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Pércia, destaque da Gaviões: “Não é porque vendo minha beleza que não mereço respeito!” – Foto: Arquivo Pessoal

E la é uma mina boa-praça, calma, cristã – até acredita no princípio de “dar a outra face”. Mas quando o camarada evoluiu de colocar pau de selfie embaixo da saia dela e das colegas de trabalho para tentar tocá-las sem permissão, atingiu o limite de sua paciência. A modelo Pércia Meneses, 30, ajeitou a direita, acertou um golpe no meio da cara do abusado e quebrou o nariz dele sem sentir remorso algum. Algumas pessoas pedem.

Desde cedo na vida, Pércia chamou a atenção por suas curvas acentuadas e rosto de boneca. Começou a trabalhar como “musa” em eventos, desfiles e presença VIP em camarotes há 12 anos, mas nunca se acostumou a ser tratada como se não tivesse alma por trás da beleza. Neste ano, ela, que é musa do Corinthians, desfila como destaque de sua escola de samba de coração, a Gaviões da Fiel, e já se prepara pra julgamentos e assédios que são praxe para quem, como ela, ganha a vida com a beleza, sendo modelo, musa de eventos e camarotes ou desfilando no Carnaval.

“Olham pra gente como se fôssemos paisagem, como se não tivéssemos valores e princípios. Nosso caráter é medido pelo tamanho da nossa roupa. O tempo todo estão nos tachando de algo – e nunca algo positivo”, afirma Pércia. “Gente, meu trabalho tem um preço, minha vida não. Sei que na mídia eu sou um produto, mas isso não quer dizer que eu, ser humano, estou à venda!”

Em seus 10 anos de musa carnavalesca, Viviane Santos, 38, a Vivi Brilho, rainha da bateria da Leandro de Itaquera, já assistiu e viveu situações revoltantes. Ela conta que muitos homens fingem que vão tirar fotos e usam a oportunidade para tocá-la sem permissão, que chegam pra dançar e a encoxam,  convidam-na para programas e dizem coisas vulgares sem que ela dê liberdade. “Algumas pessoas confundem as coisas. Meu trabalho tem a ver com sensualidade e não com vulgaridade”, reclama.

“O fato de estar com pouca roupa não significa que eu esteja fazendo programa ou que as pessoas tenham alguma liberdade pra fazer o que quiserem com meu corpo. Quem tem que dar o limite somos nós – e os homens têm que aceitar esse limite.”

Vivi e Pércia não são estereótipos carnavalescos, mas pessoas únicas e complexas. Pércia é locutora de rádio de um programa esportivo e vai à igreja evangélica com frequência. Vivi ganha a vida como professora infantil e gosta de passar finais de semana com a família. “Algumas pessoas adoram encher a  boca pra falar que somos vagabundas, mas isso não tem nada a ver”, protesta Vivi.

O mais triste da realidade de mulheres como Vivi e Pércia não é apenas o assédio, mas a conivência de agências de modelos e escolas de samba com situações de abuso. Segundo Vivi, muitas mulheres já deixaram suas agremiações após serem assediadas por homens importantes do Carnaval, como diretores e ritmistas. Começaram a se sentir inseguras nos ensaios e abandonaram os cargos sem que ninguém as defendesse. “Esse tipo de comportamento é uma falta de profissionalismo. E as escolas deviam defender essas mulheres, chamar as partes pra uma conversa!”, opina.

Na semana passada, por exemplo, o excesso de assédios sexuais levou a carnavalesca Fernanda Raisa a deixar seu trabalho na Unidos da Ponte, escola do Grupo B do Rio de Janeiro. Desrespeitando sua vontade e sua orientação sexual – ela é lésbica e levava a namorada a ensaios – um dos colegas passou a mão em partes íntimas de seu corpo. Nenhum membro da diretoria da escola se pronunciou em sua defesa. “Eles vão abafar o caso, como sempre fazem. Fiquei sabendo que a ordem foi não tocar no assunto, deixar morrer”, diz ela, desapontada.

Além de não proteger Fernanda, os membros da escola excluíram seu nome dos créditos do samba enredo no material divulgado à imprensa. A carnavalesca está convencida de que a atitude foi uma retaliação por ela não ter abaixado a cabeça diante do abuso. Do sonho de começar a construir uma carreira no mundo do Carnaval sobrou apenas desgosto e medo do agressor tentar se vingar de sua denúncia.

“Hoje, no Carnaval, mulheres não são apenas dançarinas, mas intérpretes, compositoras e carnavalescas. Mesmo elas enfrentam preconceito e assédio”, atesta Vivi.

