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“Minha mãe sofre de transtorno bipolar, e nós, familiares, adoecemos junto”

por Equipe AzMina
4 de julho de 2019
Quem senta no Divã hoje é a Barbara Panseri
Barbara Panseri (Foto: Arquivo pessoal)

“Tenho 27 anos. Sou a caçula, tenho dois irmãos, um de 30 anos e uma de 36 anos. Minha mãe tem 59 anos, meu pai 53, separado da minha mãe desde os meus 2 anos, pouco tenho a falar sobre ele aqui. Essa história é sobre minha mãe e eu, e uma luta gigante.

Escrevo esse texto pois a angústia está tomando conta de mim e preciso compartilhar o que sinto e toda a nossa luta. Talvez seja uma forma desesperada de buscar apoio ou reconhecimento, mas o que mais busco é a cura da doença que vou aqui descrever, ou se a cura não for possível, ao menos uma vida tranquila e melhor para minha família.

No fundo, no fundo mesmo, queria mesmo poder falar com Deus, se ele existir. Pedir a ele para mudar a humanidade e a neuroquímica humana, e excluir da face da Terra essa doença e outros transtornos psiquiátricos.

Sempre soube que a família da minha mãe tinha casos de depressão, transtorno bipolar e outras doenças psiquiátricas. Só quando completei meus 16 anos que a doença começou a se manifestar na minha mãe. À época, ela era empresária e professora, bem-sucedida.

Com muito sacrifício, ela – mãe solo – criou três filhos, sem deixar faltar nada. Estudei em escola particular, fiz ballet, natação, tive o Nike que eu pedi no Natal e fui muito feliz na infância brincando na rua. Aos 15 anos, não quis festa e preferi uma viagem pra Disney com minha mãe. Época boa.

A minha mãe tinha uma escola de inglês e reforço escolar na frente do meu colégio, ela conseguia nos dar uma boa condição, mas nunca cuidava dela mesma. Se desdobrava, trabalhava 12 a 14 horas por dia, de segunda a sábado.

Ela tinha um grande braço direito na escola, a sua secretária. Eu a tinha como minha irmã mais velha. Até que em uma auditoria minha mãe descobriu que ela estava roubando a empresa, subtraindo cheques. Tinha feito um esquema bem bolado, que minha mãe, na correria, não sacava. Foi o gatilho para a primeira crise de depressão da minha mãe, um episódio mais curto, imagino que menos de 2 ou 3 meses, mas já fez minha mãe ir a um psiquiatra e iniciar tratamento com antidepressivo, ainda leve.

No ano seguinte, 2008, ela começou uma segunda empresa, uma rotisseria, com apoio de uma amiga e de meu tio. Reformou o imóvel, investiu, criou cardápio, acertou nas receitas e os clientes começaram a vir. Por 3 anos, ela trabalhava 14 horas por dia, de segunda a segunda, pois a rotisseria enchia mesmo era no fim de semana.

Nos meus 18 ou 19 anos, já na faculdade, minha mãe teve uma briga homérica com sua companheira. Explico: minha mãe é bissexual e manteve por muitos anos, pelo menos 15, relação com sua companheira, mas sem que elas morassem juntas, e sem que a família de ambas soubessem.

Neste dia, eu cheguei da faculdade e minha mãe me contou, da pior maneira possível, que ela era bissexual. Não foi um problema, pelo contrário: acho que no fundo eu já sabia, só nunca tinha decidido questionar ou discutir. Algo tão natural para mim que não foi sofrido, fiquei mesmo era feliz, por ter duas mães, e orgulhosa por conviver com essa história bonita de amor das duas.

Minha “segunda mãe” ainda é uma figura em quem eu me apoio, passados anos; e também porque lembro que foi pouco tempo após essa briga que minha mãe teve um primeiro episódio de hipomania, que até então eu não sabia muito o que era.

As crises

Minha mãe continuou até 2012 trabalhando muito e cada vez mais com crises de depressões mais e mais complicadas. O ano de 2013 foi emblemático. Minha irmã mais velha já estava morando no Rio de Janeiro, sem dar sinais de que voltaria.

