Mesmo após a morte da vereadora carioca, Áurea diz que não sente medo: “Querem que a gente caia nessa cilada. Querem passar a mensagem de que a gente estava indo longe demais. Mas ao contrário. Isso não vai nos intimidar”, afirma. Na foto, Áurea e Marielle. Crédito: Lucas Ávila

Menos de 48 horas após a morte de Marielle Franco, entrevistar lideranças negras de favelas do Rio de Janeiro não foi das tarefas mais fáceis. Vozes pesarosas e pensamentos meio desordenados permeavam os relatos de pessoas que conheciam ou se sentiam representados pela vereadora, assassinada na última quarta-feira (14). “Desculpe, ainda está difícil de organizar as ideias”, engasgou Lana de Souza, favelada do Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio, e membro do Coletivo Papo Reto, que atua na área.

Ativistas, políticos e moradores demonstram sensações distintas sobre o impacto da morte da parlamentar na cena política do país e em seus próprios futuros. Maria Morganti, repórter de 26 anos da ONG Redes da Maré, favela de onde saiu Marielle, resume o que espera das urnas para mulheres negras em 2018: “Medo, só medo”. Ela, que nunca pensou em entrar para a política, embora encorajada pela mãe, diz que a perda da vereadora só reafirmou sua posição. “Quando Marielle foi eleita, estávamos felizes. Foi uma surpresa, porque nem os mais otimistas poderiam imaginar uma representação nossa na Câmara Municipal. Mas isso custou sua vida, que é a minha também”, afirma, com desalento.

Após o assassinato, Maria vê em um horizonte distante o aumento da representatividade de mulheres, negros e favelados. Ela acredita que as forças dominantes no poder, tão afastadas da realidade das periferias, ainda terão muito tempo de hegemonia no cenário político: “Vamos precisar de alguns séculos, fortalecendo a nossa base, com educação para as classes C, D e E, preta, favelada, para depois ocupar um cargo como o da Marielle. Para a gente, resta estudar e analisar como eles fazem, para então aprender a jogar o jogo a favor da equidade social”.

Lana de Souza (28) afirma que nunca pensou em entrar para a política partidária e destaca o papel da violência em dissuadir lideranças comunitárias a arriscar uma vaga no Legislativo ou no Executivo: “Pessoas que fazem algum tipo de ativismo estão ainda mais expostas a ameaças e intimidações. Essa relação tão direta com a violência e com as necessidades que a gente têm, no nosso dia a dia na favela, talvez sejam uma barreira para pensar nas candidaturas como uma solução para os nossos problemas”.

 

Direitos Humanos na mira

No Brasil, a violência interrompeu a vida e o papel político de 124 ativistas, entre janeiro de 2016 e agosto de 2017, segundo o Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos. Em geral, são vozes que, assim como as mulheres negras da favela, estão pouco representadas na política institucional. A maior parte das vítimas é formada por indígenas, sem-terra e pessoas envolvidas com a luta agrária e ambiental. Ao lado de Colômbia, Filipinas, Honduras e Índia, o Brasil figura entre os países mais perigosos para defensores de direitos humanos.

A última campanha eleitoral, em 2016, também deixou um rastro de mortes no Brasil para alguns que quiseram ingressar na política partidária. Levantamento parcial no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registrou pelo menos 20 assassinatos de candidatos e pré-candidatos em todo o país. O Rio de Janeiro concentrou mais da metade, 11, todos eles na Baixada Fluminense, região metropolitana do estado.  

Além da intimidação

Vereadora mais votada de Belo Horizonte (MG) em 2016, Áurea Carolina compartilhava com Marielle Franco o mesmo partido, além da juventude (ela tem 32 anos) e a trajetória de militância por causas negras e feministas. Ela conta que, assim como a companheira de legenda, nunca sofreu ameaças. Mesmo após a morte da vereadora carioca, Áurea diz que não sente medo: “Querem que a gente caia nessa cilada. Querem passar a mensagem de que a gente estava indo longe demais. Mas ao contrário. Isso não vai nos intimidar”.

Talvez pelo papel que ocupe, sua abordagem busca levantar o ânimo dos que mais acusaram o golpe da morte de Marielle. “Nossa presença na política institucional é a única possibilidade de reconstrução da democracia no Brasil. Uma democracia que nunca se efetivou para nós. E se não se efetivou pra nós, não se efetivou pra ninguém”, afirma. Ao contrário de Maria Morganti, Áurea espera mais candidatos com perfil semelhante ao dela e de Marielle nas próximas eleições.

No Morro da Providência, primeira favela do Brasil, na Zona Central do Rio, Cosme Felippsen (28) gesta sua candidatura a vereador há dois anos, de olho em 2020. Responsável pelo Rolé dos Favelados, guiamento de militância e história pelas comunidades cariocas, ele enxerga Marielle Franco como inspiração: “Eu, como favelado, vendo o trabalho da Marielle, penso: ‘se ela chegou aonde chegou, com tanta dificuldade, por que eu não conseguiria chegar?’”.

Cosme conta que por sua militância já foi ameaçado de morte por um dos comandantes da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Providência e acredita que, se o cargo não protegeu uma vereadora, pessoas como ele estão ainda mais vulneráveis. “Mas, ao mesmo tempo, a luta continua. Temos essa marca no corpo, somos pretos. Carregamos muita história e muita dor. Querendo ou não, temos que lutar. Eu, que já entrei na luta, não tenho como retroceder”, enfatiza.

Otimista em meio à dor (“Hoje estou bem embaraçado, não estou muito eloquente. Desculpe a interrupção”, disse, choroso, durante a entrevista), ele acredita em surpresas nas próximas eleições: “Algo grandioso está surgindo. Isso só nos dá muito mais força. Talvez a gente tenha vários irmãos e irmãs de favela que queiram colocar a cara a tapa e se candidatar”.

No ativismo das causas negras há mais tempo que Cosme, Lana, Áurea e Maria, a coordenadora da ONG Criola, Lúcia Xavier (59), carrega a mesma voz abatida dos demais, porém destaca um aspecto importante dos dias seguintes à morte de Marielle Franco: “O desânimo faz parte do luto, mas é um luto que vai às ruas. Isso não é pouco”.

Na opinião de Lúcia, as manifestações em diversas capitais do Brasil e do mundo remetem a outros momentos de intensa mobilização do país, como o final dos anos 1960 e 2013. Para ela, o recrudescimento da violência no Rio de Janeiro pós-olímpico e contexto do assassinato da parlamentar (um estado sob uma  intervenção militar controversa, sobretudo nas comunidades) podem ter repercussões nas urnas em 2018. “As pessoas vão reagir no voto. Talvez o cenário não se transforme com completa rapidez. Vai depender de quem capitalizar esse processo”, conclui Lúcia, em um misto de ceticismo e esperança.