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Crespas fazem seus próprios cosméticos naturais para driblar desinteresse do mercado

Na busca por uma vida mais saudável, crespas voltam às receitas de suas mães por falta de cosméticos naturais que as atendam
por Thais Folego
16 de outubro de 2018
Arte de Ione Maria

As tardes de domingo eram marcadas por um ritual na infância de Ana Carolina Cortez: sua mãe fazia uma máscara de hidratação para os cabelos crespos da filha com abacate, vitamina E e mel. Espalhava o creme na cabeça da menina, colocava uma toca e a deixava assistindo televisão enquanto a mistura fazia efeito. “Era o mesmo ritual todo domingo. Lembro que ficava escorrendo pelo meu rosto”, conta Carol. Quase 20 anos depois, o ritual retornou à sua vida na forma como cuida do cabelo, de forma mais artesanal e com ingredientes mais naturais. “Estamos revisitando coisas que nossas mães já faziam no passado.”

Ana Carolina faz parte de um movimento crescente de mulheres que, em busca de uma vida mais saudável e um consumo mais consciente, estão optando por cosméticos naturais para cuidar dos cabelos e da pele. Nessa busca, porém, elas não têm encontrado produtos específicos para cabelos crespos, assim como não encontravam cosméticos tradicionais nas prateleiras das perfumarias e supermercados até alguns anos atrás. Por isso, as crespas (como se intitulam) estão fazendo seus próprios cosméticos.

É o encontro entre dois movimentos: a busca por uma vida mais natural com o resgate da autoestima da mulher negra e dos cabelos naturais.

Leia mais: Como evitar ingredientes que podem prejudicar seu corpo e o meio-ambiente

Muitas passaram boa parte da vida alisando os fios, como Samanta Luz, publicitária e blogueira vegana, que começou a fazer progressiva ainda na adolescência. Ela lembra que a química usada no processo era tão forte que o cheiro a fazia passar mal e causava leves queimaduras em seu coro cabeludo.

“Eu comecei a pesquisar e descobrir como algumas substâncias podiam fazer mal à saúde”, conta Samanta. Na época, muitos dos produtos de alisamento continham formol, substância que é classificada como cancerígena pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e que teve seu uso proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em produtos capilares.

Há seis anos, após frequentes infecções e enxaquecas, ela iniciou uma mudança de estilo de vida que incluiu alimentação, vestuário e produtos de higiene e cosméticos. Além de ser vegana, a publicitária  produz o próprio desodorante, batom e produtos para limpeza e hidratação do cabelo e da pele.

“No meu box hoje só tem o que eu faço”, diz Ana Carolina, que também alisou o cabelo durante 10 anos. Ao fazer a transição para o cabelo natural passou a buscar produtos específicos para crespos e teve que fazer muita pesquisa e testes para ver o que funcionava melhor para o seu tipo de cabelo. Começou excluindo produtos com parabeno e sulfato, comuns em shampoos convencionais, quando conheceu e adotou a técnica low poo (também conhecida como “pouco shampoo”).

Essa busca acabou por fazê-la trocar de profissão, deixando o jornalismo para montar o salão de cabeleireira Resistência Armada, especializado em cachos e que mantém um blog sobre o cuidado com eles. Agora, ela faz o curso superior de Tecnologia em Cosméticos.

Você quer se aventurar na alquimia dos produtos naturais para os cabelos? Algumas dicas podem ajudar a entender e não errar.

Primeiro passo: entenda o seu tipo de cabelo

Existe uma classificação numérica que define os tipos de cabelos e os classifica em quatro tipos:

  • O tipo 1 é o cabelo liso.
  • O tipo 2 é o ondulado, geralmente com fios mais grossos e resistentes.
  • O tipo 3 são os cabelos anelados, com cachos mais definidos, geralmente mais finos e frágeis que os do tipo 2.
  • O tipo 4 são os cabelos crespos, que são mais finos e frágeis. Os cachos têm formato de zigue-zague e são bem apertados.

Os tipos 2, 3 e 4 possuem ainda uma subclassificação (A, B e C) conforme o tamanho dos cachos.

