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9 de agosto de 2017

Teste do pescoço: você já fez?

Em um vôo Rio-SP conto discretamente as pessoas negras na aeronave. Movo meus dedos à medida que as identifico. Difícil usar os dez dedos da mão 
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Ao entrar em aviões, geralmente tenho um ritual: deixo a fila se formar na hora do embarque e fico aguardando. Sou uma das últimas a entrar. Por um lado, é confortável não enfrentar tal fila, mas, por outro, também arrisco não ter lugar para guardar a bagagem de mão.

Em um vôo doméstico Rio-São Paulo, como de costume, aguardei a última chamada. “Hi ma’am, how are you?”, ouvi de uma comissária. Fiz a tradução mental rapidamente: “Olá, senhora, como está?”.

Isso me aconteceu recentemente. Eu “usava” a combinação 1,77m de pele preta, terninho rosa claro e turbante nada discreto. Estava indo palestrar em uma empresa.

Antes mesmo que eu pudesse mostrar meu documento de identidade, a comissária sorridente soltou a tal saudação, seguida do comentário pseudo-simpático:

“A senhora é brasileira? Nem parece! Lindo visual”, seguido, após analisar minha documentação e bilhete de um “tudo certo senhora, bom vôo”

O curioso é que percebo que os outros passageiros não recebem a mesma observação. O mais lamentável: não foi a primeira vez.

Interpreto experiências racistas como estas do dia a dia como se algo estivesse tentando nos agredir dizendo: “este não é o seu lugar” ou “você é estranha aqui”. Isso acontece sobretudo quando estamos em aviões, hotéis, universidades ou espaços conhecidamente elitizados, associados a um maior poder aquisitivo, onde os mais de cem milhões de mulheres e homens negros brasileiros ainda não estão proporcionalmente representados.

Aquela comissária, talvez sem perceber, verbalizou que uma mulher negra, brasileira, vestida de uma forma possivelmente não convencional em comparação aos demais, em um avião, não lhe parecia algo familiar

Isso a fez imediatamente me classificar como uma mulher negra estrangeira. Como falou comigo em inglês, interpretou possivelmente que eu era afro-americana.

Ao entrar no avião, sinto olhares curiosos de pessoas. Será que as pessoas ali pensam algo semelhante ao daquela profissional?

Como uma das últimas passageiras a entrar, aproveito o vôo cheio para fazer o chamado “teste de pescoço”.

Conto discretamente as pessoas negras que estão na aeronave – entre os profissionais de bordo e passageiros. Movo meus dedos à medida que as identifico. Difícil usar meus dez dedos da mão

Considero o teste uma ferramenta fundamental para aqueles que estão abertos a trabalhar uma conscientização anti-racista e executar o papel de aliados em prol da igualdade e de oportunidades. Para trabalhar a percepção da desigualdade da ocupação dos espaços pelas pessoas negras.

Existe um recorte racial inegável nestes espaços. As lentes críticas proporcionadas pelo teste não deixam escapar e, uma vez postas, não desgrudam dos olhos.

Quando me acomodo no assento, folheio a revista da empresa aérea que está comemorando sua edição de aniversário. Entre as mais de 30 capas, conto uma ou duas com personagens negros.

Olho pela janela. Começo a imaginar, a sonhar sobre como seria um vôo com mais pessoas negras brasileiras trabalhando ou como passageiras. Este comentário infeliz, este tratamento desigual provavelmente não existiria. Não haveria por quê duvidar que uma das muitas pessoas negras fosse brasileira e estivesse indo trabalhar como qualquer uma das outras de pele mais clara.

Encontraríamos empresárias de diversos setores na primeira classe e também nas econômicas. Estaríamos entre saudosos, artistas, viajantes com seus mais diversos estilos. Encontraríamos mais revistas de bordo com histórias de sucesso de pessoas de diferentes raças.

Adormeço cansada. O vôo é bem cedo. No meio do vôo desperto. Aquele teste do pescoço não me deixa mais dormir. Penso o quanto ainda precisamos trabalhar para mudar esta realidade que muitos crêem que acontecerá naturalmente com a passagem do tempo.

Discordo. Ora, se apesar de mais de 129 anos de luta e resistência pós abolição cartorial da escravização ainda há muitos caminhos a se percorrer em prol da igualdade racial, imagina se não fizermos nada?

A estimativa do Instituto Ethos é de que, nesse ritmo, a igualdade só chegue mesmo em 2167.

Que cada teste do pescoço nos dê força para exercermos nosso lugar de luta, olhar e entendimento que 150 anos não passam voando.

 

 

* Você sabia que pode reproduzir tudo que AzMina faz gratuitamente no seu site, desde que dê os créditos? Saiba mais aqui.

 

Não quer esperar 150 anos para que a igualdade racial aconteça. É fundadora e diretora executiva do ID_BR – Instituto Identidades do Brasil, instituição sem fins lucrativos que desenvolve campanha Sim à Igualdade Racial que em seus três pilares empregabilidade, educação e eventos tem como objetivo o aumento de lideranças negras no mundo corporativo. É mestra e pesquisadora em Relações Étnico-raciais CEFET-RJ.É pós graduanda em Marketing e Comunicação no IED-Rio. Graduada em Publicidade pela PUC-Rio. Foi bolsista do Ciências Sem Fronteiras / CAPES na University of Wisconsin – Madison, onde se especializou pesquisa na área de raça, etnia e mídia e também trabalhou na Burrell / Publicis Chicago na área de planejamento estratégico. Trabalhou no hub de marketing em multinacionais da área de beleza e entretenimento. Atua como palestrante e gestora de projetos sobre raça e etnia, equidade de gênero e empreendedorismo. Foi modelo publicitária e de passarela.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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