Flávio Sandoval/ONU Mulheres

Dentre todos os pobres do mundo, as mulheres são as mais pobres. Somos nós as mais vulneráveis e que têm menos oportunidades de superar a pobreza na maior parte das sociedades. A pobreza no capitalismo é condicionada ao gênero, à raça e à orientação sexual.

Falar de pobreza é fundamental pra nos entendermos enquanto lésbicas nesse planetinha azul e desigual. Você já foi à Parada do Orgulho LGBT em Copacabana? Quantos homens gays estão em posição de destaque? E nas Paradas LGBT da Baixada Fluminense (ou das periferias de todo o país)? Em geral, não só vemos mais mulheres (cis e trans), como elas são as organizadoras, produtoras e diretoras das ONGs locais, que matam no peito todos os pepinos que envolvem eventos desse porte.

Uma das mais eficazes formas de abuso e violência contra a mulher é a alienação patrimonial. Ela é exercida por pais, irmãos, filhos e maridos. Adolescentes lésbicas cujas famílias não aceitam a homossexualidade também são expulsas, mas, na maioria das vezes, são trancadas em casa. Têm o acesso ao dinheiro, à educação e ao trabalho negado. E quem paga a banda, escolhe a música.

Quando se retira de alguém o direito à educação, garante-se que essa pessoa vá para o mercado de trabalho com uma enorme desvantagem.

Educação básica e condições de permanência na escola têm que ser assunto sério pras sapas. Assim como o acesso ao ensino superior nas mais diversas formações, inclusive nas ciências exatas.

Os trabalhos mais precarizados do mercado são reservados às mulheres, que também acumulam as tarefas domésticas e a responsabilidade de cuidar de filhos e maridos. Sapatão não tem marido mas cuida dos filhos, dos pais, dos irmãos, sobrinhos… Quer melhorar significativamente a vida das sapas (e das mulheres em geral)? Aumente o salário mínimo! Sim, porque são elas quem majoritariamente recebem UM salário mínimo no mundo todo.

Como as mais pobres entre os pobres, as mulheres são maioria nas periferias e bolsões de pobreza. Moram longe, trabalham no centro, pegam várias conduções. As lésbicas estão entre as mais pobres das mulheres (não têm marido, lembra? Ou foram colocadas pra fora de casa, ou da escola, ou proibidas de sair de casa…).

Subiu a tarifa do transporte público? Bingo, impacto brutal sobre a sapatão da perifa! É o que acontece também com o aumento dos itens da cesta básica…

Falando em periferia: os índices de estupro corretivo e lesbocídio lá são infinitamente maiores. E sabemos disso porque sabemos, porque são nossas amigas, namoradas, companheiras, nós mesmas que morremos.

A lesbofobia não faz parte da agenda da segurança pública e não temos indicadores pra calcular quantas vítimas de feminicídio (que aumentam em progressão geométrica no mundo todo) são lésbicas e tiveram suas mortes motivadas por serem quem são.

Outra questão importante na discussão de pobreza é o acesso aos serviços de saúde. Há especificidades para a saúde da mulher, e mais ainda para as lésbicas. Como o sistema de saúde pública não faz a discussão sobre orientação sexual, quem tem que usar o SUS acaba por não ter o atendimento necessário. Nem de saúde física, nem mental. A depressão é considerada uma epidemia mundial e 70% das pessoas que sofrem é mulher. De acordo com a OMS, mulheres registram três vezes mais tentativas de suicídio do que os homens; LGBTs, cinco vezes mais que heterossexuais cisgêneros.

É fundamental que as sapas se juntem e se envolvam com todas as iniciativas de erradicação da pobreza. Precisamos pressionar para a melhorar a mobilidade urbana, o sistema de saúde, o sistema de educação, a empregabilidade. Exigir o aumento do salário mínimo e a ampliação de microcrédito. Garantir que tenhamos representações nossas que defendam a pauta sapatão e feminista, que não sejamos reféns da “boa vontade” de ninguém.

Quando vemos medidas de precarização sendo aprovadas, PEC 241/55, reforma da Previdência, reforma trabalhista, temos que saber que tudo que piora a vida das mulheres atinge a sapatão com força muito maior.

Nós por nós.

#SapatãoÉResistência

#SapatãoÉRevolução

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