logo AzMina
21 de setembro de 2026

Quem acolhe uma criança depois dela ser exposta?

Tive uma imagem íntima vazada aos 12 anos e descobri, da pior maneira, como o despreparo dos adultos pode ampliar os danos da violência digital

Nós fazemos parte do Trust Project

Ilustração com fundo roxo texturizado. No centro, um celular inclinado exibe, em preto e branco, o retrato de uma jovem. Sobre os olhos dela, cinco blocos cor-de-rosa formam a palavra “AJUDA”.

++ Alerta de gatilho: o texto a seguir contém relato de exposição de imagem íntima sem consentimento, assédio e sofrimento emocional intenso

Sabe aquele sonho clichê em que a gente volta à infância, no pátio da escola, os alunos apontando e rindo e, quando você se dá conta, percebe que riem porque você está pelada? A sensação é de um calor subindo o corpo, uma ansiedade generalizada, a vontade de sumir daquele lugar. Felizmente, para esses episódios, existe o despertar do pesadelo. Agora, você pode levantar da cama e seguir a vida normalmente. O calor já passou. 

Comigo aconteceu algo parecido no mundo real, mas eu não estava no pátio da escola. Essa exposição aconteceu através de uma tela, quando eu tinha 12 anos e era recém-chegada em uma nova escola.

Quando cheguei à instituição, referência entre a elite da cidade, me encantei. Pelo espaço, pelas atividades e, claro, pelas pessoas. Não demorou para um menino da mesma série me dar bola. Começamos a trocar olhares pelos corredores, mas a conversa mesmo só acontecia online. Para mim, aquele joguinho fazia parte de uma sedução meio fantasiosa e não tinha nada a ver com ele não querer que ninguém nos imaginasse juntos. Até porque, no online, ele me chamava de princesa e de gatinha, o que eu só tinha visto em filmes românticos.

Não dá conta de acompanhar as notícias? Deixe que a gente te ajuda!

Feminismo bem informado

Depois de alguns flertes, ele me enviou uma imagem íntima. Fiquei em choque, travei por alguns minutos, mas senti que aquela imagem, mesmo sendo enviada sem solicitação, deveria ter uma resposta à altura. Por isso, fiz o mesmo. Seguimos a conversa e fui dormir, mais uma vez, encantada.

Quando minha intimidade foi exposta na escola

No dia seguinte, cheguei atrasada e tive que esperar a oração tocar inteirinha para poder entrar na sala de aula. Ave Maria Sertaneja na voz de Luiz Gonzaga. Pense numa demora! Sim, estamos falando de um colégio católico bem tradicional, repleto de valores conservadores impregnados nos discursos e ações pedagógicas. 

A oração passou e eu pude entrar, mas logo fui recepcionada pela Aluna Fofoqueira. Com iniciais maiúsculas, porque acredito que toda experiência escolar é marcada por essa personagem, que é a pessoa portadora das novidades sobre a vida de todos os alunos. A Aluna Fofoqueira me deu a notícia que vocês já devem suspeitar: “Gustavo* vazou o seu nude no grupo do oitavo ano B”. Hoje em dia já tem um nome para essa violência: sexting vazado. Tive uma vontade enorme de sumir.

Leia Mais: Adultização e hipersexualização: até conteúdo inofensivo de crianças e adolescentes é sexualizado no TikTok

Assim como acontece no pesadelo, eu travei. Me subiu um calor no corpo, uma ansiedade generalizada, a vontade de sumir daquele lugar. Fui andando de fininho na tentativa de não ser notada mas, como se não bastasse o fato inédito do qual eu era protagonista, eu cheguei atrasada e entrei na sala de aula sozinha. É claro que todos os olhares se voltaram para mim e eu quis, pela segunda vez naquele dia, sumir.

Depois do burburinho correr solto ao longo do primeiro horário, fui parar na sala da coordenação pedagógica. Não me recordo se por vontade própria ou se fui chamada, só lembro de estar lá, frente a frente com a figura que tinha uma energia tenebrosa como a Senhorita Trunchbull, cruel e temida antagonista do filme Matilda. Ficamos nos encarando de forma embaraçosa e ansiosa por alguns minutos. A expressão dela era de reprovação e essa foi a terceira vez, naquele dia, em que eu quis desaparecer.

