De Nova Déli

Desde 2001, a participação feminina no mercado de trabalho rural caiu de 41% para 29% em 2012 (Foto: Richard Evea)

Em mais de duas décadas de carreira, a indiana Namrita Shahani Jhangiani nunca teve muitos modelos femininos em que pudesse se inspirar. Ela também quase não teve chefes mulheres – ou mesmo colegas de trabalho do gênero. Quando suas amigas começaram a ter filhos e se casar, ela deliberadamente adiou seus planos de se tornar mãe para investir em sua carreira, enquanto assistia a maioria das mulheres com idade semelhante à sua deixar o trabalho para se dedicar aos filhos ou ao casamento.

Hoje, Namrita é uma das responsáveis pelos Serviços Financeiros na Ásia da consultoria suíça Egon Zehnder. Sua solitária experiência como uma mulher bem-sucedida também a levou a liderar os esforços para inclusão e diversidade da companhia na Índia. “Aqui há muita expectativa em torno do que faz uma mulher, vinda não apenas de sua família.  Eu conheço pouquíssimas mulheres que tiveram uma carreira. A sociedade espera de nós apenas que cuidemos dos nossos filhos, pais, marido”, explica.

“Em famílias de renda maior, quando apenas o salário do marido é suficiente para sustentar a todos, o salário e o trabalho feminino são vistos como supérfluos”.

Nas últimas décadas, a Índia cresceu, reduziu sua taxa de natalidade e aumentou a educação de sua população. Na maior parte do mundo, inclusive no Brasil, esses fatores levaram a um aumento da participação feminina no mercado de trabalho. Mas não na Índia. De acordo com dados da Pesquisa Nacional (NSS), a participação feminina no mercado de trabalho urbano está estagnada no baixo patamar de 20% desde 2001. Já no ambiente rural, a participação feminina caiu de 41% para 29% em 2012.

Apenas 27% das mulheres indianas estão trabalhando ou procurando emprego. Com esse resultado, a Índia tem uma das piores taxas de participação feminina no mercado de trabalho em todo o mundo, na posição 120 entre 130 países pesquisados, de acordo com ranking da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

“Somente 34% das mulheres com ensino superior estão no mercado de trabalho”, afirma o Banco Mundial.  “A taxa de participação das mulheres no mercado de trabalho é especialmente baixa em todos os níveis de educação. 65% das mulheres com ensino superior não estão trabalhando”, afirma Frederico Gil Sander, principal autor do estudo. Em Bangladesh, essa taxa é de 41%. Já no Brasil e na Indonésia, de apenas 25%.

“A participação de mulheres no mercado de trabalho costuma ser associada a melhor acesso a oportunidades econômicas e mais poder decisório dentro da própria família”, afirmam Farzana Afridi, Taryn Dinkelman e Kanika Mahajan, autoras do estudo “Por que cada vez menos mulheres entram no mercado de trabalho na Índia?”. Em sua pesquisa, elas afirmam ser um desafio explicar como a redução na taxa de natalidade e o aumento da educação não levou ao aumento dos empregos femininos enquanto, em todo o mundo, as mulheres estão se integrando ao mercado em números cada vez maiores.

A diferença de gênero na força de trabalho no mundo declinou 6% entre 1980 e 2009, de acordo com dados do Banco Mundial.

Pressão de todos os lados

A escritora Neha Mathur sabe bem das dificuldades enfrentadas por mães que insistem em manter suas carreiras. Ela conta que teve que convencer sua família que seu filho estaria bem se ficasse na creche durante o dia: “Ele começou a ficar doente e houve muita pressão para que eu desistisse. Eu não cedi e eles eventualmente aceitaram”. Na família ou no ambiente de trabalho, ela conta que se sente julgada por todos, o tempo todo.

“Meu filho espirra e todos os olhos se voltam para mim, como se eu tivesse causado aquilo”, relata.

Neha conta que a expectativa na Índia é que as mulheres deixem seus trabalhos depois de virarem mães. “E não é apenas sobre maternidade. Muitos casais aqui moram com os pais do marido depois do casamento. A esposa pode continuar a trabalhar, mas é esperado dela que contribua com as tarefas em casa. Se a sogra ou sogro ficarem doentes, ela vai ter que tirar o dia de folga. Se qualquer um da família precisar dela, vai precisar faltar ao trabalho”, exemplifica.

A escritora deixou recentemente seu emprego como produtora de conteúdo em uma agência de viagens indiana. Ela disse estar “desiludida com o mundo corporativo”. Neha só voltou a trabalhar depois que seu filho nasceu porque negociou horários flexíveis, mas conta que enfrentou uma pressão maior nos seus relatórios de avaliação. “Essas horas eram usadas contra mim e eu era comparada com alguém que entrava às nove da manhã e saía às oito da noite, enquanto a qualidade do meu trabalho era ignorada”.

Para Namrita a ausência de mulheres no ambiente de trabalho também exerceu muita pressão. “Não havia outras mulheres com as mesmas responsabilidades que eu. Eu não queria ser tratada diferente, então comecei a me comportar como os homens ao meu redor. Eu não queria que eles achassem que eu precisava de tratamento especial, logo, nunca pedi ajuda. As coisas só começaram a melhorar quando eu pude contratar outras mulheres e compartilhar com elas minha angústias”, lembra.
Enquanto mulheres como Namrita e Neha continuarem a se sentir assim em seus trabalhos, a Índia vai perder oportunidades de crescer e reduzir sua desigualdade.
De acordo com o Banco Mundial, a Índia poderia crescer 9% se incluísse mais mulheres no mercado de trabalho.
Entre março de 2017 e março do ano passado, o país cresceu 7,1%. “Em suma, um aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho pode levar a um crescimento econômico mais rápido, a redução da pobreza e melhor distribuição de renda”, afirma o relatório.

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