Foto: Divulgação/HBO

Já no final da sexta temporada da série Game of Thrones, da HBO, nós sabíamos que esta seria a vez delas de brilharem – aliás, os dois últimos episódios da sexta foram os melhores já feitos na história do show. Enquanto os homens se matavam, castravam e traíam, a mulherada esperava paciente e inteligentemente por seu momento e, na sétima temporada, mostraram a que vieram. Vimos Sansa desabrochar, Cersei finalmente deixar de ser impulsiva e se tornar o pai, Dany salvar o dia várias vezes, Arya matar TODOS os Frey pra vingar a mãe e o irmão. Que temporada!

Bom, enquanto há algumas controversas se Game of Thrones é de tudo uma série feminista, a gente com certeza consegue absorver ao menos algumas liçõeszinhas de feminismo nesta temporada.

Competição feminina é a estratégia número 1 do machismo

Little Finger adota a mais popular estratégia do machismo: dividir para conquistar. Manipula Sansa e Arya uma contra a outra. Seu intuito? Que Sansa seja Rainha do Norte e ele, claro, seu rei. Se Little Finger realizasse seus sonhos, Sansa (que hoje tem poderes reais) seria, de novo, mera marionete de mais um marido cruel. Como na série, na vida a competição feminina é a principal estratégia do machismo para nos manter sob controle. Enquanto, por exemplo, brigamos com a amante de nosso marido, ele sai impune por ser infiel. Enquanto disputamos espaços com intrigas vazias com outras as mulheres do escritório, eles tem tempo de conquistar cargos de chefia. Juntas, Sansa e Arya mostram a saída contra o machismo: a sororidade, a união feminina.

Não subestime as minas

A lição é dada por Tyrion, já no final da sexta temporada e vem mais ou menos assim: “Eles vão nos subestimar porque somos mulheres, anões e eunucos. E nós vamos tirar vantagem disso”. Dito e feito: Sansa se faz de sonsa e salva John Snow de sua própria arrogância na Batalha dos Bastardos. Cersei se faz de cão arrependido e explode todos os inimigos no Sept de Baelor, enquanto eles queriam jogar ela na fogueira da inquisição. Brienne e Arya ignoram as intrigas da oposição e se tornam as assassinas mais eficientes dos Sete Reinos. As Serpentes de Areia matam o rei desprevenido, fazendo as pêssegas submissas. Yara Greyjoy faz carinha de derrota, mas corre pro mar e rouba todos os melhores navios do tio. Uma boa lição estratégica para disputas de poder da vida real.

E Little Finger – que parece não ter aprendido nada com todos esses acontecimentos da última temporada – comete o mesmo erro fatal. Perde a cabeça nesta finale. Tem certeza que quer continuar olhando as minas de cima pra baixo, garoto? 😉

Os homens que valem para o feminismo – e os que não, obrigada

Apesar do que diz a oposição, não, nós mulheres não queremos homens fracos e amedrontados. Na realidade, as atitudes feministas de verdade só podem vir de homens muito seguros. Vejamos os casos de Jon Snow e Theon Greyjoy. Theon é um covarde. Se submete à irmã por culpa, por medo e por falta de opção. Mas quando ela precisa de verdade dele, ele vacila e, literalmente, pula fora do barco. (tomara que seja tempo de arrumar a merda, Theon, seu frouxo!) Já Jon é um homem tão seguro de sua força que não precisa se impor sobre mulher alguma para sentir-se poderoso. Não se sente ameaçado pela mente estratégica de Sansa e a deixa no controle de Winterfell. Não se sente intimidado pela força de Dany e, quando percebe que ela é uma líder mais apta que ele, não hesita em curvar-se a seu reinado. Sua “virilidade” intacta por reconhecer mulheres como iguais e, às vezes, superiores. Bingo!

Todo mundo ganha quando abolimos “coisas de menino e coisas de menina”

Ok, façamos o exercício de pensar que todo mundo em Game of Thrones seguiu à risca os estereótipos de gênero. Brienne nunca aprendeu a arte da espada, Dany virou khaleesi na casa das aposentadas, Arya nunca se tornou uma assassina, Sansa jamais desenvolveu uma mente política, Cersei nunca virou a vilã com mais culhões que a gente já viu. E Sam nunca se permitiu ser sensível e dado à leitura, Jon nunca deixou um romance abrir sua visão de mundo pra acolher os selvagens, Bran ficou brincando de espada em vez de se deixar ajudar por uma mulher. A série perdeu a graça, não perdeu? E um montão mais de gente teria morrido. Game of Thrones, principalmente na última temporada, deixa bem óbvio pra gente que quando os estereótipos de gênero não são amarras, cada um pode desenvolver seus talentos e se colocar à serviço do mundo da melhor forma possível.

Os romances que queremos

Julgamentos morais sobre incesto à parte, o amor entre Jon e Dany – ah, vai dizer que você não viu? – é super feminista. Ao contrário das paixões superficiais a la contos de fada (que começam com aquela bobagem do “amor à primeira vista” e seguem com o cara achando que sua amada é uma pobre coitada que precisa de proteção e controle), Jon se apaixona pela força de Dany e Dany, pela força de Jon. O motor do romance é a admiração mútua e o respeito à individualidade um do outro. Eles conversam de igual para igual e provocam e desenvolvem suas mentes. É uma relação que permite a cada um botar pra foder com seus melhores talentos, em vez de se castrarem mutuamente em um romance de posse e controle.