“Sabe, outro comportamento é possível! No nosso meio há homens que nos admiram, olham e ficam na deles. Ou se aproximam com jeitinho. Claro que pode admirar, paquerar, mas nós queríamos que os homens nos vissem como profissionais e nos respeitassem.”

No mundo das musas, pouco importa quem você é – nem mesmo se é menor de idade. A estudante de arquitetura Stephanie Ribeiro, 22, trabalhou como modelo e bela em eventos por 4 anos durante a adolescência. Conta que insinuações sexuais eram comuns mesmo antes que ela completasse 18 anos. “Além de ficar de pé por muitas horas e ganhar mal, os caras também nos assediavam pesado. Uma vez, num desfile, um dos modelos famosinhos ficou falando pra eu ir pra casa dele.”

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Vivi, rainha de bateria: “Meu trabalho tem a ver com sensualidade e não com vulgaridade” – Foto: Marcelo Messina

Um mundo de limites obscuros

A vida de musa pode levar muitas mulheres a situações-limite, como Pércia, além de causar anorexia, depressão e crises de ansiedade. Isso acontece porque são mal definidas as atribuições dessas mulheres e interessa aos agenciadores que elas sejam “dóceis” perante situações de assédio e, eventualmente, saiam com clientes ou até se prostituam – apesar da maioria delas deixar bem claro que não está aberta a trabalhos que envolvam prostituição. “Eu não julgo quem faz isso (se prostituir), apenas não é o que sonhei pra mim”, relata Pércia. 

Segundo Stephanie, as sugestões de calar-se diante do assédio e oferecer-se a trabalhos como prostituta são feitas de forma sutil. “É ingênuo achar que modelos se prostituem sem que a agências saibam, elas sabem, sim”, afirma. “Vi muitas colegas ganhando cirurgias de silicone de maneira misteriosa. Além disso, os agenciadores incentivam a todas (mesmo as que não topam se prostituir) a serem ‘gentis’ com o assediador. ‘Seja sorridente’, ‘Retribua elogios’, dizem. Diziam isso pra mim mesmo quando eu era menor de idade! Meninas de 16 e 17 anos já são estimuladas a ‘retribuir’ pesado!”

É neste contexto que surgem as chamadas “fichas rosa” ou “book rosa”, modelos e musas que estão abertas à prostituição por um cachê a mais. “E nem é tanto a mais assim. Às vezes, apenas uns R$ 600”, revela Pércia. “Já vi casos assim acontecerem até em estandes de marcas famosas em feiras de carros, como a Fórmula 1. Mas o pior de tudo é que todas nós somos taxadas de ficha rosa. Os caras chegam com uma abordagem de prostituição sem nem mesmo fazer perguntas!”

Trata-se de um limite delicado entre a legalidade e a ilegalidade, já que o trabalho de agenciamento de prostitutas (ou cafetão) é contra a lei brasileira. Assim, as modelos ficha rosa assumem esses trabalhos a próprio risco, já que as agências não podem se envolver oficialmente em relações sexuais entre elas e seus clientes – principalmente se mediadas pelo dinheiro.

Mas não é só a presunção de serem prostitutas que incomoda as musas. “E quando as pessoas chegam bem perto, abaixam para fazer imagens íntimas? Quase fotografam a minha vagina! Isso é muito constrangedor e uma falta de respeito. Não acho que tenho que ser simpática com pessoas assim”, protesta Vivi.

Existe ainda um temor do qual homens do mundo carnavalesco se aproveitam. “Alguns, como foi no meu caso, insistem e se acham no direito de ‘chegar chegando’, mesmo sem a mulher mostrar o mínimo interesse. E elas não denunciam por medo. E não é medo de não ser mais contratada pela escola de samba, não: é medo de morrer mesmo”, revela Fernanda.

Stephanie acrescenta que o abuso psicológico por parte de agenciadores também é cruel. Aos 13, um agenciador disse a ela que era “gorda” (tinha 1,76 e 58 quilos) e, se quisesse seguir na carreira, devia continuar comendo apenas chuchu ou bolachas água e sal. Beber? Somente água! Enquanto o estímulo à anorexia é comum entre as mais novas, as mais velhas são pressionadas a gastar horas excessivas na academia. “Funciona assim: você é nova e magra, viaja pra São Paulo, conhece agências, participa de concursos, faz fotos e desfiles. Mas tem que se manter muito, muito magra. Já se você é mais velha, consegue algumas fotos e faz eventos, principalmente. E, aí, tem que ser ‘gostosa’”, revela a estudante.