Meu irmão e a namorada engravidaram nos primeiros meses juntos. A minha cunhada tinha apenas 17 anos. Eles decidiram se casar e ter o filho, e, assim, meu irmão saiu de casa para ir morar com a família que começava a construir. Eu consegui uma bolsa para ir para Paris estudar, intercâmbio de 6 meses no finalzinho da graduação.

Minha mãe: muito muito muito mal, uma mistura de tristeza por estar temporariamente sem filhos por perto, junto com os claros sintomas da depressão. Antes de eu ir para Paris, me lembro bem de tomarmos a decisão de fechar a rotisseria. Nenhum dos três filhos queria seguir com a empresa. Minha mãe não tinha energia mais para continuar trabalhando.

Meu irmão e minha cunhada tentaram trabalhar na escola, para mantê-la funcionando, mas o semestre mostrou que não ia mais dar certo sem a energia da minha mãe lá.

No início de 2014 eu já estava de volta da minha temporada fora do país. Para mim, egoistamente, foram seis meses maravilhosos, em que eu pude fazer o que eu queria. Experimentei a liberdade, e gostei.

Voltei. Minha mãe não estava bem, mas meu sobrinho nasceu e, como toda criança, nasceu trazendo alegria para todos ao seu redor. Eu pensava que os problemas da minha mãe tinham acabado, pois, como vó, ela seria muito feliz. Ela de fato ama muito ser vó, mimar o neto e tudo mais. Mas foi exatamente a partir de 2014 que minha mãe piorou. Ela não se conformou de “perder” as duas empresas, rotisseria e escola. Que dor deve ter sido!

O diagnóstico

Em 2014, minha mãe teve períodos de depressão e meses de estabilidade. Já manifestava algum quadro de irritabilidade, mas nada fora do comum. Se não me engano, foi nesse ano em que ela foi diagnosticada como portadora do transtorno bipolar e começou a tomar um estabilizador de humor. De lá pra cá já foram mais 4 anos. Quatro anos nos quais minha mãe já tomou muitos medicamentos, já passou por muitos médicos, passou por duas breves mas traumáticas internações.

Para quem não conhece, a bipolaridade, tradicionalmente conhecida como doença maníaco-depressiva, é uma doença psiquiátrica caracterizada por variações acentuadas do humor, com crises repetidas de depressão e mania/euforia. Qualquer dos dois tipos de crise pode predominar numa mesma pessoa, sendo a sua frequência bastante variável.

As crises podem ser graves, moderadas ou leves. No caso da minha mãe, as crises de depressão são longas, recorrentes e graves. Já na mania, o principal sintoma dessa fase é um estado de humor elevado e expansivo, eufórico ou irritável.

Todos os sintomas dessa doença você encontra com facilidade em qualquer site confiável sobre o tema. O que você não encontra é como agir diante de alguém que está assim.

Se você me perguntar qual fase é pior, te respondo: as duas são uma merda. A depressão destrói tanto a pessoa que está deprimida que ela não sai da cama. Minha mãe já passou 13 meses na cama. A doença dela tem claramente uma característica cíclica, com fases extensas de depressão e episódios isolados e mais rápidos de mania, porém não menos intensos.

Na depressão, ela não come sozinha, ela não toma banho por dias consecutivos, ela não cuida de si. Ela só quer morrer. Ela só quer que o dia passe, e o outro passe, e o tempo passe. Ela não vê perspectiva. Ela não gosta mais de nada. Todos os pensamentos são negativos. É desesperador assistir alguém agonizando. É tão desesperador a ponto de você entrar na mesma frequência e deixar de acreditar que esse problema um dia terá solução.

A fase de mania é mais curta, pelo menos com a minha mãe. Ela teve 4 episódios na vida toda, cada um não excedeu 2 a 3 meses. A mania, para o portador, é deliciosa. É como se ela tivesse colocado a capa de algum super-herói e pudesse sair por aí. É como se ela tivesse usado alguma droga que te deixa ‘ligadona’.

Minha mãe, quando está em euforia, não dorme quase nada, 2 a 3 horas por noite e já está bem de novo. Para ela, a mania é uma fase boa. É quando ela se sente produtiva de novo, capaz de fazer tudo. Para os familiares e amigos que estão à sua volta, é desesperador, pois com tanta energia, a pessoa pode gastar de maneiras a se colocar em risco, em brigas.

