Por Ana Rüsche*

Legenda: (esq.) Ana Paula Oliveira, Francesca Cricelli e Ana Rüsche no lançamento das edições novayorquinas de seus livros em Arto Studio & Grasshopper durante o festival ALLOVER5.
Crédito: Caroline Michaelia

A livraria Bluestockings Radical Books propõe-se a construir um “espaço seguro”: um local em que se possa tomar um café nos dias de ventos gelados e participar de rodas de conversas sobre os mais variados temas, cujas atividades são organizadas por pessoas ativistas e voluntárias. Localizada em Manhattan, abrigou uma roda de conversa a respeito da literatura produzida por mulheres brasileiras por ocasião do Festival #ALLOVER5, que reuniu poesia e gastronomia em Nova York no último junho.

Participei do evento junto com as escritoras Ana Paula Oliveira e Francesca Cricelli e a crítica e tradutora Caroline Micaelia, em um papo a partir de um roteiro proposto pela pesquisadora Raquel Parrine, editora da Revista Raimundo. No público, a roda de conversa contou com a presença do Rafael Lasevitz, quem também edita a revista. Entre livros feministas e títulos sobre masculinidades, entre camisetas, coletores menstruais e um aroma de café zapatista, discutimos a respeito da ideia de tradição. Este texto se propõe a resgatar um pouco o debate.

A “informalidade criativa” na poesia: como pesquisar disparidade de gêneros neste caos de publicações?

Regina Dalcastagnè, Universidade de Brasília (UnB), em sua conhecida pesquisa “A personagem do romance brasileiro contemporâneo: 1990-2004” investigou a disparidade de representação e de autoria em 258 romances. Nos resultados, “os dados mostram que o romance brasileiro contemporâneo privilegia a representação de um espaço social restrito. Suas personagens são, em sua maioria, brancas, do sexo masculino e das classes médias. Sobre outros grupos, imperam os estereótipos. As mulheres brancas aparecem como donas de casa; as negras, como empregadas domésticas ou prostitutas; os homens negros, como bandidos.”

Entretanto, o levantamento e a análise preciosos do grupo da UnB não comenta a produção de poesia no Brasil. Pudera! Não é nada simples realizar este levantamento. Assim, vamos comentar algumas das dificuldades em realizar tal levantamento:

Primeiramente, a publicação de poesia é ditada por uma espécie de “informalidade criativa”: a toda semana surgem novas microeditoras, edições que recusam o registro do ISBN (o prefixo editorial custa o preço de muitos exemplares), projetos gráficos que nem mesmo livros são, e há o império das plaquetes, dos zines, dos livrinhos, cada objeto com sua preciosidade poética. Um vendaval ruidoso de folhas, conversas e poemas que vão e vêm.

Em segundo lugar, não há um prêmio nacional para o gênero literário mais antigo da palavra (premiações ajudaram a orientar a pesquisa de Dalcastagnè). Ainda em âmbito acadêmico, pesquisas sobre poesia também são menos frequentes, grande parte levadas adiante por poetas que ocupam os espaços universitários.

Como fazer então um levantamento a partir desse cenário caótico? Ou mesmo se perguntar: como a tradição da poesia escrita por mulheres teve sua chama acesa uma vez mais? Bem, mantendo-se na trilha da “informalidade criativa” do rumo aqui traçado, colocam-se em paralelo duas contribuições. De um lado, uma rápida análise da presença de mulheres em antologias dos anos de 2001 a 2006, onde é possível assinalar comentários sobre a repercussão de suas obras no início do século. De outro, o depoimento de poetas já publicadas ou com livro no prelo, que responderam em junho a uma breve pesquisa a respeito do tema “tradição”.

Mulheres nas antologias do início do século: pior que 7 x 1 da Alemanha

Esmiuçando algumas antologias de 2001 a 2006 que se propuseram a dizer o que seria um guia razoável para ler poesia à época, o número de mulheres presentes é muito reduzido. De uma amostragem escolhida pela repercussão que receberam, o número de mulheres beira 10%, quase um silenciamento. Aos dados: “Esses poetas – uma antologia dos anos 90” (org. Heloisa Buarque de Hollanda, Aeroplano, 2001), de 22 poetas, há 4 mulheres; “Na virada do século – poesia de invenção no Brasil” (org. Claudio Daniel e Frederico Barbosa, Landy, 2002), de 46 poetas, há 5 mulheres; “Literatura brasileira hoje” (org. Manuel da Costa Pinto, Publifolha, 2004), de 30 poetas, há somente 2 mulheres; “Antologia comentada da poesia brasileira do século 21” (org. Manuel da Costa Pinto, Publifolha, 2006), de 70 poetas, há 7 mulheres. Dessas antologias citadas, não constam poetas negras – você pode corrigir este dado e nos dar uma boa notícia.

