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Elas cultivam o futuro: produtoras de alimentos aliam escala e sustentabilidade

Mulheres produzem comida saudável, cuidam da terra e do futuro, e mostram que é possível combater o aquecimento global com agroecologia e resistência

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  • Mulheres provam que é possível produzir alimentos em larga escala sem usar agrotóxicos, com sustentabilidade, justiça social e respeito à natureza;
  • Produtoras misturam saberes tradicionais com tecnologia moderna, usando desde adubo natural até drones pra cuidar das lavouras com mais autonomia;
  • Além de plantar, elas cuidam da família, da comunidade e do meio ambiente. São a base de uma economia que valoriza o cuidado e a coletividade.

A produção alimentar, nos padrões atuais, é responsável por 37% de todas as emissões de gases de efeito estufa, revela o estudo Nexo entre mudanças climáticas, sistemas alimentares e saúde humana: uma estrutura de pesquisa interdisciplinar no Sul Global. Esses gases da produção alimentar são responsáveis por aumentar o buraco na camada de ozônio, intensificando os efeitos das mudanças climáticas. 

As mulheres têm um papel central nesse cenário que impõe urgência à transição para sistemas alimentares mais sustentáveis. Isso porque apesar das desigualdades no acesso à terra, crédito e espaços de tomada de decisão na produção agrícola, elas produzem de 60% a 80% de todo alimento consumido nos países da América Latina, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação (FAO). 

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Feminismo bem informado

Elas também têm assumido a vanguarda da produção sustentável, um exemplo é a  experiência de duas produtoras do Paraná, no Sul do país, que têm mostrado que o cultivo em larga escala não é sinônimo de degradação ambiental. 

Com a produção de frutas, legumes e verduras à base de bioinsumos, com fogo e desmatamento zero, essas mulheres tocam um cultivo alinhado com um futuro no qual a garantia de comida na mesa depende do enfrentamento das mudanças climáticas. 

Morango com sabor diferente

Na contramão da realidade constatada há 12 anos, quando o morango liderava o ranking de produtos com alto teor de resíduos de agrotóxicos, a produtora Everli Bastos, de 38 anos, não usa uma gota de veneno, em Campo Largo da Roseira, distrito de São José dos Pinhais, no Paraná. Isso não a impede de produzir morangos vigorosos, suculentos e saborosos. 

Mulher em estufa de cultivo de morangos, entre fileiras cobertas por lonas plásticas. Ela veste casaco preto e calça bordô, com expressão serena, cercada por vegetação verde e árvores ao fundo. O clima é nublado e frio, com visual rural ao redor.
A agricultora Everli Bastos produz quase 8 mil kg de morango por mês sem usar uma gota de agrotóxico – Foto: Arquivo Projeto Raízes

A presença desses resíduos acima do permitido é um indício do uso descontrolado do agrotóxico no processo de produção, resultado da crença dos produtores convencionais que ainda o condicionam ao aumento da produtividade para combater fungos, ácaros e insetos. “Eu comecei com três mil pés de morango, hoje, aumentei para seis mil. Colho 70 kg de morango in natura e mais 90 kg que conservo congelado, então, são 160 kg de morango por semana sem agrotóxico”, afirma Everli. 

Por ano, Everli produz 7.680 kg de morango. A iniciativa conta com o apoio da Cooperativa de Produtores de Hortifrutigranjeiros de São José dos Pinhais (Coophort), que lhe apresentou defensivos biológicos à base de fungos e bactérias para controlar as pragas do morango.

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Biodefensivos garantem a sustentabilidade

Os chamados biodefensivos são produtos desenvolvidos à base de organismos naturais que combatem os fungos, ácaros e insetos da lavoura do morango, sem causar danos ao meio ambiente e à saúde humana. João Henrique Da Nova, engenheiro agrônomo e assessor técnico da Coophort, assegura que esses insumos foram bem aceitos pelos produtores por reduzirem o custo, ao mesmo tempo em que garantem a sustentabilidade da produção. 

A cooperativa possui uma fábrica que produz bioinsumos em larga escala para oferecer aos produtores associados. A oferta do produto e a assessoria técnica compõem um pacote de serviços que inclui ainda a compra e revenda das frutas no mercado local. Para produzir os biodefensivos, eles compram a cepa do fungo ou bactéria, cultivam em um tanque, e alimentam com ração, como farelo de arroz ou de trigo. “De um litro, conseguimos reproduzir 200 litros. O custo benefício é muito bom”, explica João Henrique.

É preciso atenção aos sinais da natureza para perceber mudanças e adotar as medidas corretas, preservando a saúde ambiental e a produção. “Eu cuido! Me dedico! Olho [os morangos] todo dia, não só no dia de colher.” Por isso, tem cliente que não abre mão do morango dela por ter um sabor diferente. “Eu gosto muito do que faço, quem faz com amor, ganha em dobro”, arremata Everli.