Minha mãe pelo menos não tem tanto comportamento de risco, já que não abusa de álcool ou drogas ou sai transando com diversos parceiros. Muitas pessoas bipolares podem chegar a episódios graves com álcool e drogas quando está em euforia.

O tratamento

Para manter um bipolar minimamente estável, os médicos receitam os estabilizadores de humor, como é o caso do carbonato de lítio, valproato e carbamazepina. Minha mãe já tomou quase todos, às vezes até combinados ou em dosagens altas. O lítio é o que funciona para a maioria dos pacientes e funcionou para ela.

Para tirar um bipolar da fase de depressão, tentando levá-lo à fase de estabilidade ou de hipomania (pequena elevação de humor), os médicos ministram antidepressivos, muitas vezes acompanhados de algum ansiolítico, já que é comum que – em episódios de depressão – a pessoa apresente muita ansiedade ou até mesmo crises de pânico.

Minha mãe já tomou muitos, em várias dosagens e combinações. A maioria demora a começar o efeito no organismo, às vezes começando a fazer efeito apenas após 1 ou 2 meses de uso. É péssimo, pois além de você gastar R$ 300,00 a R$ 500,00 numa caixinha para 1 mês, você não tem ideia se aquele medicamento vai fazer bem ou mal para a pessoa. É um jogo de tentativa e erro. Só que a cada erro, a minha mãe pode sofrer mais.

Para tirar um bipolar da fase de mania, os médicos vão receitar calmantes ou antipsicóticos, dependendo do estado e sintomas do paciente. Eles também receitam outros tipos de remédios, como antiepilépticos e anticonvulsivos.

Família fica doente junto

Estou esgotada. São anos lutando. Ela, eu e os familiares. Ela às vezes fala em morrer. Ainda bem que nunca tentou suicídio. Tenho fé de que ela é uma pessoa tão boa que não merece ser vencida por essa porra de doença. Ela merece ter uma vida tranquila. Ela merece poder curtir a aposentadoria, os netos e tudo a que tem direito.

Há quem diga, especialmente as terapeutas, que os familiares adoecem junto. É preciso se cuidar para “não deixar a peteca cair”. Falo isso, mas não me cuido o suficiente. É uma meta de ano novo. Mas vivo um conflito gigante.

Eu sou jovem, tenho minha vida, minhas ambições e sonhos. Quero ter minha vida, com autonomia e liberdade para fazer o que bem entendo. Se quiser sair com meus amigos para uma festa, quero poder sair com meus amigos para uma festa. Se quiser encher a cara, quero poder encher a cara. Se quiser dormir com meu namorado, quero poder dormir com meu namorado. Tudo isso, sem preocupações.

Mas hoje a condição da minha mãe não me permite fazer o que eu quero, do jeito que eu quero. Eu vivo e convivo com essa briga interna, que é sempre estar em um lugar pensando em outro. Não é saudável, mas ao mesmo tempo, o que fazer? Não vou estar viajando com amigos sossegada enquanto minha mãe não está bem. Mas às vezes parece injusto eu me privar da minha vida. É um conflito entre egoísmo versus altruísmo diário. O que fazer? Não consigo chegar a conclusões.

Não existem redes de apoio no SUS para os familiares de pessoas depressivas ou bipolares. Eu me sinto só, às vezes. Mesmo amigos próximos ou mesmo meus irmãos não sabem o que dizer. Eu não sei o que fazer. A única Rede de Apoio que conheço é a Abrata (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos), que super recomendo, mas tem atuação limitada.

A depressão ainda é tratada como algo fácil, tranquilo. NÃO É! É mesmo difícil entender que alguém não quer levantar da cama para ir ao seu restaurante favorito. Mas sim, isso acontece. É pior que uma gripe forte. Devemos ter campanhas e campanhas sobre o tema.

Por que minha mãe precisava passar por isso? Existe mesmo vida após a morte? A gente escolhe mesmo a família onde nascemos? Será que eu vou ter essa doença também para aprender a lidar com tudo isso que hoje não sei como lidar?

Minha mãe não é uma coitadinha. É forte pra cacete e ter bipolaridade não a torna uma pessoa má ou inferior. Escrevi tudo isso para que as pessoas entendam quão complexa é essa doença.”

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Errata: O título original do relato foi modificado a pedido da autora pois estava sofrendo ataques nas redes sociais. (8/07/2019, 16h)

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