O Divã hoje é da Camila Marques, que é negra, que é linda e que já é modelo para muitas pequenas mulheres negras.

Valéria Valenssa estreou a Globeleza em 1990

Valéria Valenssa estreou a Globeleza em 1991

Q uando assisti ao vídeo da Revista Azmina sobre como as mulheres em outros países vêem a “nossa Globeleza”, caí em lágrimas, pois lembrei que o meu sonho de criança era ser Globeleza. Quando pequena, eu não gostava da minha cor – apesar da minha família sempre me dizer que eu era “morena” e não “preta”. Achava que não era bonita porque nunca via mulheres com a minha aparência serem princesas, empresárias ou modelos.

Adorava a programação de Carnaval das emissoras televisivas, afinal de contas, era a única época do ano em que as mulheres negras não eram retratadas como empregadas domésticas. Na verdade, eu via as passistas das escolas de samba como verdadeiras rainhas, exuberantes, sorridentes e sempre com uma coroa de plumas na cabeça.

Em 1991, quando tinha seis anos, a Rede Globo estreou sua famosa vinheta de Carnaval, aquela que tem uma parte que diz assim: “Vem…deixa o meu samba te levar, Vem nessa pra gente brincar”. Aquilo me hipnotizou. Sempre que ouvia corria para a frente da TV, a música não saía da minha cabeça. E o melhor: a vinheta veio acompanhada de uma mulher negra, Valéria Valenssa, que foi intitulada “Globeleza”.

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Naquele carnaval só se falava na Globeleza, com uma beleza “exótica”, preta, de cabelo crespo, seios delicados, lábios grossos e – não poderia faltar – uma bela bunda. Ela era o centro das atenções nas programações e a audiência sempre ia às alturas.

Quando via a Globeleza, não me sentia feia, pra mim ela era a negra das negras do Carnaval. Aquilo mexeu comigo de tal forma que, um dia, meu pai me perguntou em um almoço de família o que eu queria ser quando crescer e respondi firme: Globeleza!!!

Todos riram muito, até que alguém me disse que para ser Globeleza eu tinha que sambar – afinal, toda negra tinha que sambar – então, comecei a sambar escondido pelada em frente ao espelho e, às vezes, quando estava sozinha, ficava na varanda de casa enrolada numa toalha, e quando um certo senhor passava jogava a toalha, sambava rápido e saia correndo. Dá para imaginar qual o resultado disso, mas talvez seja assunto para um outro artigo.

Isso continuou durante alguns anos, até que fui crescendo, aprendi a ler e desenvolvi uma personalidade questionadora, inclusive comigo mesma. Em algum momento de autocrítica, que deve ter ocorrido no início da adolescência, me perguntei porque meu sonho era ser Globeleza e, pasmem, descobri que nunca quis ser a rainha do Carnaval, o meu grande sonho era ser uma negra bem sucedida.

Claro que isso gerou uma grande crise de identidade: como eu poderia passar de uma posição de objetificação para uma de empoderamento, se não conhecia mulheres assim para servir de parâmetro? Então comecei a procurar pela cidade do interior onde cresci, e tinha muitas pretas excepcionais! Embora nenhuma delas fossem médicas, juízas ou engenheiras, muitas já haviam nutrido o mesmo sonho que eu, enquanto para a maioria, ter sucesso não passava de uma utopia.

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De qualquer forma, foi assim que descobri que não estava sozinha, o meu problema nunca foi individual. Dada a forma como a sociedade é organizada, no entanto, tudo isso me incomodava muito, então tive que fazer uma escolha: ou me encaixava naquele padrão da famosa marchinha de carnaval – “O teu cabelo não nega mulata, porque és mulata na cor, mas como cor não pega mulata, mulata eu quero teu amor” – ou seguiria fora da caixa!

Não preciso dizer o que escolhi, mas acreditem ou não, seguir fora da caixa é muito mais doloroso que aceitar os padrões impostos pela sociedade, isso se dá principalmente porque o meu sonho hoje vai muito além de ser bem sucedida. Hoje quero ser exemplo para aquela menina preta e pobre, que não tem parâmetro de sucesso. Sei que ainda estou distante disso, mas já levanto a bandeira, vou à luta e compro brigas corriqueiramente.

O que posso dizer às mulheres de outros países é que, apesar de estarmos no Brasil, um país super miscigenado, existe racismo aqui sim! E estamos envolvidos em um estereótipo de cor, que determina que a mulher negra seja representada na maioria das vezes de forma hipersexualizada, como produto do Carnaval.

Bônus

Ainda estamos longe de ver na TV, nas passarelas, nas universidades e na política, a mesma porcentagem de mulheres pretas que existem na população, mas paulatinamente isso tem mudado. Foi com muito orgulho que conheci esta semana o Afro Ilú Obá De Min (que significa “mãos femininas que tocam tambor para Xangô”), um bloco composto por mais de 300 mulheres, que este ano está homenageando a queridíssima Elza Soares.

“Ser negra, mulher e brasileira é para mim um grande orgulho e minha maior missão. Que todas as mulheres sejam homenageadas. Somos a grande força do mundo e nosso caminhar é sagrado. Me sinto ‘pequena’ quando recebo homenagens, mas esta me faz gigante, pois é a celebração de toda mulher brasileira. Todo meu amor e axé para as mulheres do Ilú” , Elza.