“Por sua conformação espiralada, o cabelo afro recebe pouca lubrificação natural do couro cabeludo. Por isso, são naturalmente ressecados e quebradiços, além de terem crescimento mais lento, merecendo cuidados especiais”, explica a dermatologista Katleen Conceição, especialista em pele negra.

Ela indica pentear os fios sempre molhados e com pentes largos e hidratá-los com frequência (o ideal é duas vezes por semana) com produtos a base de aloe vera, óleo de coco, pantenol, manteiga de karité, vitamina E e óleo de Argan. A dermatologista também recomenda evitar dormir com os cabelos molhados e prendê-los constantemente, pois favorece a queda e quebra dos fios.

Porosidade

A cabeleireira Ana Carolina diz que também é importante entender a porosidade do cabelo, que é a capacidade do fio de absorver água e nutrientes. Segundo ela, pessoas com o mesmo padrão de cachos podem preferir cremes mais oleosos ou mais aquosos porque têm cabelos com porosidade diferentes. “Por que o produto que serve para o 3B de uma pessoa não serve para o 3B de uma outra? Porque na hora de cuidar do cabelo, mais do que o padrão do cacho, o que importa é a porosidade dos fios”, explica.

Um cabelo com baixa porosidade tem escamas bastante justapostas e fechadas, o que dificulta a troca de substâncias com o ambiente. Um cabelo com porosidade média é aquele considerado “normal”, com escamas nem muito abertas nem muito fechadas, o que facilita a troca de substâncias. Já o cabelo com alta porosidade tem as escamas bem abertas e, por isso, perde substâncias com facilidade, o que o torna mais frágil e ressecado.

Mas como saber qual é a porosidade do meu cabelo? O teste é fácil, explica Ana Carolina. Pegue um fio de cabelo limpo (sem cremes), coloque em um copo de água, deixe por quatro minutos e observe. Se o fio flutuar e ficar na superfície ele tem baixa porosidade. Se ficar no meio do copo ele tem media porosidade. Se o fio afundar, a porosidade é alta. É a porosidade dos fios que vai ajudar a escolher o melhor tratamento para o seu cabelo, diz Ana Carolina.

Ela indica que cabelos com baixa porosidade sejam lavados com água morna e que a hidratação seja feita com touca térmica (o calor ajuda abrir as escamas), além de usar cremes menos gordurosos e mais aquosos para facilitar a absorção. Já o cabelo com alta porosidade deve ser lavado com água fria para ajudar a fechar as escamas e usar óleos e manteigas 100% puros para selar a hidratação do cabelo. “Os óleos criam um filme protetor ao redor dos fios, impedindo que a umidade escape”, diz.

Naturais, orgânicos, veganos

Ao desbravar o mundo dos cosméticos naturais você vai se deparar com algumas definições que são importantes de entender para fazer a escolha do que usar. A dermatologista Lilia Guadanhim, da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), explica alguma delas:

  •  Cosméticos naturais: as fórmulas devem conter 95% de ingredientes naturais e 5% de ingredientes orgânicos.
  • Cosméticos orgânicos: possuem no mínimo 95% de matérias-primas orgânicas (sem químicas, como agrotóxicos) em relação à quantidade total de matérias-primas utilizadas em sua formulação.
  • Cosméticos veganos: Não contém em sua fórmula qualquer ingrediente de origem animal, como a cera de abelha, lanolina e queratina. Além disso, não podem conter ativos testados em animais.

“O uso de cosméticos naturais segue uma tendência atual de produtos saudáveis em todos os aspectos do cotidiano. No entanto, eles não necessariamente são mais seguros”, afirma Lilia. ela explica que os produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes são sujeitos à regulamentação da Anvisa e podem ou não precisar de registro.

O mercado de produtos naturais ainda não tem regulamentação, então os selos para atestar sua qualidade são emitidos por certificadoras independentes, como a francesa Ecocert e o Instituto Biodinâmico (IBD). Está em tramitação um projeto de lei que propõe tornar competência da Anvisa a concessão de certificação de cosméticos orgânicos.