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Plantar mais que alimento

O trabalho em uma lavoura orgânica é manual, personalizado, por isso, toda a família de Everli participa da produção sob sua coordenação. O marido é o responsável por realizar a aplicação do produto biológico. Já os filhos, ajudam na embalagem e entrega dos morangos.

Além do controle biológico, Everli mudou a forma de plantio. Para manter os morangos distantes do chão, onde ficam mais vulneráveis aos fungos, a produtora adotou o cultivo em slabs, uma plataforma de paletes de madeira nos quais são apoiados sacos com substrato. “Os slabs protegem os morangos dos fungos e ainda evitam a dor nas costas que eu sentia quando precisava cuidar do morango no chão e ficava horas agachada”, justifica.

Montagem com três imagens mostra no centro, plantações em estufa coberta com plástico. No canto inferior esquerdo, morangos vermelhos e verdes ainda nos pés. No canto superior direito, morangos maduros em embalagem plástica transparente, prontos para venda.
Morangos são cultivados em slab, plataforma que os mantém suspensos, livres de contato com fungos – Fotos: Arquivo Projeto Raízes Risotolândia

O que Everli planta é mais que alimento. É a esperança de se ter comida boa e saudável no futuro, sem contribuir para que o planeta fique ainda mais quente. “Eu consigo pagar as contas e investir na produção”, celebra a produtora, que também consegue viajar com os filhos e dar uma boa vida para eles. Ela prova diariamente que a economia do futuro existe. 

Desigualdades de oportunidades em campo

As desigualdades de gênero que podemos ver no espaço urbano também se reproduzem no setor agrícola, segundo o Censo Agropecuário 2017. Menos de 20% das propriedades agropecuárias e de agricultura familiar do Brasil são chefiadas por mulheres, aponta o levantamento – apesar de serem maioria na produção em geral. 

Quando analisamos o total de propriedades agrárias, vemos que cerca de 90% daquelas chefiadas por mulheres estão na agricultura familiar. Marisa Singulano, professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), avalia que esse dado revela a importância da produção das mulheres para a segurança alimentar.

“A agricultura familiar é o setor que possui módulos [pedaços de terra] menores e que cumprem a função social da terra, pois produzem alimentos, e não commodities, para o consumo e para a comercialização dentro do mercado nacional”, explica Marisa. É a produção que impacta na segurança alimentar. 

Para a professora, que atua com produtoras agroecológicas, a preocupação das mulheres em produzir alimentos para o consumo está ligada à questão do trabalho do cuidado, elas incluem a produção de alimentos como mais uma forma de prover o que as pessoas da família precisam.

Mulheres negras lideram unidades de produção

Do universo de mulheres que lideram unidades de produção, as negras representam 62% contra 35% de mulheres brancas. A região Nordeste, seguida da região Norte, concentra o maior número de propriedades agrícolas chefiadas pelo público feminino como um todo. 

No entanto, são as regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste que concentram as produções agrícolas voltadas à exportação. Assim, entendemos que as mulheres atuam mais em propriedades rurais voltadas ao consumo humano e ao abastecimento do comércio local. Isso se confirma nos dados do Censo Agropecuário de 2017 que revelam a diferença do tamanho das propriedades rurais por gênero. Na região Centro-Oeste, a discrepância entre a área total de propriedades agropecuárias de homens e mulheres chega a 157 hectares, o equivalente a 112 campos de futebol. 

Se são elas que produzem mais alimentos no país, elas têm direito a mais incentivos, explica Marisa Singulano, professora da UFOP. “É importante disseminar a caderneta agroecológica, ferramenta que monitora e observa o tamanho e o destino da produção das mulheres”, destaca, acrescentando que é preciso destinar mais recursos para o Pronaf Mulher e Pronaf Agroecologia. 

Dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) apontam que quando o bolo do orçamento destinado à agricultura familiar no Brasil é cortado, as menores fatias ainda ficam com as mulheres. 

Se compararmos os R$ 236 milhões, soma dos orçamentos dos anos de 2020 a 2023 destinados ao Pronaf Mulher, com os R$ 348,1 milhões aportados no Pronaf A e C na safra 2023/2024, é nítido que o orçamento destinado para elas fica bem abaixo. O Pronaf C é uma linha de crédito comumente acessada por produtores homens. 

Trabalho manual e cuidado

Rita do Rosário, produtora do Sítio Ferreira, em Tijucas do Sul, conhecida como a capital do orgânico no Paraná, resolveu cultivar 14 hectares com 12 tipos de culturas diferentes. Com a diversificação da produção e o aumento da área de cultivo, o número e a diversidade de pragas que ela precisa controlar também é maior. Mas ela provou que é possível.

Ao longo de toda a extensão de terra, ela intercala o cultivo de variedades de legumes, hortaliças e raízes. Tem alface americana, crespa, lisa e roxa, variedades de repolho, brócolis, berinjela, inhame e mais uma diversidade de abóboras como cabotia, moranga e paulista. A produção é farta, chegando a render 100 caixas de verdura por semana e 6 toneladas de abóbora a cada ano. 

