Quem senta no divã de hoje é a Naty Garcia. 

“P or que precisamos falar de assédio até a exaustão? Quando ouço alguém dizendo que o mundo tá chato, que não pode falar nada que é assédio, que feminismo é mimimi, é frescura, tenho certeza de que ainda estamos discutindo pouco o assunto. Então vi que estava na hora de contar alguns episódios que aconteceram comigo. Alguns já aconteceram há muito tempo, mas eu lembro perfeitamente até hoje. Gostaria de reforçar que não, não é mimimi, não é frescura. Não foi legal.

No primeiro caso eu tinha uns cinco anos e o meu vizinho, uns oito. A gente morava em um condomínio de prédios, tinha garagens ao ar livre e minha mãe me deixava brincando lá às vezes.

Um dia ele me puxou e disse que tinha que me mostrar uma coisa legal: me levou para o fundo da garagem, botou o pênis pra fora e quis que eu fizesse algo, que eu obviamente não tinha noção do que poderia ser. Fiquei assustada, saí correndo e fui pra casa.

Nunca contei nada pra minha mãe, mas nunca  me esqueci desse dia.

E hoje eu me pergunto o motivo de um menino de oito anos fazer isso. Será que ele viu alguém fazer? Será que alguém já tinha feito isso com ele também? Nunca vou saber, mas, naquela época, se tivesse contado para os pais dele, talvez falassem que é normal, que é coisa de menino.

E por falar em normal…

Com 18 anos eu fazia faculdade e trabalhava bem pertinho, em uma empresa de telemarketing. Tinha um terreno abandonado, que eu e a maioria dos funcionários usávamos pra cortar caminho. Perto da empresa tinha um estacionamento de ônibus de turismo e, uma vez indo trabalhar, passei por ali sozinha e um motorista de uma dessas empresas (que estava devidamente uniformizado e de crachá) veio em minha direção, colocou a mão dele na minha boceta, por cima do jeans.

Eu fiquei em choque, paralisada. Quando consegui fazer algo, continuei andando, e ele seguiu o caminho dele como se nada tivesse acontecido. Ele devia imaginar que eu não faria nada, já que seria facilmente identificado. Se eu tivesse orientação, poderia tê-lo denunciado por assédio. Mas fiquei sem reação.

Cheguei à empresa chorando porque um cara que eu nunca vi na minha vida enfiou a mão na minha boceta, no meio da rua. A minha supervisora me abraçou e disse que eu não precisava ficar daquele jeito, que era normal, que com ela também já tinha acontecido.

Na época eu parei de chorar sem questionar nada. Ninguém me falou que eu tinha sido assediada. Eu nem sabia o que era isso, e ainda ouvi de outra mulher, que provavelmente também não sabia o que era, que era normal. Atualmente essa mesma supervisora é superengajada e milita na causa feminista.

Com 20 anos, acordei de madrugada na casa da minha mãe com um homem, um conhecido da minha família, em cima de mim. Falava que eu tinha crescido, ficado linda, e “perguntava” se eu não queria ficar com ele. Expulsei o cara do meu quarto. No dia seguinte, ele fingiu que nada tinha acontecido. Dessa vez eu contei pra minha família, mas ninguém me disse que era assédio.

E aí eu pergunto: é frescura mesmo? Alguém gostaria de viver alguma dessas situações? É mimimi? Realmente tem gente que acha que é normal e que a culpa é minha? Qual foi o meu erro? Ter nascido mulher?

Hoje eu sei que a culpa não é minha e gostaria que, com os meus relatos, outras mulheres também soubessem que a culpa não é delas.

Por esses e outros motivos, eu e mais duas amigas resolvemos criar um coletivo para dar voz à causa feminista através da arte e do teatro, o Coletivo Insensatez. Elas, que também já sofreram algum tipo de assédio e abuso, e que também têm muitos motivos para militar, abraçaram a ideia sem pensar duas vezes, assim que contei para elas.

É preciso discutir assédio — de todas as maneiras, em todos os lugares, por todas as pessoas — para que se tenha a dimensão do quanto isso é errado, mas que passa batido por muita gente ao longo da vida.

Não nos calemos mais e que o feminismo nos uma, porque JUNTAS somos mais FORTES. #UmaMinaAjudaAOutra


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