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Modelos ultramagras e remédios para emagrecer em falta. É o fim do body positive?

Especialistas analisam volta da magreza como acessório de luxo e o estouro da Y2K, tendência que pede volta aos anos 2000

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Depois de duas décadas de debate sobre corpos livres e a presença crescente de modelos de tamanhos diversos nas passarelas, a magreza excessiva voltou a tomar conta das principais semanas de moda internacionais de 2023.  O fato não passou despercebido, já que historicamente a moda constrói no imaginário coletivo o que é bonito e tem valor, lançando tendências que vão muito além do guarda-roupa. 

Compondo esse cenário estão os remédios para diabetes, usados para emagrecer, que sumiram das prateleiras das farmácias da Austrália e dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que celebridades, como Kim Kadarshian, conhecida por valorizar suas curvas, se rendeu a uma dieta restritiva para caber em um vestido, durante o Meet Gala – uma espécie de Oscar da Moda. Na ocasião, o estilista Karl Lagerfeld recebeu uma homenagem póstuma por suas criações. Ainda que, em vida, tenha reproduzido falas gordofóbicas contra mulheres – principais consumidoras desse mercado.

Enquanto isso, no Tik Tok, rede social queridinha da geração Z, uma hashtag que pede a volta de tendências que marcaram os anos 2000, como cintura baixa, cabelo alisado e barriga negativa,  disputa espaço com um balão gástrico que, uma vez engolido no formato de uma cápsula grande,  infla dentro do estômago, dando uma sensação de saciedade. 

Fatos isolados ou sinais claros de que estamos perto de voltar para o lugar em que a magreza era vista como um acessório de luxo, que se paga caro para ter? As conquistas dos movimentos que defendem o corpo livre são sólidas o suficiente para resistir ou o movimento body positive está com os dias contados? AzMina conversou com modelos e especialistas no mercado de moda para buscar essas respostas. 

O PADRÃO MUDOU?

Duas décadas depois do início da discussão sobre diversidade de corpos, as semanas internacionais do primeiro semestre de 2023 mostram que só  17 de 219 desfiles tiveram pelo menos uma modelo plus size. Os dados foram coletados pela Vogue Business.  Isso significa que mais de 95% das modelos eram magras e nem 4% por cento eram modelos mid size (médias). 

Cenário que pegou a mídia internacional especializada de surpresa, mas pouco surpreendeu para quem vive os bastidores desse mercado. “Eles trataram o movimento (sobre diversidade corporal) como modismo”, aponta a consultora de tendências, moda e consumo, Patrícia Santana. Para ela, a diversidade corporal observada nos últimos anos foram uma resposta temporária e superficial para um problema que a moda ainda não se comprometeu verdadeiramente a resolver.

A modelo e atriz Mayara Russi viveu isso na pele. “Muitas vezes eu chegava lá no casting e a roupa não passava na coxa”.   Marcas que se propunham a trabalhar com modelos gordas desistiam do trabalho com o discurso de que a “modelo não cabia na peça piloto”, como é chamada a base para reproduzir a roupa em escala.  

Cansada de situações constrangedoras, Mayara, que atuou na série Verdades Secretas da TV Globo, decidiu fazer uma transição de carreira. Hoje, trabalha como influenciadora digital e atriz. “Eu tô mais na parte de entretenimento, porque eu cansei.” Ela também se dedica a conscientizar e educar as marcas e indústria da moda para a produção de roupas para corpos reais. “Inclusão de verdade é quando você vê uma marca que veste do 44 aos 66”, conclui.  

MENINAS SÃO PRINCIPAIS VÍTIMAS

Há sete anos trabalhando como modelo, Gabriela Caroli fez parte do movimento que colocou em pauta a pressão estética e a gordofobia causadas pela moda e publicidade. Ao acompanhar a omissão de grande parte das marcas frente a um pedido de mudança estrutural, cansou. “A gente aprendeu a não esperar quase nada das marcas que não são Plus Size”. 

A maturidade e o aprofundamento no debate ajudaram Gabriela a consumir e a buscar marcas e estilistas que trabalham com a diversidade corporal, crescentes no mercado Plus Size, mas, por um outro lado, fez com que ela temesse por meninas mais jovens que não tem o mesmo acesso à informação e podem ser sequestradas pelo discurso em torno da magreza excessiva.  “Elas vão influenciar para que você queira usar uma (determinada) calça e, para isso, deseje ter um corpo diferente”. 

Só de pensar no tema, Mayara Russi sente um pavor. É que durante a adolescência ela chegou a perder duas amigas que tentavam emagrecer usando remédios inibidores de apetite. Ela e as outras meninas tinham 15 anos e sonhavam em usar roupas da moda, mas não encontravam. As únicas que serviam ficavam na ala masculina e nas lojas para mulheres mais velhas. “Esse mínimo de acesso, a gente não tinha”. A solução foi recorrer aos comprimidos. “Tenho trauma até hoje”. 

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DISPUTA DE NARRATIVAS 

Para  proteger meninas e mulheres da pressão estética e gordofobia que matam, é preciso que a moda seja pautada como uma questão que interfere na saúde pública da população, porque por vezes é responsável pelo desenvolvimento de transtornos alimentares.   “Se as pessoas ficarem achando que é sobre  uma gorda querer ser vista, não vamos sair desse lugar”, argumenta a especialista em Moda e Mercado Plus Size, Dani Rudz. 

Como proposta,  ela reivindica espaço e apoio para as marcas que se propõem a olhar para a diversidade corporal, já que, de modo geral, são tocadas por pequenas empresas e estilistas independentes.  Junto a isso, defende, como política pública e legislação, o que é chamado de design universal, já estabelecido em outros países, como os Estados Unidos. “A roupa é feita para que todo mundo possa vestir e é fácil de comprar, você encontra no mercado da esquina”, sugere. Moda é sobre identidade, mas também sobre acesso. Para trabalhar, sair, viver é preciso, antes, vestir. 

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