Pexel

Tá bom, coluna para homens em revista feminista. Respiro fundo.

Olha, tem muita coisa para falar, a primeira é que se somos parte do problema precisamos ser também da solução. A segunda é que esta não será uma coluna para que homens falem de feminismo para as mulheres.

Não estamos disputando espaço de fala, mas propondo um lugar para que homens tentem, juntos, discutir uma nova maneira de serem homens, avançando em novos entendimentos do que é a masculinidade

Então, AzMina me convidaram para encabeçar essa experiência. A demanda foi: um texto por mês em que homens cis debatam um novo modelo de masculinidade, desenvolvendo como isso afeta nossa existência, o que podemos aprender e onde conseguimos melhorar. Eu no papel de curador, buscando vozes entre OzMano que topem a proposta deste espaço. Este texto é a largada.

Vamos aos pontos de partida, conceitos que todo texto publicado aqui seguirá:

– Mulheres sofrem e morrem todos os dias por serem mulheres;

– Ignorar isso é conivência;

– Homens cis possuem o privilégio de terem direitos;

– Machismo existe, é real e compõe a estrutura de nossa sociedade;

– Garantia de lugar de fala é uma necessidade política;

Seguimos daí.

“Mas vocês já têm todo espaço para se expressar a vida inteira!”

Sim, é verdade. Também é verdade que boa parte da macheza vai passar as próximas décadas ignorando ou tripudiando posições feministas em vez de refletir sobre elas.

A tentativa aqui é alcançar essas pessoas. É dizer pra esses caras: “Oi, pessoal, bora usar sua voz pra uma coisa útil? Pra se reinventar?”

Como vamos fazer isso? Não tenho certeza. Vamos tentar. Me ajuda?!

No processo, AzMina chegaram me encostando na parede e perguntando: “E os teus machismos, colunista? Cadê seus filhos espalhados pelo mundo, aqueles que você não paga pensão?!”

Minha resposta: “Olha, gente, que eu saiba tenho filho não… 80% por responsa e 20% por sorte… Mas certamente já fiz muita merda por aí, com consequências menos óbvias do que um moleque ranhento correndo pela casa da mãe sem dinheiro pro pão e pra poesia.

Machismo é fundação. Minha postura pra lidar com isso não é assumir o papel do campeão feministo, o cara que aprendeu tudo, já leu os blog e os textão, posa de antimacho e vive de contradição. Sim, sou machista. Admitir isso é o primeiro passo.”

A proposta em si

Conversar sobre as merdas e propor saídas pra pilha de bosta. Todo mundo sabe que elas rolam. Quando vai ver, você (eu) está num bar com amigos e seis cervejas, sem motivo, fala merda pra mulher sentada ao seu lado. Daí paga a conta, acorda de ressaca e ainda está esperando sua companheira te dizer a hora de lavar vossa roupa de cama, tirar aquele entulho velho do jardim, passar no mercado antes do fim de semana.

Toma um café e almoça em uma relação que ama e por isso acaba meio tudo bem não considerar realmente a pessoa que está na sua frente. Este era o acordo, não? Porque mudar agora? E segue até hoje esperando alguém te falar a hora de assumir as tarefas da casa.

Sem falar de zoar o moleque que não joga futebol. Sem falar de ter que ser fodão a vida toda, pegador, trepador. Aquela mina te deu bola e você não fez nada? Bichona. Nunca levar porrada. Não usar saia ou vestido. Não pintar o rosto. Não rebolar. Porra, não curtir a balada até o chão? Claro que não. Quadril duro. Fica no bar bebendo. A pista é pr’AzMina. E apontar o dedo para quem for diferente. Chorar escondido. Nunca chorar, digo. Não falar fino. Você olhou para aquela mina trans? Nossa. Bichona.

Isso para reconhecer ~brevemente~ algumas merdas que eu, machista, fiz ao longo da vida. Mas expor esse fedô todo é parte do processo de transformação social.

E porra, que merda. Cadê a liberdade de fazer o que quiser? E a gente aqui, tudo duro. Pau duro, corpo duro, quadril duro, as costas então, caralho, nem se fala. Como que a gente dorme com esse peso nos ombros?

Coluna de homens em espaço feminista. Respira fundo de novo e partimos, então, em busca daqueles que topem compartilhar suas histórias e perspectivas. Um pouco de entranhas, de medo, de homem que caga, de homem que chora, que broxa, que reconhece que assim não tá bom pra ninguém.

Na pior das hipóteses, maus exemplos. Na melhor, pistas para fora da merda.

Nesta coluna não queremos nem Zé Meyer, com suas desculpas pautadas pelas relações públicas, nem o descontruidão, aquele que levanta bandeiras feministas sem jamais reconhecer nele as merdas expostas pel’azmina. “Porque nem todo homem….” Não, bróder. Todo homem

Um novo macho, é possível? Em algum lugar, sim. Hoje? Ainda não sei. Eu? Nem fodendo. Não sou exemplo para ninguém. Não sou o outro macho possível. Topo buscar ele, junto com vocês, mas não estou aqui de exemplo para ninguém. Pode perguntar na praça, você vai ver. Se sou algo é um mau exemplo com teclado na mão, topando escrever a respeito, levar porrada em comentário de rede social azul. Tem que aprender de alguma forma. Pode ser essa. Em algum lugar existe um caminho novo. Um novo macho possível. Algum dia. Hoje ainda não. Vai dar certo. Tomara.

Tá. Tão aí as bases. Vamos debater. E também, pensar em temas para os próximos textos. Aceitamos sugestões. E críticas também, porque a primeira qualidade que buscamos nos homens que vão escrever nesta coluna é a coragem da autocrítica de abrir mão de privilégios – porque a época do macho que se acha o máximo passou. E não sem tempo.

 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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