Flávia é cientista política e autora de diversos livros sobre feminismo

Flávia é cientista política e autora de diversos livros sobre feminismo

A professora de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), Flávia Birolli, tem perdido o sossego nos últimos meses. Engajada em causas feministas, ela teme uma ameaça bastante específica da atual crise política: a perda de direitos já conquistados pelas mulheres.

Nesta entrevista para AzMina, Flávia fala da seletividade da luta contra a corrupção e do perigo de um discurso moralista que permite aplaudir figuras de ideologia fascista, como o deputado Jair Bolsonaro, do machismo enfrentado pela presidenta Dilma Rousseff, mas também critica Dilma pela aprovação da lei anti-terrorismo.

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A atual crise política tem feito com que muitos temam perder não só a democracia como direitos de grupos minoritários. A seu ver, as mulheres estão em risco?

Entendo que existe um risco específico para as mulheres. A crise inclui um componente mais explícito, que é a disputa pelo poder. É nessa disputa que o problema da legalidade se coloca. Em nome do combate à corrupção, tem-se passado por cima de direitos básicos, falo de garantias individuais, mas também do modo de organização da nossa democracia e de como os direitos políticos se definem nela. Mas há um outro componente. Enquanto falam em nome da pátria, os parlamentares e partidos que patrocinam o impeachment e chancelam um Estado policial têm não apenas agido para proteger indivíduos – é sempre bom lembrar que muitos deles estão entre os acusados e podem ser “os próximos” – mas também têm agido aceleradamente para o desmantelamento de direitos no Congresso Nacional.

É nesse ponto, além do risco que a ruptura com a legalidade representa para todas as pessoas, que as mulheres são particularmente afetadas. Estamos diante não apenas do risco de vários retrocessos, mas de um fortalecimento do discurso fascista.

Vale lembrar, também, que ainda que isso tenha se dado de forma mais tímida do que o desejado, é nos governos petistas que houve maior diálogo com os movimentos feministas e maior possibilidade de avançar na construção de uma agenda de gênero.

Que a nossa primeira presidenta mulher seja tirada à força do poder não pode aumentar o preconceito e a insegurança em torno de votar em mulheres?
Como podemos combater esse movimento?

Entendo que no modo como se mobiliza o apoio ao golpismo em curso, o sexismo é um elemento fundamental.

Nesse ambiente de agressividade, é como mulher que a presidenta é agredida nas ruas, em posts, em adesivos etc.

É preciso lembrar que o impedimento significa que Dilma terá seus direitos políticos retirados por um período de 8 anos. Isso é muito grave. No golpe em curso, as mulheres têm muito a perder, tanto pelo fato de se romper com a legalidade e com os direitos, quanto pelo avanço, a passos largos, do conservadorismo e dos retrocessos, nas ruas e no Congresso Nacional.

Em sua visão, é possível que líderes ultraconservadores, como Cunha e Bolsonaro, saiam fortalecidos desta disputa? Como isso afetaria as mulheres?

Falar em Cunha e Bolsonaro é falar em lideranças distintas. Cunha é uma expressão acabada da política que, supostamente, o discurso de condenação à corrupção desejaria destruir – mas tem sido preservado, o que mostra os limites dessa visão e das ações dos meios de comunicação, setores do judiciário e partidos. Além disso, ele tem trabalhado para a aceleração da agenda de desmantelamento dos direitos e se opõe expressamente aos direitos das mulheres, o que fica claro em iniciativas como o PL 5069/2013, que procura restringir o acesso a atendimento hospitalar das mulheres que sofreram estupro.

Já Bolsonaro se realiza como político com base em uma agenda: a do retrocesso, da homofobia, do sexismo, do racismo. Nessa agenda, entra facilmente o discurso anti-corrupção, o que deveria ser percebido pelas pessoas, mas parece não ser.

Quais são, enfim, os valores pelos quais as pessoas estão indo para as ruas de verde-e-amarelo? Parece-me que não estão claros e que o motor é o ódio ao governo e ao PT, investido de um discurso moralista genérico e de um conservadorismo mais difuso que permite aplaudir Bolsonaro.

Por outro lado, pode crescer uma outra figura mais moderada como Marina Silva?

Neste momento, acho difícil opinar sobre isso. Acredito que teremos mais Bolsonaros no Congresso. Por isso precisamos pensar em quais as alternativas para coalizões de esquerda, capazes de tematizar direitos humanos e os direitos das mulheres especificamente. Quanto à Marina Silva, acho difícil pensar na corrida para o Executivo, tudo me parece muito incerto.

A popularização do feminismo na internet tem feito com que muitas mulheres se organizem em mais e mais protestos nas ruas. O que a aprovação da lei antiterrorismo significa para esses movimentos?

Os movimentos e manifestações de rua poderão sofrer consequências com base nessa lei, sem dúvida. Como a interpretação nesse caso é uma questão central, acredito que o risco se amplia com o aprofundamento do conservadorismo.

Flávia é doutora em história pela Univer­sidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professora de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), onde também coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê). É pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e foi diretora da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) (2010-2012). Edita, com Luis Felipe Miguel, a Revista Bra­sileira de Ciência Política. É autora dos livros “Caleidoscópio política e mídia” (com Luis Felipe Miguel, Editora Unesp, 2011), “Autonomia e desigualdades de gênero: contribuições do feminismo para a teoria democrática” (Eduff e Horizonte, 2013) e “Família: novos conceitos” (Fundação Perseu Abramo, 2014). Organizou os livros “Mídia, representação e democracia” (com Luis Felipe Miguel, Hucitec, 2010), “Teoria política e feminismo: abordagens brasileiras” (com Luis Felipe Miguel, Horizonte, 2012), “Teoria política feminista: textos centrais” (com Luis Felipe Miguel, Eduff e Horizonte, 2013) e “A democracia face às de­sigualdades: problemas e horizontes” (com Luis Felipe Miguel, Danusa Marques e Carlos Machado, Alameda, no prelo).