Adaptação do projeto da Carol Rossetti, “Mulheres”

Mana ou migue, puxa um banquinho porque as donas da casa me deram licença pra dois dedos de prosa sobre os relacionamentos com mulheres bissexuais. Que responsa!

Bem vinda à nossa ala no vale das LGBTs! Pega na minha mão e vem comigo.

Nossa caminhada não é pacífica, nem mesmo entre outras LGBTs. É ser analisada diariamente, acusada de ser lésbica não assumida ou heterossexual fetichista. Contam quantas relações sexuais e afetivas eu tive com homens e mulheres e o fiel da balança dará o veredicto se eu sou mais lésbica ou mais hétero.

Julgam a sexualidade alheia apenas pelo prisma da própria sexualidade. As pessoas estão se relacionando de múltiplas formas diferentes. Acho essa pluralidade deliciosa!

Embora bem vivida, não posso falar por todas as pessoas bissexuais e nem quero.

Vou trazer aqui alguns paradigmas que considero mínimos para tratarmos do relacionamento com mulheres bissexuais.

Minha sexualidade não se define pelo gênero da pessoa que estou me relacionando ou pela quantidade de pessoas que eu fiquei de determinado sexo. Se eu viver numa relação monogâmica com minha namorada até o fim dos meus dias, vou continuar sendo bissexual

Eu sou militante, bissexual, feminista e de esquerda. Viver para muitas de nós é ter no próprio corpo um campo de batalha. Eu iria além e diria que pra todas as mulheres viver a própria sexualidade de maneira consciente, segura e emancipada é em si um ato revolucionário. Será que alguém acha que as mulheres heterossexuais estão vivendo numa zona de tranquilidade com as altas taxas de violência doméstica e sexual que enfrentamos no Brasil? Acho que não.

Ser bissexual é viver sendo questionada se outra pessoa faz falta no relacionamento.

É viver com o estigma de ser infiel, mesmo que nunca tenha traído ou mentido

Sejamos honestas, a chance de eu trocar minha namorada por alguém é a mesma dela me trocar, de uma mulher lésbica trocar sua companheira e de uma mulher hétero trocar de companheiro. Isso é da vida! Se apaixonar e querer viver outra história acontece nas melhores famílias.

No meu relacionamento, a gente só traz pra nossa vida quem a gente escolhe. Eu não tenho qualquer relação com as pessoas com quem minha companheira se relacionou antes de mim. Nós escolhemos que o passado não more em nosso lar, embora ambas sejamos fruto de tudo que vivemos.  Eu não sou e não trago comigo os homens com quem me deitei.

Nós bissexuais não necessariamente queremos nos relacionar com homens. Assumir que somos submissas e vulneráveis emocionalmente a qualquer homem é ignorar que somos todas sujeito ativo de nossas afetividades e sexualidades.

Não são só as mulheres bissexuais que têm homens em sua história e ao seu redor. Muitas mulheres lésbicas têm filhos com homens e escolhem que tipo de contato querem ou não ter com esses homens.

Os homens existirão, independentemente da nossa vontade. Eles andam pelas ruas, são nossos familiares, colegas de trabalho, políticos, o cobrador do busão… Nos relacionarmos de alguma forma com eles é uma escolha pessoal e política. Inclusive das mulheres lésbicas. Nos relacionamentos com pessoas bissexuais a mesma regra se aplica. Eu odiaria que a mulher que amo trouxesse pra casa suas ex-namoradas sem dialogar comigo, e felizmente meu ex-namorado não anda no meu bolso pra aparecer nas horas mais inapropriadas e fazer homice em nossas vidas.

Todas nós já tivemos histórias horríveis. Já fomos vilãs na história de outras pessoas e já tivemos o coração partido. Por homens e por mulheres, bissexuais ou lésbicas. Ou ninguém aí ouviu falar no rebuceteio? Ninguém está imune de machucar e ser machucada. Que tal falarmos de respeito e maturidade em nossos relacionamentos?

A promiscuidade não é um bem tombado das mulheres bissexuais. Ela é inerente à humanidade. Aliás, porque ainda tratamos da liberdade sexual alheia com tantos julgamentos e caixinhas?

Mulheres bissexuais podem ser monogâmicas, poliamoristas, românticas, enfim… o que quiserem ser, como qualquer outra mulher. Você e a crush precisam combinar como querem se relacionar e se uma das duas não se encaixa no que a outra deseja pra si, talvez vocês precisem seguir caminhos diferentes, sem demonizar a vivência e desejos da outra.

Estamos todas passíveis a sofrer violências. Pesquisas gringas contam que mulheres bissexuais têm alto índice de suicídio, desordens emocionais e que muitas sofrem estupro corretivo. Aos 14 anos fui estuprada por um homem que quis “me fazer mulher” após saber que eu também gostava de mulheres. Todo e qualquer homem que eu trouxer pra minha vida pode repetir essa história. Ou um homem aleatório na rua quando passeio com meu cachorro.

Ser mulher é necessariamente não ter descanso. É conviver com o medo. É resistir.

Sair do armário pra maioria das pessoas é dolorido, complexo e violento. Pra nós não é diferente. Eu precisei sair do armário duas vezes. É violento cada vez que minha família tem esperanças de que um homem vá me salvar de quem sou. Quando estamos com um homem, não podemos relaxar e fingir uma heterossexualidade. A maioria das bissexuais que conheço precisam diariamente lutar para ser reconhecidas e respeitadas. A militância coletiva ou individual nunca acaba.

A bissexualidade, assim com a transexualidade, ainda é tratada como transtorno e patologia por profissionais da saúde. Ao invés de estarmos vivendo nossos afetos e sexualidade livremente como qualquer pessoa, muitas jovens estão pelejando para fugir de tratamentos forçados pela família e pela sociedade que impõem violentamente que precisamos escolher um lado. A única coisa que eu escolho é quem eu quero ter ao meu lado. Se essa pessoa é legal, me dá frio na barriga e constrói comigo o relacionamento que quero viver. Sempre fui e serei bissexual. Isso não é um problema pra mim, porque ainda é pra muitas de vocês?

Ao invés de patrulharmos a vida, sexualidade e afetividade de outras mulheres, proponho olharmos para nossas vidas tendo em vista o mundo que queremos construir e viver. Resolver as angústias do passado e nos relacionarmos com maturidade e respeito, dialogando abertamente sobre nossos limites e vontades.

Se não entendemos uma vivência, proponho uma solução simples: escuta, empatia e respeito

Ao invés de criar aqui uma competição de opressões e uma disputa de ego militante, eu proponho caminharmos em frente. O mundo está em crise mas eu sou otimista e quero trabalhar em mim o vetor da mudança que quero ver no mundo. E viver a plenitude de nossas sexualidades e afetividades sem violências, preconceitos e discriminação faz parte disso.

Vamos juntas?

 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.


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