cheiro de cigarro e do bigode roçando em mim. Eu me desvencilhava e corria o mais rápido que podia.

Quando o sofrimento se tornou insuportável, decidi contar para minha mãe. O pavor tomou conta dela, mas a reação seguinte foi o silêncio. Ela implorou para que eu não contasse aos meus irmãos. Sabia que eles tentariam me defender, mas que a justiça não alcançaria um homem poderoso. “A corda sempre arrebenta pelo lado mais fraco”, disse ela. Eu não tinha sequer um pai para me proteger, e lembro de responder, chorando, que eu não tinha culpa do meu pai ter morrido.

Foi então que descobri que o ciclo de abuso tinha acontecido antes com a minha irmã mais velha. Na época, a esposa do médico não acreditou, as filhas dele se voltaram contra a minha irmã e ameaçaram processar minha mãe por difamação. Diante da nossa total vulnerabilidade, minha mãe me ensinou frases de defesa: “O que o senhor está pensando que eu sou?” e “O senhor gostaria que fizessem isso com as suas filhas?”.

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Como encontrei uma forma de escapar

Passei a repetir essas palavras como um escudo, mas elas viraram combustível para a crueldade dele. Ele debochava da minha tentativa de resistência. Me humilhava, chamando de “pobretona”, “feia” e “pernas finas”. Com total naturalidade, afirmava que suas próprias filhas já faziam aquilo e ele não se importava.

Como eu não tinha a opção de parar as entregas, criei minha própria estratégia de sobrevivência. Passei a ficar à espreita no portão, escondida entre as árvores. Esperava pacientemente até que a campainha do consultório tocasse e ele fosse atender um paciente. Assim que a cozinha ficava vazia, eu entrava correndo, largava a marmita e o leite, e fugia. Foi assim que consegui me livrar daquele pedófilo.

Muitos anos se passaram. No dia do seu sepultamento, fui ao velório. Olhei fixamente para aquele homem deitado no caixão. Não senti tristeza e não derramei uma única lágrima. Senti, confesso, o prazer silencioso de quem finalmente se viu livre do seu pior carrasco.

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Uma noite tranquila virou o trauma do estupro

O tempo passou e a minha vida seguiu repleta de momentos bons. No entanto, aos 19 anos, fui estuprada por um desconhecido. Daquela noite, restaram apenas flashes dolorosos, como o sangue na minha roupa e a frieza do exame pericial que indicou penetração anal (eu não lembro). O trauma psicológico, contudo, ecoou em mim por muitos anos.

Em uma noite qualquer, eu caminhava pela cidade com meu ficante da época. Tínhamos bebido algumas cervejas quando ele decidiu pedir maconha a um homem encostado na parede de um bar. O homem afirmou que um amigo dentro do bar conseguiria. Eles voltaram com o baseado e nos chamaram para acompanhá-los rua abaixo. Ingenuamente, passamos à frente e seguimos na direção indicada, que, segundo eles, estaria livre de policiais.

O cenário mudou em segundos. Alguém me rendeu por trás, pressionando uma faca gelada contra mim. Fui arrastada para baixo da escadaria entre dois prédios e violada ao lado de um morador de rua que dormia. Do lado de fora, o comparsa vigiava meu ficante. Fragilizado física e psicologicamente pela dependência de álcool e drogas, ele não conseguiu reagir.

Mais tarde, soube que eles já se conheciam dos campos de futebol locais.  Quando o pior passou e eles foram embora, decidimos registrar a ocorrência. O medo e a vergonha nos calaram sobre a busca pela maconha, então dissemos apenas ter sido abordados na rua. Guardo até hoje os olhares de desdém dos policiais e seus questionamentos culpabilizantes: “Então, hein, magrinha? O que andavas fazendo a essas horas na rua?”. Como quase sempre fazem com a vítima, eu fui julgada.

A prisão deles ocorreu dias mais tarde, por um motivo diferente. Fomos submetidos a uma acareação. Ficar frente a frente com os meus agressores foi uma das coisas mais difíceis que já passei. O cúmplice, “filhinho de papai”, saiu ileso. Já o executor do estupro, um homem negro, foi jogado em uma cela, tendo seu rosto desfigurado pela tortura policial.

Sei que parece inacreditável, mas a verdade é que senti pena ao vê-lo todo roxo dos espancamentos. Tentei carregar esse peso sozinha para poupar minha família, mas o segredo não durou muito. Minha irmã, por ser policial, achou o registro da ocorrência. Para completar o pesadelo, amigas da minha mãe ligaram para ela após ouvirem meu nome completo sendo divulgado no rádio.

Contar a verdade para a minha mãe foi uma das etapas mais dolorosas de tudo isso. Ver o sofrimento dela me partiu o coração; ela estava envergonhada com a exposição, consciente de que a cidade inteira já comentava o caso. Para evitar mais estragos, decidi me antecipar e conversar com meu irmão. Por também ser policial, a reação dele foi de pura revolta.

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A denúncia também tirou minha liberdade

Na época, o arrependimento por ter feito o boletim de ocorrência me corroía. Parecia que as consequências após a violência pesavam muito mais do que ela própria. O resultado imediato de ter buscado a polícia foi a perda total da minha liberdade. 

Quando meu irmão me chamou para morar com ele na capital, aceitei na hora. Vi ali a chance perfeita para um recomeço absoluto. Queria me livrar de tudo, inclusive da maconha — algo que eu só tinha experimentado umas cinco vezes, já que a gente gastava mais tempo tentando comprar a droga do que fumando de verdade. Nunca mais fumei.

Mas o recomeço logo se transformou em cárcere. Sob o teto novo, cada passo meu era vigiado pelo meu irmão. Havia a imposição diária de quatro horas de estudo para o vestibular; eu sustentava os olhos nas páginas, fingindo ler, enquanto minha mente flutuava no vazio.  Impulsionada pela minha rebeldia natural, me recusei a aceitar aquela submissão. 

Matriculei-me num cursinho pré-vestibular, transformando as aulas na minha única válvula de escape de casa. Ali eu era livre  e era o momento perfeito para me encontrar com meu novo namorado. Um dia, após uma briga feia com a minha cunhada, saí de casa e me abriguei na casa dele por uma semana. Depois, fui para uma Casa de Estudante e segui em frente.

Até hoje sinto que os homens da minha família reduzem minhas ideias a um suposto idealismo ingênuo e emocional. Agora, com 64 anos, sinto-me mais segura e, apesar do nó na garganta, já consigo me expressar em público, a depender do assunto. Inclusive, estou publicando o meu primeiro livro de memórias, mas só as boas. Silenciar e suportar essa dor me custou anos de vida. Hoje, decidi colocar minha voz para fora porque sei que este silêncio também cala muitas outras mulheres.

*Arte: Giulia Santos 

**Texto revisado com uso de IA

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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