Agora, a parte louca ou a boa notícia é que, de alguma forma, hoje as mulheres não apenas souberam reinventar uma tradição poética, como produzem embates ruidosos para alterar este panorama. Nomes como Angélica Freitas, Conceição Evaristo e Marília Garcia são conhecidos do público que se dedica ao gênero. Admire-se: não como nomes de rodapé, e sim como referências!

Como ocorreu tudo isso? Claro que não foi um passe de palavras mágicas: nossas irmãs mais velhas estão vivas para nos contar como resistiram a tempo ingratos. Mesmo algumas das pessoas que assinaram as antologias acima citadas possuem hoje postura bem diferente, ativamente trabalham para alterar o panorama e reconhecem a importância de se rever o período.

Enfim, de alguma forma, a tradição da força bruxa esquivou-se das cinzas e hoje acende-se em outras fogueiras para iluminar novos desafios, outros horizontes do possível.

A tradição bruxa: reinventar-se no grande sonho, o qual não se sonha sozinha

O feminismo no Brasil merece muitas críticas que não cabem aqui neste mero post. Entretanto, há algo inegável: é visível e ruidoso. O feminismo brasileiro dos últimos anos – que poderíamos apelidar de “50 anos em 5” -, em um curto período de tempo, desenterrou e encampou discussões que não eram postas na mesa há um século. Seja em atropelo ou em urgência, o movimento terminou por incidir diretamente na literatura contemporânea.

Eclodiram grupos como o Leia Mulheres, com debates em muitas cidades brasileiras – Curitiba, Goiânia, João Pessoa, Juiz de Fora, Natal, Sorocaba e tantas outras outras. Publicadas antologias pela visibilidade de mulheres, como “Pretextos de Mulheres Negras”, organizada pelo coletivo Mijba; “Antologia Poética Senhoras Obscenas” da Ed. Benfazeja e “Blasfêmeas: Mulheres de Palavras” da Ed. Casa Verde. Houve homens cis que perceberam a urgência do tema e intercederam, como Rubens Jardim, que já publicou 300 poetas e mais de mil poemas de mulheres em seu site. Houve editoras que publicaram mais mulheres, como a Editora Patuá, dando destaque a talentos que seguiam latentes, obtendo prêmios. Outras escolheram um recorte específico, como a editora Malagueta que se especializou em literatura lésbica no Brasil. Também festivais como o [eu sou poeta] para reunir e discutir a força da poesia escrita por mulheres. Simpósios acadêmicos como o Fazendo Gênero da UFSC. Apareceram revistas eletrônicas colocando a questão, como as edições especiais da Revista Parênteses, “Autoria negra” e “Mulheres supernovas”; e a edição da Revista Raimundo “RaimundA“, assim como artigos didáticos no OutrasPalavras e mesmo esta coluna na Revista AzMina. E tantas outras iniciativas.

Toda a movimentação de bastidor trouxe perguntas poderosas para dentro da produção literária. Afinal de contas, o que você lê acaba por engendrar as tuas reflexões. Se eu não leio mulheres, como vou pensar fora da caixinha do machismo? Se eu não leio mulheres negras, como vou pensar fora do racismo estrutural, como vou pensar para além do patriarcado? Se eu não leio pessoas trans, como vou pensar fora da camisa-de-força do binômio de gênero? Perguntas que nem sempre a crítica, editoras, prêmios literários e debates públicos estão preparados para responder.

Quando você muda o enfoque de leitura e inclui as mulheres, não apenas altera o presente, mas a perspectiva do que seja a tradição literária. O passado se torna um terreno movediço e incerto, tudo o que não se desejava pelos construtores da uma via de mão única no Brasil. Nada mais propício à bruxaria do que um bom pântano – o resgate de poetas esquecidas pela história, como Gilka Machado, e valorização de outras, como Orides Fontela, são belos exemplos deste reflexo.

