logo AzMina
16 de maio de 2022

Pequeno Dicionário Antigordofóbico

Parte 2

Quando aprendemos a falar, geralmente não damos conta de que as palavras que são ensinadas foram inventadas por alguém. Elas não fazem parte da natureza que nos circunda, mas sim foram naturalizadas. Ter consciência disso é importante porque nos faz compreender que, apesar de parecer, palavras não são neutras. Foram criadas em algum contexto específico, e até hoje são usadas para dar nome e significado às coisas. Em muitos casos, os termos e expressões que utilizamos surgiram dentro de uma lógica de opressão.

A linguagem neutra, por exemplo, – que ainda é polêmica – vem para nos mostrar muito mais que o costume de dizer ela/ele/elu. Enquanto puristas do idioma esperneiam por aí sobre o quão inconveniente eles percebem a troca, identificamos que, pela língua, somos levados a pensar em um mundo binário, que não comporta realidades para além do nosso próprio umbigo… Está mais do que na hora de a gente rever isso.

A língua não é estanque; ela é viva, está sempre em movimento. É fundamental entendermos que a ressignificação de alguns termos também faz parte da desconstrução do preconceito – e da construção de uma sociedade que não discrimine e violente pessoas gordas.

Por isso, hoje eu atualizo o Pequeno Dicionário AntiGordofóbico, que publiquei aqui em 2021, com novas expressões, para nunca esquecermos o peso das palavras. Aí vai:

Olho Gordo: associada à ganância, essa expressão se relaciona a algo que é insaciável, como a pessoa gorda que como sem parar. Além disso, traz uma conotação negativa ao termo “gordo”, que a gente precisa parar de usar. 

Pensamento/Cabeça de Gordo: vem na mesma linha do “gordice”, que está na Parte 1 do dicionário. Além de reforçar o estereótipo de que as pessoas gordas comem demais, e comem “o que não devem”, desconsiderando os outros fatores que interferem no peso, estimula a relação de culpa com a comida – gatilho para transtornos alimentares.

Baleia/Elefanta/Porca ou qualquer outro animal: uma das formas de ação mais cruéis da gordofobia é justamente desumanizar a pessoa gorda, ao tratá-la como bicho ou como coisa. Há quem diga que “é só uma piada”, mas na prática, tem pessoas gordas tendo que ir a clínicas veterinárias para fazer seus exames, , pois são destratadas em consultórios médicos 

Peso Ideal: essa se baseia no cálculo do Índice de Massa Corpórea, o IMC, que há tempos já vem sendo problematizado para definir a condição de saúde de alguém, mas que ainda é amplamente utilizado. A mensagem de que há um “peso ideal” para alguém tem gerado uma busca desenfreada e a qualquer custo por um corpo que, muitas vezes, não é nada saudável, mas que visualmente é lido como tal.

Leia mais: Pequeno dicionário antigordofóbico – parte 1

Corpo Perfeito: nossos corpos são perfeitos como são, e a ideia de que o corpo padrão – especialmente o midiático – é o tal do corpo sem defeitos, anda de mãos dadas com o propagado “peso ideal”; são gatilhos para transtornos de imagem e alimentares que a gente sabe onde vão dar. 

Vai comer só/tudo isso?: se você não é nutricionista e nem está pagando pela alimentação daquela pessoa, o que você tem a ver com o tanto que ela está comendo? O prato de alguém não é público para receber opinião de terceiros, e cada pessoa sabe o tanto de comida que a satisfaz. Cuide da sua vida!

É pela sua saúde!: quer um spoiler? Não é! Associar magreza à saúde e gordura à doença, apenas a partir de um diagnóstico visual, é um dos pilares da gordofobia. E mesmo que isso fosse 100% verdadeiro, não justifica a intromissão de quem – na maior parte das vezes – nem conhece a pessoa para falar sobre a condição de saúde dela. Apenas pare.

Já pensou em fazer dieta?: sob diversos pretextos, quem aborda a pessoa gorda com essa frase sente que tem a liberdade para sugerir cardápio, procedimentos estéticos e exercícios físicos ideias, sem qualquer conhecimento técnico para isso. Escondido de boas intenções está um discurso que coloca a pessoa gorda em uma posição inadequada, desviante, culpada única e simplesmente por não estar em um padrão social imposto. Bom seria se cada um cuidasse do seu corpo, da sua vida, dos seus interesses… E deixasse a gente ser feliz em paz; sendo quem a gente é. Já pensou? 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Somos movidas por uma comunidade forte. Falta você!

AzMina ajudou a revolucionar a cobertura de gênero no jornalismo brasileiro nos últimos 6 anos. Com informação e dados, discutimos temas tabus, fazemos reportagens investigativas e criamos uma comunidade forte de pessoas comprometidas com os direitos das mulheres. Muita coisa mudou nesse meio tempo (feminicídio deixou de ser “crime passional” e “feminista” xingamento), mas as violências contra as mulheres e os retrocessos aos nossos direitos continuam aí.

Nosso trabalho é totalmente independente e gratuito, por isso precisamos do apoio de quem acredita nele. Não importa o valor, faça uma doação hoje e ajude AzMina a continuar produzindo conteúdo feminista que faz a diferença na vida das pessoas. O momento é difícil para o Brasil, mas sem a nossa cobertura, o cenário fica ainda mais tenebroso.

FAÇA PARTE AGORA