Não fui acolhida, apenas julgada

Neste primeiro momento, só eu fui chamada, risos. E reforço: a minha presença foi exclusivamente para esclarecimentos. Como se eu fosse um adulto acusado de um crime grave, sabe? Não me acolheram ou demonstraram algum interesse em saber como estava me sentindo. Depois do silêncio, precisei responder a um interrogatório. Talvez, na época, eu nem soubesse o que significava ter ou não moral, mas a impressão era de que eu tinha faltado, que pratiquei algo errado. Ainda mais tão jovem para ter esse tipo de interação, não é mesmo? 

Depois desse interrogatório cruel e pouco útil, me informaram que entrariam em contato com os meus pais, dada a gravidade da situação na qual “eu” havia me colocado. Sobre os pais do menino, não lembro se também compareceram. Se aconteceu, certamente não o fizeram com a mesma urgência. Hoje, eu entendo que a questão não é a necessidade de punir a outra criança, mas ainda me pego pensando sobre a postura dos adultos. Nenhum deles pensou em usar a situação para falar com os alunos da turma, ou de toda a escola, sobre educação sexual digital.

Leia Mais: Por que o “consentimento” divide quem estuda  direito das mulheres?

Atualmente, espera-se que os educadores estejam treinados para identificar possíveis sinais de violência. No meu caso, ela aconteceu na frente deles e, ainda assim, não passei por nenhum protocolo de acolhimento. Fui jogada de volta à sala de aula, apenas para ouvir mais humilhações que vinham não só de alguns alunos, mas principalmente da minha própria cabeça. Tive que lidar até com o engajamento do professor de inglês na “fofoca” da vez. Essa foi a quarta ocasião, naquele dia, em que eu quis desaparecer.

Tive que superar sozinha as marcas daquela violência

As semanas prosseguiram e eu passei o restante do ano me autointitulando “a menina do nudes”. Ficava com vergonha de transitar pela escola, de interagir com alunos e funcionários. Me perguntava se cada pessoa com a qual eu tinha alguma troca estava a par dessa história. Se quem falava comigo teve acesso à fotografia ou se os professores X e Y ficaram sabendo. Para todo mundo, passou. Mas, para mim, a sensação de querer desaparecer foi tamanha que até pesquisei formas de realmente fazê-lo. A Malu de 12 anos nunca pôde entender completamente o porquê de ninguém a ter ajudado como ela gostaria e, sendo bem honesta, precisava. 

Leia Mais: Apologia ao estupro e à pedofilia se espalha no X

Permaneci na instituição até a minha formação no ensino básico. Passei dois anos inteiros sentindo o corpo gelado a cada vez que cruzava com aquele garoto, que me assediava pelos corredores. “E aí, gatinha?!”, ele falava sempre que me via, com um sorriso no rosto. Para ele, o que aconteceu foi uma grande piada, só mais um dia. Eu silenciava e mudava a direção. Só tive sossego quando ele foi estudar em outro lugar. 

Ninguém educou aquele menino e sabe-se lá o quão letrado ele, agora um homem adulto, é sobre questões relacionadas a gênero. Será que reproduz outros tipos de violências? Quanto à coordenadora pedagógica, ela desenvolveu um estranho carinho por mim, que era expresso de forma constrangedora através de berros pelos corredores. Quase sempre, quando me via, anunciava o meu nome e pedia um abraço apertado. Eu, constrangida, cedia, por mais que sentisse raiva dela.

Mesmo que ao abrir os olhos essa situação não se revelasse um sonho ruim, o tempo cuidou de mitigar os danos. Construí uma trajetória rica em memórias alegres e cheias de afeto naquele lugar e, até hoje, quando retorno, sou lembrada com carinho pelos funcionários. Definitivamente essa história não virou o meu legado, mas isso foi um mérito meu, que não pude contar com o profissionalismo dos adultos. 

Fico aliviada por saber que crianças dessa geração estão inseridas num contexto em que tais violências são nomeadas e o diálogo sobre elas é incentivado, mas ainda temo pela falta de preparo e desigualdades que existem dentro da escola.

*Por questões jurídicas, o nome do agressor foi alterado nesse relato.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Faça parte dessa luta agora

Tudo que AzMina faz é gratuito e acessível para mulheres e meninas que precisam do jornalismo que luta pelos nossos direitos. Se você leu ou assistiu essa reportagem hoje, é porque nossa equipe trabalhou por semanas para produzir um conteúdo que você não vai encontrar em nenhum outro veículo, como a gente faz. Para continuar, AzMina precisa da sua doação.   

APOIE HOJE