“Mulheres, não recuem” – Foto: Nana Queiroz/AzMina

Foram duas marchas que tomaram Washington nos últimos dias.

A primeira de mulheres do mundo anunciando a resistência às políticas misóginas e discriminatórias do presidente Donald Trump. O tema do direito ao aborto estava lá antecipando a lei da mordaça, como é conhecida entre nós a “gag rule”. A cada novo político republicano no poder, as políticas humanitárias dos Estados Unidos sobre saúde reprodutiva são revogadas.

A segunda marcha era pela vida, como se descreviam as mulheres e os homens que caminhavam, um grupo mais diverso de gente, é verdade, mas que reconhecem no vice-presidente, Mike Pence, um ídolo moral.

Se para as mulheres da primeira marcha não há dúvidas em descrevê-las como feministas, a provocação veio da “marcha pela vida” – algumas delas se nomeavam feministas.

Se para umas poucas, a nomeação feminista é só jeito bobo de perturbar o orgulho das mulheres da primeira marcha, há outras que, genuinamente, lutam pelos direitos de refugiadas chegarem aos Estados Unidos, são contra o racismo ou a homofobia, movem-se por uma pauta extensa de direitos civis e sociais importantes à pauta feminista. Mas são visceralmente contra o aborto; marcham pela vida do feto. Acreditam que a riqueza dos Estados Unidos não deve ser usada para salvar a vida de mulheres da Nigéria que morrem pela insegurança do aborto.

Se no campo linguístico, as palavras podem ser apropriadas e recriadas pelas falantes, há demandas de coerência política para algumas delas. Não falo de coerência semântica, pois esta é permanente disputa no mundo vivido. É na política da vida de uma mulher comum que os sentidos do feminismo precisam ser conhecidos.

Defendo que as mulheres possam viver suas crenças religiosas, apesar de não ser este meu caminho de sentido para os afetos. Defendo que as mulheres possam ou não ter filhos, possam exercer suas sexualidades de maneiras cada vez mais criativas.

Mas não compreendo como o feminismo das liberdades e das igualdades possa defender uma restrição de um direito tão fundamental à outra mulher em nome de crenças particulares.

A incoerência entre ser feminista e ser contra o aborto é simples: é do pluralismo moral que o feminismo se formou, da certeza de que somos diferentes e podemos ser respeitadas em nossa diferença. A começar em relação ao poder masculino, em seguida entre nós mesmas.

Posicionar-se “contra ou a favor” de escolhas que devem ser de foro íntimo não é uma postura ética compatível à política do feminismo, qualquer que seja sua combinação com outras comunidades políticas. Simples como ser um juiz espírita: ou se é um juiz, ou se é um cidadão espírita. No exercício da magistratura, este personagem deve ser apenas um juiz, suas crenças privadas são de outra esfera da vida.

É assim no feminismo. Podemos ser mulheres católicas e feministas – na luta feminista, a religiosidade é só uma forma de sentir e viver a realidade, mas não uma pauta política sobre como o mundo deve ser para a garantia de direitos de outras mulheres. Assim, não há marcha contra aborto com mulheres feministas.

* Você sabia que pode reproduzir tudo que AzMina faz gratuitamente no seu site, desde que dê os créditos? Saiba mais aqui.