Dentro deste vendaval, pensando na perspectiva de quem escreve, como entender então o que é tradição? Tradição seria sinônimo de silenciamento?

Elaboramos, então, a pergunta “o que é tradição” a algumas poetas brasileiras, que já possuem um livro publicado**. Nas respostas:

Tradição “tanto pode ser o que está no imaginário social e cultural (como livros clássicos, por exemplo), como coisas ultrapassadas e que precisam ser revistas ou extintas”, me responde Nina Rizzi, autora de muitos livros, seu último é o “quando vieres ver um banzo cor de fogo”. Tradição? “Peso.”, pontua Telma Scherer, cujo último livro é “Depois da água”.

Para Pilar Bu, autora de “Ultraviolenta”, pondera que tradição é “algo que um grupo muito restrito criou e que deve ser desconstruído, porque dialoga com uma representação social excludente. O que deveria ser: a sabedoria que se acumula no corpo, vira memória e é passada de geração em geração, de maneira empática, afetuosa e não excludente.”

A resposta de Juliana Bernardo, autora de “Carta Branca” e “Vitamina”, veio em cenas: tradição pode ser desde “uma biblioteca frequentada por incendiários” ou “um jantar formal onde, se acontecer de me convidarem, chegarei tarde, com uma roupa equivocada, e propensa a escapulir pela janela antes da sobremesa”.

O “reinventar-se”, seja pelo rompimento do que está colocado anteriormente ou pela exploração de novas possibilidades para se nomear o passado, aparece em muitas falas.  Nas respostas, cada uma aponta um rumo, um caminho. Aqui a tradição é respeitar a arte própria, as palavras mágicas tecidas em cada tear, um respiro pela diferença.

O que leram e viram essas poetas para se formarem e escreverem seus livros? Fernando Pessoa é muito citado. Acompanhado de José de Alencar, Alice Walker, Ana Maria Gonçalves, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Émile Zola. A tríade Ana Cristina, Clarice e Hilda, citadas somente pelos prenomes. Ainda apareceram as histórias em quadrinhos da Luluzinha, de Marge, e Marjane Satrapi. MCs feministas. As arpilleras, bordadeiras da resistência chilena contra a ditadura.

A força bruxa na poesia, uma vez mais, emerge para contar outras histórias, insertar outras sensibilidades, apontar outros atalhos para os mesmos caminhos. A tradição é uma estrada muito mais longa, que remonta o que a poeta se permitir imaginar. Talvez seja esta a maior herança do feminismo na literatura: alterar o passado para que possamos seguir escrevendo nossa permanência, afirmar a existência de um futuro. Até chegarmos à encruzilhada do próximo desafio.

Se você tem um dedinho de bruxa nesta história, pode nos contar sobre tua poção.

Há muitas receitas ainda que precisamos compartilhar.

Agradeço minhas amigas de caldeirão: Ana Paula Oliveira, Caroline Micaelia e Francesca Cricelli. No dia 23 de agosto, quarta-feira, estaremos no Poesia com Pecado falando sobre poesia e os livros lançados em Nova York durante o festival: “Moonless Summer” (Ana Paula), “16 poemas + 1” (Francesca Cricelli) e “Furiosa – a nautical chart and its monsters” (Ana Rüsche).

Serviço: Poesia com Pecado. 23/08/2017, 20h, Quinto Pecado Café & Bistrot, Rua Coronel Artur Godói, 12, Vila Mariana, São Paulo (SP), entrada franca.

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**As seguintes poetas participaram da pesquisa e aceitaram terem nomes divulgados, todas possuem um livro já publicado (ou no prelo): Adelaide Ivánova, Angela Quinto, Bruna Escaleira, Elisa Sayeg, Ellen Maria, Fernanda Fatureto, Francesca Cricelli, Jéssica Balbino, Júlia de Carvalho Hansen, Juliana Bernardo, Karin Krogh, Lucimar Mutarelli, Luíza Mendes Furia, Mari Quarentei, Maria Rezende, Marília Moschkovich, Nina Rizzi, Pilar Bu, Rachel Ventura Rabello, Roberta Ferraz e Telma Scherer. Obrigada pela confiança! Sem vocês não seria possível desenharmos tudo isso.

*Ana Rüsche é escritora. Seu último livro de poesia é “Furiosa” (2016). Escreve em www.anarusche.com.

 


 

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