O divã hoje é da militante feminista negra Stephanie Ribeiro

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Ilustração de Laura Callaghan

 

M uitas pessoas já ouviram ou falaram sobre relacionamentos abusivos, entretanto, poucas já viveram um. A nossa cultura naturaliza e imprime na relação abusiva a ideia do amor perfeito. As histórias de contos de fadas da Disney, as novelas e o mito do “em briga de marido e mulher, não se mete a colher” são exemplos de como somos bombardeados por informações que nos ensinam que abuso e amor são quase que sinônimos.

No Brasil as mulheres são as grandes vítimas dos relacionamentos abusivos, a cada 4 minutos uma mulher é vítima de agressão, segundo a pesquisa  Percepções dos homens sobre a violência doméstica contra a mulher, do Instituto Avon. Somos silenciadas e mortas enquanto um pacto social prefere negar o machismo, em vez de combater a estrutura opressora. Contudo para além do discurso do relacionamento no campo afetivo romântico, existe uma série de outros laços afetivos abusivos no nosso cotidiano, que também fazem das mulheres alvos fáceis.

Por isso podemos, sim, estar vivendo uma amizade abusiva.

Abuso físico, emocional, sexual, financeiro, digital e stalking (perseguição) estão também presentes nesse tipo de amizades. Podemos conhecer uma pessoa há anos, ou ter alguém como um amig@ importante e marcante e, de repente, não nos sentimos mais bem ao interagir com el@. A vulnerabilidade tem grande ligação com a dependência emocional, às vezes financeira, e algum tipo de desprivilégio perante @ amig@ abusiv@. Um exemplo: o amigo controlador pode ser mais velho, acadêmico e/ou ter uma condição financeira mais estável.

Eu já vivi várias situações dessas, acreditando que, sem @ outr@, eu ficaria sozinha. Aceitava amizades onde a necessidade de ser minha tutora era, para a dita “amiga” bem maior do que meu bem-estar psicológico e físico. O que primeiro identifiquei foi o CONTROLE. Assim que manifestei qualquer independência, me tornei não mais um ente querido, mas alguém que precisava ser controlada e combatida. Humilhar em público virou uma atitude comum: a exposição de meus segredos íntimos, piadas sobre questões que me magoam e a deslegitimação da minha capacidade intelectual foram algumas das atitudes tomadas.

Depois percebi o contexto de DISPUTA. Era corriqueira a ideia de que estávamos de alguma forma interessadas pelos mesmos homens – mesmo que eu não apresentasse interesse por alguém que ela pleiteava, acaba sendo vista como ameaça. Assim como os homens que me eram instigantes, imediatamente eram colocados para ela como alvos. Isso não se trata de duas mulheres afim do mesmo homem, ou homens que criam ambientes de rivalidade entre mulheres. É a identificação da repetição de um padrão na relação entre amigas. A suposta PROTEÇÃO acabava camuflando todo um contexto agressivo. Aos olhos dos demais nossa amizade era linda, porém não era bem isso.

O uso de termos que remetem ao gênero feminino nesse texto não são à toa: eu sempre colecionei amizades com mulheres e isso não me privou de viver amizades abusivas, mesmo quando essas eram feministas. Fazemos parte de uma sociedade patriarcal e católica, onde é mais fácil “tutelar”, ação que carrega uma opressão e consequente hierarquia, do que ser empático e manter respeito pelas grandes peculiaridades das demais.

Mesmo que sejamos feministas hoje, não fomos desde o início das nossas vidas educadas dentro do feminismo. Por isso, até mesmo nós feministas reproduzimos padrões sociais que destoam do que lemos na teoria – ou de quem desejaríamos ser.

A ideologia da sororidade diz que somos irmãs e lutamos unidas contra o patriarcado e o machismo, sendo assim uma tática de luta contra a rivalidade feminina. Mas há alguns problemas na banalização da sororidade: eu mesma, enquanto negra, já fui silenciada inúmeras vezes em nome desse “bem maior” — que para mim só pode ser realmente praticado quando se é da mesma vertente feminista, classe social e/ou raça etc. Acredito que é necessário ir além, sendo direta. Precisamos falar dentro do nosso ciclo feminista sobre inveja, detonação e abuso.

Em abril de 1976, foi escrito por Jo Freeman, militante feminista estadunidense, um artigo “Trashing: o lado sombrio da sororidade”, na revista Ms. O conteúdo é uma crítica à forma como a autora foi agredida psicologicamente por outras mulheres feministas, a partir do momento que começou a se destacar.

“Esse ataque é executado fazendo com que você sinta que a sua mera existência é prejudicial ao movimento e que não há nada que se possa fazer para mudá-lo. Esses sentimentos são reforçados quando você fica isolada das suas amigas, enquanto elas se convencem de que a associação com você é também prejudicial para o movimento e para elas mesmas. Qualquer apoio a você irá manchá-las. Eventualmente, todas as suas colegas se juntarão num coro acusatório que não pode ser silenciado, e você se verá reduzida a uma mera paródia de quem outrora havia sido.

A questão trazida por ela na década de 70 ainda persiste em 2015. Por mais que o feminismo seja acolhimento e empoderamento, a socialização feminina na cultura machista é a da disputa.

No mesmo texto, Freeman cita a colega Anselma Dell’Olio e seleciona trechos do seu artigo “Divisionismo e autodestruição no Movimento das Mulheres”, que ela havia feito recentemente para o Congresso para a União das Mulheres como resultado da queimação de filme que ela própria sofreu:

“E o que elas atacam? Geralmente duas categorias… Sucesso ou realização de qualquer tipo parecem ser os piores crimes: …faça qualquer coisa…. que outras mulheres acreditem em seu íntimo que também poderiam ter feito – e… você vira alvo. Se, então… você for assertiva, se tiver o que geralmente é descrito como uma ‘personalidade forte’, se… você não se encaixar no estereótipo convencional de uma mulher “feminina”… está tudo acabado.

Freeman diz que muitas mulheres estão, sim, descontando a raiva que possuem do machismo e das opressões que viveram ao longo de suas vidas em outras feministas, e nisso eu só diria que o foco geralmente é nas que estão mais próximas: as amigas.

Quanto mais o discurso feminista ganha visibilidade, e algumas de suas figuras se destacam, mas o isolamento dessas mulheres é a forma de tortura encontrada pelas outras para mostrar que discordam do papel que ela ocupa. No fim essa quebra de relações nunca é feita de forma limpa e pacífica, ela é rodeada de maus tratos, exposições e picuinhas, que só demonstram o que são as relações abusivas ainda permeiam os meios feministas. Precisamos ampliar nossos debates e desconstruções, para que, realmente, a prática de empatia entre mulheres seja real.

Precisamos falar de amizades abusivas, dentro do feminismo.