As musas negras

Em desfile para a marca Morana, modelo olha descaradamente a bunda de Stéphanie Ribeiro - Foto: Divulgação

Em desfile para a marca Morana, modelo olha descaradamente a bunda de Stephanie Ribeiro enquanto ela era menor de idade – Foto: Divulgação

O quadro pode piorar quando se acrescenta racismo à mistura. Stephanie, por exemplo, era estimulada a competir com outras colegas negras de maneira perversa. “Toda modelo negra sabe que só uma de nós vai passar no casting”, conta. “Isso acontece porque poucos trabalhos aceitam mais de uma negra, tanto que as agências têm poucas. Se arrumarem apenas uma que consideram bonita e no padrão, dificilmente vão atrás de outra.”

Na época de Carnaval, o quadro muda e agenciadores começam uma verdadeira “caça às mulatas”. Stephanie acha essa prática ofensiva. “No resto do ano não nos dão espaço e no Carnaval nos pedem para usar nosso corpo apenas como objeto sexual. Querem determinar qual o lugar que deve ser ocupado pela mulher negra e este é sempre um lugar desumanizado, de ‘coisa a ser usada’”, protesta.

Para ela, a escolha dessas mulheres, além de tudo, segue os mesmos critérios que, na época da escravidão, seguiam os senhores para escolher as escravas que seriam vítimas de estupro: pele mais clara e traços considerados “finos”, assemelhados aos de mulheres brancas. “O próprio termo ‘mulata’, popularizado no Carnaval, é pejorativo e se refere à mula, um animal mestiço, uma mistura indesejável.”

Já Vivi acha que o racismo aparece camuflado mesmo entre pessoas que gostam de encher a boca para falar que brancos e negros são iguais. “Mas o preconceito existe. Hoje, por exemplo, há muita mulher branca que samba como destaque, mas quando é pra dar nome feio, é sempre a negra, a ‘mulata vagabunda’, que toma a fama.”

Ué, mas não é uma profissão machista?

“Ué, mas quem se coloca na posição de ser admirada pela beleza e pelo corpo não está se curvando ao machismo? Não é uma profissão machista por definição?”, questionam-se alguns. O pensamento, contudo, é perigoso e se assemelha ao de quem acredita que, por estarem desfilando, essas mulheres “merecem ser atacadas”. E a maioria das mulheres entrevistadas discorda veementemente.

A publicitária Carla Purcino, 38, por exemplo, deixou a vida de musa e de desfiles em escolas de samba há quase 20 anos. Mas, até hoje, mesmo sendo feminista de carteirinha, não vê problema algum em ganhar a vida com a beleza. “Eu amava o que fazia. Uma pessoa pode gozar por ser admirada mesmo que por homens e mulheres que jamais desejaria. Isso é uma coisa; outra é um homem acreditar que, por ela estar ali, ele tem direito material sobre ela. Qualquer ação que extrapole o mental já é proibida pra mim, a menos que ambas as partes estejam de acordo pleno”, opina.

“Há uma posição de proteção excessiva entre algumas feministas que me parece privar as mulheres de livre arbítrio. Como seu houvesse ‘leis feministas’ a serem seguidas. Elas merecem, sim, e podem escolher trabalhar com a beleza.”

É preciso também, entender, o quão empoderador é, para uma mulher da periferia que não é padrão de beleza no resto do ano, ser rainha da bateria ou destaque no Carnaval. “E quem fingir que não gosta de ser admirada, mente!”, atesta, confiante, Vivi.

Stephanie, que hoje é uma das mais fervorosas ativistas do feminismo negro no Brasil, defende: “É um tema complicado. Eu penso muito sobre isso, mas não posso negar que o dinheiro que ganhei sendo modelo me ajudou a estudar, por exemplo. É uma profissão em que você se diverte, mas é cheia de problemas”, opina. “Com relação às ‘ficha rosa’ o tema é ainda mais complexo: eu entendo que a legalização da prostituição daria dignidade pra um trabalho que existe, mas gostaria que as mulheres que se prostituem tivessem escolhas, porque muitas são levadas a se prostituir pra sobreviver e não porque optam por isso”.

Para Flávia Biroli, autora do livro “Feminismo e Política” (Boitempo, 168 página, R$ 34), não devemos nos perguntar se essas mulheres estão ou não se sujeitando a um trabalho machista, mas questionar que tipo de sociedade coloca as mulheres numa posição em que são apenas adornos que podem ser abusados. “É o velho, mas atual, problema da objetificação das mulheres e de seu lugar na reprodução do sexismo”, afirma Flávia. E Stephanie conclui: “Precisamos quebrar o tabu, falar sobre isso, descobrir os caminhos. Se não fizermos isso, muitas mulheres continuarão a ser exploradas.”