Rita do Rosário trabalha com enxada em plantação de hortaliças em terreno ondulado e fileiras organizadas. Ao fundo, vegetação nativa e montanhas sob céu claro.
Rita do Rosário opta pelo trabalho manual e pelo uso de insumos biológicos em vez de agrotóxicos e do excesso de maquinário pesado – Foto: Arquivo Pessoal

Quem vê esse volume, não imagina que a produção sequer ocupa toda extensão do terreno. Rita intercala os cultivos com período de descanso e recuperação. Funciona assim: enquanto as hortaliças estão sendo cultivadas, a outra parte do terreno descansa e recebe adubo enriquecido. Quando os legumes são colhidos, a área em recuperação passa então a ser cultivada e a que acabou de dar colheita entra em descanso. 

A produtora conta que o período mais crítico é o verão, que, no Paraná, ocorre a partir de outubro, quando as lagartas atacam, principalmente o repolho e o brócolis. Mas todas as doenças são controladas com insumos biológicos, cuidado e paciência. “Os agrotóxicos oferecem rapidez e facilidade, mas prejudicam a saúde. Os orgânicos exigem cuidado, trabalho manual, experimentação e observação”, resume Rita.

Toda a produção tem a certificação Ecovida, que verifica se foram cumpridos os requisitos de um cultivo orgânico. A colheita que sai do sítio é vendida para clientes institucionais, a exemplo do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), com o apoio da Cooperativa de Produtores Orgânicos Tijucas do Sul (Cooorgânico). 

Essa cooperativa oferece apoio técnico, comercial e institucional às 55 famílias cooperadas. Na diretoria administrativa da cooperativa, Rita integra os espaços políticos ligados ao setor de produção de alimentos e auxilia em reuniões e nas demais agendas da rotina institucional. 

Ela nos conta que acompanha o noticiário e vê o quanto a emergência climática se agrava a cada dia. “Essa preocupação [com a natureza] deveria caminhar até essas pessoas que precisam entender que não é só plantar com agrotóxicos, só pensando em colher, colher, lucrar, lucrar, sem ver que está prejudicando a natureza”, conclui.

Rita do Rosário agachada colhe raízes em plantação, ao lado de caixas cheias de tubérculos. Ao fundo, mais pessoas trabalham no campo. No detalhe, colheita de abóboras empilhadas em carroça azul.
Rita colhe o alimento da terra com o mesmo cuidado com que cultiva, alinhada com o respeito à natureza – Foto Arquivo Pessoal
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Apoio à transição sustentável

As experiências de Everli e Rita se tornaram possíveis através do projeto Raízes Ristolândia, que atua na disseminação de ações sustentáveis. O trabalho é orientado pelos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODS), implementados pela Organização das Nações Unidas (ONU). A iniciativa elegeu o ODS 2 como central: “acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável”.

Nessa direção, eles buscaram apoio do Sebrae e mapearam famílias do Paraná, com o intuito de oferecer assessoria técnica para adoção de boas práticas ambientais. De um total de 75 famílias agricultoras identificadas, 60 estão inseridas no projeto, que envolve sete cidades em um raio de 183 km, da área litorânea até à Mata Atlântica paranaense. Das 60, 15 famílias têm mulheres liderando a produção.

Naina Lopes, mentora do Raízes Risotolândia, relembra que a maior parte das famílias fazia uso de agrotóxico. Com a adoção do projeto, elas passaram a receber visitas técnicas durante meio período. A assessoria inclui análise do solo, mapeamento de desafios e dificuldades, e orientação para adoção de boas práticas de produção. Desde então, 37% das famílias parceiras eliminaram suas emissões de gás carbônico. O projeto, agora, caminha para uma segunda etapa: oferecer certificação para acesso a mercados específicos. 

Vantagens da agricultura regenerativa

Carlos Nobre, um dos maiores cientistas climáticos do planeta, considera que a agricultura regenerativa, esse modelo de produção aplicado por Everli e Rita, é uma valiosa alternativa para reduzir o impacto da produção alimentar na emergência climática. “Esse tipo de produção mantém uma área do bioma natural cercada, aumenta produção por hectare, retendo carbono, zerando o uso do fogo e o desmatamento”, esmiúça. 
Outra vantagem apontada pelo pesquisador é o potencial de liberar áreas para restauração. Ele aponta que o Brasil tem quase 3 milhões de quilômetros quadrados sendo usados pela pecuária, e 1,8 milhões pela agricultura e silvicultura. “A gente rapidamente fazendo a transição para a agricultura e pecuária regenerativa, vamos liberar pelo menos 1 milhão de quilômetros quadrados para restauração, o que absorverá gás carbônico”, conclui.

*Edição: Jane Fernandes, Joana Suarez, Nathalia Cariatti // Artes: Kath Xapi

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