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Quando falamos em maternidade compulsória, pensamos inicial e principalmente na imposição social segundo a qual a mulher nasce para ser mãe. Ela deve ser mãe para ser feliz e ter realização na vida, afinal de contas ela nasceu para isso – dizem.

Se você der uma busca no Google com o termo “maternidade compulsória” rapidamente aparecerão vários textos discutindo justamente esse determinismo e se opondo ao odioso movimento child free, que acredita em um mundo em que “só é mãe quem quer” e “quem pariu Mateus que o embale”, além de pregar o ódio a mães e crianças.

A reflexão que quero trazer hoje, no entanto, é sobre o quanto o conceito de maternidade compulsória se aplica também às expectativas que nos são colocadas sobre como exercer essa função, e o quanto isso também é incrivelmente pesado. Nos é dito o que “toda mãe” sente. “Mãe é mãe”, “Nada como amor de mãe”, “Colo de mãe”, “paciência de mãe”, dentre outras são frases que todos os dias me fazem refletir sobre como esse ofício talvez não me caia tão bem.

Ontem mesmo eu chorei porque cheguei à conclusão de que eu talvez não seja muito boa nisso não. “Acho que simplesmente não tenho o dom”, pensava entre lágrimas. Possivelmente eu seja apenas uma mãe mediana. Passaria por média? Sim, provavelmente. Sou esforçada, estudiosa, me dedico ao máximo a esta função e mesmo assim não sou excelente nela. Bem mais de uma vez me peguei intrigada com comentários, feitos inicialmente em tom de elogio, sobre como eu era desapegada, tranquila e confiante em deixar o meu filho com outras pessoas, como minha mãe, sogra ou a babá. Uma amiga, na melhor das intenções, me perguntou como eu ia conseguir aproveitar uma viagem programada para abril em que irei sem ele.

Semanas atrás uma mulher do meu círculo de amizades pegou uma fala minha em um grupo de mães em que eu estava ironizando a romantização da maternidade e, tirando-a totalmente do contexto, afirmou em um post público que eu (sem citar nomes é claro) não deveria ser mãe, já que odiava tudo que a maternidade envolvia.

Será que o fato de eu não amar passar noites em claro, estar na 5ª gripe em 4 meses e mesmo assim não ter folga nem uma noite sequer é tão anormal assim?

Será que eu achar o silêncio da casa absolutamente delicioso quando Cacá vai para a casa da minha mãe é algo dissonante do que uma boa mãe deveria sentir?

Dias atrás meu marido deu a entender em uma infeliz brincadeira que a toda e qualquer oportunidade que eu tinha para deixar meu bebê ir no colo de outra pessoa eu aproveitava. Para ele não foi nada de mais. Era apenas uma brincadeira ou uma constatação. Uma piada.

Para mim? Nossa, aquilo me deixou arrasada. Chorei e me senti horrível porque no fundo é verdade. Sempre que tem alguém junto com a gente, eu passo ele para frente e aproveito para descansar. Além disso eu trabalho fora, tenho babá, minha mãe e sogra que sempre que possível olham ele para mim e tenho um marido mega participativo. Fiquei pensando em todas as mulheres que ficam 24/7 com suas crias e amam fazer isso. Concluí, mais uma vez, que eu certamente não era uma boa mãe.

Aquele comentário do marido foi a gota d’água para eu me sentir a mais bosta das mães do mundo. E, consequentemente, a mais bosta das mulheres porque talvez eu seja mesmo uma mãe meia boca. Uma mãe ok, uma mãe esforçada e não uma mãe excelente. E que mulher sou eu se não for boa o suficiente neste que deveria ser o meu principal ofício? De que importa se sou excelente em tantas outras coisas? Como não amar cada minuto desta nobre missão que me é confiada com tantas expectativas?

Então eu me peguei aqui pensando sobre como é foda isso de nos sentirmos “menos” pessoas se não somos mães absurdamente incríveis. Maternidade compulsória é isso também!

A Elisabeth Badinter, autora do maravilhoso “O Mito do Amor Materno” fala sobre como o culto da mãe perfeita é diabólico com nós mulheres.

Eu mesma, quando escrevi este artigo sobre o como nós mulheres não nascemos necessariamente para ser mães, não fazia ideia de como isso não se limitava apenas à escolha de ser ou não ser.

Então a razão deste texto é que, enquanto feminista, a gente reflita continuamente sobre o nosso papel nessa árdua tarefa de ser mãe, que é também um ato político. Não romantizar vai muito além de dizer que amamentar é difícil, que bebês não dormem mesmo a noite inteira e que “tudo bem se sentir cansada querida, mas, veja bem, o seu bebê precisa de você!”

A gente precisa mesmo é passar a aceitar formas diferentes de maternar e compreender que muitas de nós não  amamos a maternidade mais do que qualquer coisa na vida. Que sim, eu posso ser uma mãe ok e ainda assim amar loucamente meu filho.

Principalmente, este texto é sobre pararmos de mentirmos umas para as outras criando mitos que na maior parte das vezes são pura fachada, e se não são fachada são culpabilizadores. Você realmente ama brincar 12 horas de “cadê o neném? Achou!” ou trocar quilos de fraldas, ficar sem dormir e ter toda a sua energia literalmente sugada? Ótimo! Nem todas nós precisamos amar ou sentir prazer com isso.

Você acha a maternidade a missão mais incrível que te foi confiada? Lindo! Mas não reduza todas as mulheres a uma única, como se todos os nossos sonhos e aspirações fossem os mesmos.

A discussão é: qual o problema em ser uma mãe razoável? Em não ser uma mãe perfeita? Qual o problema se ser mãe não for a função que você faz melhor na vida? Ademais, são os homens reduzidos a serem ou não bons pais? O que faz de um homem um homem bom? E de um pai? E de uma mulher? E de uma mãe?

Então depois de tanto refletir e digerir esse assunto eu concluo para mim mesma que não, eu não nasci para ser mãe e sim, eu sou a melhor mãe que eu posso ser e isso não significa que esta seja a função que eu desempenho com mais naturalidade ou maestria e TUDO BEM! E nada disso diminui o meu amor insano pelo meu moleque, que a cada dia me mostra o quanto eu sou capaz de me superar e aprender nessa loucura chamada maternidade!

*As opiniões aqui expressas são da autora e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.