Indicados ao prêmio de melhor direção: nenhuma mulher.

Chega essa época do ano e todo fã de cinema fica naquela expectativa pela lista dos indicados ao Oscar, pra poder conferir os filmes que provavelmente levarão a estatueta em que, infelizmente, ainda é a maior premiação da sétima arte. E depois das grandes polêmicas do Oscar So White (Oscar tão branco) e de toda visibilidade no feminismo ano passado, é claro que estávamos ansiosas para ver uma lista cheia de negros e mulheres. Ah, inocente!

A premiação até tentou dar uma compensada nas acusações de racismo. Temos três filmes protagonizados por negr@s concorrendo ao prêmio máximo, um diretor negro na corrida por melhor diretor, seis atores e atrizes negros (pela primeira vez, três negras concorrendo a melhor atriz coadjuvante!) e quatro indicados não brancos (um árabe e três negros, uma delas mulher)  concorrendo a melhor documentário. Ainda é pouco, bem pouco, mas comparado com mulheres…  

Nenhum dos indicados a melhor filme foi dirigido por mulher.

Um deles (“Estrelas além do tempo”) é co-escrito por uma mulher branca, Allison Schroeder. E somente esse é 100% protagonizado por mulheres.

Na categoria de direção, nenhuma mulher.

Melhor roteiro? Somente “Estrelas Além do Tempo” com a roteirista.

Melhor filme estrangeiro, também somente um dirigido por uma mulher, o alemão “Toni Erdman”, de Maren Ade.

E melhor documentário, temos apenas “13th”, da diretora Ava DuVernay. Ah! E “Fire at Sea” que, apesar de dirigido e escrito por um homem, foi idealizado por Carla Cattani (inclusive vale contar que mulheres que tentam trilhar o caminho no cinema, muitas vezes precisam ceder suas ideias para homens as executarem somente pelo sonho de poderem vê-las saírem do papel).

Isso porque eu só chequei os créditos dos indicados nessas categorias, não consegui olhar todas as categorias técnicas, de animação e curta-metragem.

E lembrando que essa lista sai logo depois de um estudo do Centro de Estudo das Mulheres na Televisão e Cinema divulgar que em 2016, somente 7% dos 250 maiores filmes de 2016 foram assinados por mulheres, 2% a menos que no ano anterior .

Mas, ah! Helena, pare de ser chata! O Oscar premia os melhores trabalhos. Que culpa eles têm se não tiveram bons trabalhos de mulheres concorrendo? A função da premiação não é ter uma ideologia. – vocês me diriam. Bem, e eu venho contar que este é um desses pensamentos fáceis que se alimenta por aí e que dá base para que o machismo continue existindo.

Mas vamos começar pelo começo.

Por que é importante ter filmes sobre mulheres e feitos por mulheres?

Representatividade. Essa é a palavrinha chave aqui. Se fala muito dela por aí, mas pelo visto ainda é preciso falar mais né? O cinema – e toda a cultura –  tem um poder enorme de construir o nosso imaginário. Ele cria estereótipos, reforça comportamentos, dita modas e difunde ideias. Quando uma menina cresce vendo em filmes que as esposas ficam em casa fazendo o jantar e sonhando com o grande amor, enquanto os maridos salvam o mundo ou vivem grandes questões profissionais ou políticas, essa menina pode crescer com a ideia de que seu lugar é dentro de casa, enquanto o do seu irmão ou o do seu futuro parceiro pode ser em muitos outros lugares.

Além disso, é muito importante poder se ver nas histórias que você ouve/assiste. Imagine como é para uma criança negra, que raramente se vê nos filmes e, quando isso acontece, está no papel de empregada doméstica. O que ela vai acreditar que pode ser na vida?

Octavia Spencer, Viola Davis e Naomie Harris: pela primeira vez, três indicadas negras na mesma categoria da premiação.

O cinema também tem um papel importante em reforçar a tão falada cultura do estupro.

Ao mostrar com muita frequência as personagens femininas como objetos de desejo, exercendo unicamente a função de excitar os homens, dentro e fora do filme, as produções reforçam para o público a tal ideia de que a mulher é um objeto cuja função é satisfazer o homem, sem papel ativo nisso tudo (isso você pode entender melhor nesse texto aqui).

É sim muito importante que a cultura de massa, e portanto o cinema, mostre que existem  diferentes tipos de mulheres (negras, gordas, trans, cis, cegas, latinas, o que for) e mostre-as ocupando os diferentes papéis que podem ocupar na sociedade. Que essas mulheres podem ser mais do que empregadas domésticas, esposas, namoradas ou sensuais.

Por isso, é importante que existam filmes sobre mulheres e que não sejam apenas comédias românticas.

Mas aí é que vem outro pulo do gato. Um outro estudo do Centro de Estudos da Mulher em Filmes e Televisão mostrou que filmes com mulheres roteiristas ou diretoras, têm 50% mais chances de ter uma protagonista feminina. E é claro que se a pessoa que conta a história for uma mulher, é muito mais provável que ela não coloque as personagens em papel de objeto.

Sem falar que, como qualquer outra área profissional, o cinema ainda é muito desigual e precisa que exista uma equiparação da quantidade de mulheres nos cargos e também nos salários.

Ok. Mas e o que o Oscar tem a ver com isso?

Helena, até aqui eu entendi e até concordo. Mas o que o Oscar tem a ver com isso? Ele é apenas uma premiação. A indústria é ruim e desigual, a gente sabe, mas ele premia essa indústria, fazer o quê? E o foco desse prêmio é a qualidade dos filmes e não a composição das equipes, ou respeito a direitos humanos nas produções. Não é um prêmio ideológico.

Primeiro de tudo, vamos questionar: o que é qualidade? Quem diz o que é qualidade? Existe uma grande academia de profissionais e críticos de cinema, os jurados do prêmio, que dão suas opiniões, baseadas em muito estudo e experiência, e que votam para definir os vencedores. Por mais técnica que seja a decisão, por mais que eles entendam do assunto, é inevitável que suas opiniões e valores acabem refletindo nas escolhas. E quem são esses jurados?

Os membros da academia, que são na sua maioria homens brancos (27% da academia são mulheres e 11% pessoas não brancas). No ano passado, a Academia ouviu as críticas e convidou mais de 600 novos membros, chegando a essas porcentagens, mas ainda não chegou ao ideal.

É claro que se poucos filmes são feitos por mulheres e protagonizados por mulheres, mesmo que a Academia seja perfeita, vai ser difícil que esses filmes preencham todas as categorias. Mas daí fica uma questão: será que a instituição da Academia, considerando toda sua importância em ratificar e fomentar essa indústria, não deveria estimular a igualdade de gênero no mercado e nas produções? Estou falando sim de cotas ou de categorias específicas para isso.

Afinal, premiando como premia hoje, ela está estimulando que a indústria do cinema continue exatamente como é: machista. E isso também é uma ideologia.