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Quando pedem a minha opinião sobre o polêmico caso do William Waack, jornalista da Rede Globo que foi afastado após um comentário racista que fez vazar na internet, digo que situações como esta, bastante aparentes e fáceis de detectar, são apenas a cereja do bolo. São apenas a superfície de um grande iceberg estruturante, que é o racismo em nossa sociedade.

Apesar dos inegáveis avanços pós cotas e ações afirmativas, todos os dias sofremos com microagressões que sedimentam privilégios e passam desapercebidas pela grande maioria da população. Essas microagressões colocam na população negra o exagero do olhar sobre a questão racial do país. Será que o racismo é coisa da minha cabeça?

Para pensar mais sobre o assunto chamo todas e todos não só para uma maior reflexão sobre o assunto, mas para pensar sobre como cada um(a) de nós pode ser mais empático(a) e agir para transformarmos a igualdade racial em realidade.

Estive nos últimos dias praticamente imersa na HSM Expo, promovida pela HSM Educação Executiva. Esse é, segundo a organização, o maior evento de Gestão da América Latina. O evento, super bem estruturado, reuniu em edições anteriores mais de 16 mil participantes e contou com dezenas de nomes nas principais conferências, como Michael Phelps, maior medalhista da história das Olimpíadas, e Ram Charam, consultor de negócios mundialmente conhecido.

A palestra da qual participei está disponível neste link.

No evento, o capitalismo consciente e a inteligência artificial eram alguns dos trend topics. Um conhecido site de carreiras online fez um stand no qual falou-se sobre como o futuro do trabalho será diferente do que vivemos no presente; sobre como a força de trabalho será cada vez mais ocupada por máquinas; sobre o fim da estrutura das empresas como conhecemos hoje. Um verdadeiro apocalipse corporativo.

Para ilustrar e reforçar este posicionamento, na frente da arena da empresa foram posicionados dois promotores negros com placas de papelão penduradas no pescoço onde estava escrito manualmente: “os robôs irão contratar as pessoas” e “é o fim do trabalho como conhecemos”.

Tendo sido uma das únicas palestrantes negras de todo o evento, fui procurada por algumas pessoas que se sentiram incomodadas com o stand da companhia

“Luana, há dois promotores negros na frente daquele stand vestidos como mendigos, que seguram placas sobre o futuro do trabalho. Não me parece que a caracterização deles esteja representando o futuro, mas sim um passado escravagista cruel, além do reforço de um presente ainda desigual. Não há negros no evento e os poucos presentes fazem este papel. Me senti mal quando vi isso, mas não sei o que fazer. O que você acha?”, me perguntou uma fotógrafa.

Diante do ocorrido e com mais pessoas que vieram até nós, fui até o fundador da empresa, um entusiasta da tecnologia com quem já havia conversado antes e que me falou que a Alice, minha filha (ainda em gestação) irá lidar com o trabalho de uma maneira muito diferente e terá outras preocupações para além da questão racial e de gênero. Aproveitei para questioná-lo também sobre a ativação que causava incômodo. Como Alice poderá se relacionar melhor com o mundo do trabalho no futuro se no presente os poucos negros que estavam no evento estavam servindo, limpando ou sendo lidos como mendigos e como o antiprogresso no mundo do trabalho?

Ele, o responsável pelo casting dos promotores, e outra representante da companhia disseram que tudo não passava de uma má interpretação. Respondi dizendo que os “vieses inconscientes” e a minimização constante dos seus efeitos e leituras com respostas do tipo: “é coisa da sua cabeça… Pura coincidência” eram um dos inimigos mais cruéis da igualdade racial. Não abrir os olhos para a sedimentação do racismo, o reforço dos estereótipos e para a minimização do papel de ações afirmativas não contribui em nada com um futuro tão disruptivo quanto o que prega.

O fundador da empresa ao questionar os rapazes viu que um deles chegou a chorar dizendo que estava se sentindo humilhado, e que não tinha recebido o briefing sobre como seria caracterizado. O outro relatou ter sido alertado sobre o papel de profeta do apocalipse, mas que de fato a caracterização pouco passava essa mensagem.

Conclusão da ópera: mandaram suspender a ação do evento, assim como a Globo fez com Waack (será que só isso basta?). Pedi para que eles não fossem descontados nas suas remunerações. É o mínimo que podiam fazer. Mas os organizadores do stand pareciam convictos de que tudo não passava de coisa da minha cabeça. Será?

Quando falamos anteriormente no evento sobre ações como cotas e ações afirmativas para incluir pessoas negras nas empresas, a resposta foi: não vemos cor ou raça.

Será que não veem mesmo? Por que o evento é tão branco? Coincidência?

Levei o caso para a organização, que no geral pareceu aberta e se propôs a tentar chamar mais negros para o próximo ano. A diretora de marketing, no entanto, também disse achar que a leitura do racismo na ação da empresa de vagas online era “coisa da nossa cabeça”. Será? Falou também que a ausência de negros era coincidência e chegou até a mencionar alguns nomes de pessoas negras que já palestraram no evento em outras edições (a contar nos dedos).

Reportei também o fato à ThoughtWorks, empresa parceira e que nos convidou, e reforcei com eles que, como um dos patrocinadores e participantes do evento, podem ser cada vez mais incisivos e influenciarem nos próximos line ups, como já têm feito, para que a organização seja cada vez mais preocupada com a igualdade racial. Se não for pelo coração que seja pela razão, pelo bolso ou pela pressão.

Se não formos mais intencionais, a igualdade racial simplesmente continuará sendo apenas “coisa da minha cabeça”. Enquanto não for coisa das NOSSAS cabeças, simplesmente não ocorrerá.

Ou seria tudo isso coisa da minha cabeça?