É importante ter cuidado

Por conta disso, alguns cuidados são necessários na hora de adquirir cosméticos naturais. A dermatologista Lilia diz que, de maneira geral, sabonetes e hidratantes com ingredientes naturais apresentam menos riscos, mas que filtros solares e produtos para o rosto devem ser evitados. “Evite o uso de formulações oleosas no rosto, pois elas podem causar acne e fuja de formulações com limão, que causam manchas na pele”, diz. Ela recomenda que o ideal é sempre conversar com um médico dermatologista para orientações mais específicas e  testar o cosmético numa pequena área da pele antes de usá-lo.

Ana Carolina recomenda que as pessoas que forem fazer seus próprios produtos pesquisem antes e façam cursos para aprender sobre as matérias-primas, composições e procedimentos. “Em algumas receitas há limites e concentrações de determinados componentes. Já houve casos em coloquei demais de algum e tive irritação de pele”, conta. O parâmetro da blogueira Samanta é “se posso comer, posso usar na pele”. A exceção fica por conta do limão, que pode queimar a pele sobre o sol.

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Além de não terem ainda produtos específicos, uma das razões pela qual as crespas estão fazendo seus próprios cosméticos naturais é o preço a que são vendidos. “Os produtos naturais para cabelos ainda são caros, com uma média de 40 a 60 reais um frasco de 200 ml”, diz Ana Carolina. Os produtos certificados podem ser ainda mais caros. Ela conta que isso acontece porque é um mercado ainda dominado por pequenos produtores e que carece de escala para se popularizar. “É como a alimentação natural, acaba sendo mais cara e elitista”, conclui.

Aí entra o dilema do ovo e da galinha: o mercado não tem escala por que não tem demanda? Ou não tem demanda porque não tem escala? Acostumada a receber produtos naturais para testar, a blogueira vegana Samanta diz que já questionou algumas marcas o motivo pelo qual não fazem produtos para cabelos crespos. E ouviu que não há procura por esse tipo de produto. “Ou seja, as marcas não têm interesse mesmo. Recentemente saiu um estudo mostrando a ascensão de negros às classes A e B, então há poder aquisitivo”, diz. O mesmo acontece com maquiagem. Samanta é uma negra de pele clara, então diz que não sofre tanto, mas que amigas com a pele mais escura têm bastante dificuldade para encontrar base e pó de marcas naturais.

Um dos principais motivos para a escolha de cosméticos naturais é a preocupação de que substâncias metais contidas nos produtos tradicionais possam ser potencialmente nocivas para o nosso corpo, como o parabeno e derivados de petróleo. Segundo a dermatologista Lilia Guadanhim, os parabenos são usados como conservantes em cosméticos, em concentrações que variam de 0,01% a 0,3%, mas que há segurança em concentrações de até 25%. Já os derivados de petróleo não apresentam risco à saúde quando refinados completamente, diz a médica.

Receitas para as crespas

Pedimos algumas receitas para Ana Carolina e Samanta do que elas fazem e usam em seus cabelos.

Gel de linhaça 

Serve para: substituir o gel convencional para ativar e fixar os cachos

Ingredientes:

1 colher de sopa de linhaça

1 xícara de água

Modo de fazer:

Misture a linhaça na água e leve ao fogo por cerca de cinco minutos. Esse é o tempo da água ferver e da linhaça começar a soltar uma “baba” espumosa. Você vai notar que a água engrossou e que o caldo está mais pegajoso. Não ultrapasse muito esse tempo, pois se engrossar demais será difícil extrair o gel. Coe ainda quente. Ele ainda estará um pouco líquido, mas o caldo vai engrossando assim que esfriar e vira uma “gosma” translúcida. Coloque num recipiente fechado e guarde na geladeira. O gel dura uma semana na geladeira.

Dica: Você pode acrescentar, depois de pronto, uma colher de sopa de extrato de babosa e algumas gotinhas do seu óleo vegetal favorito. Fica mara para usar, desta forma, até sem creme de pentear por baixo.

Como usar: aplique sobre o cabelo limpo e ainda úmido, com o método que você costuma usar, amassando os cachos ou com fitagem – processo em que se aplica o creme de pentear ou gel um pouco em cada mecha do cabelo e o penteia com os dedos, separando-o como se fossem fitas.

Máscara de abacate

Indicada para: hidratação

Ingredientes:

½ abacate

pasta de babosa

1 colher de sopa de óleo de coco ou de amêndoa

Modo de fazer:

Amasse o abacate com um garfo até que ele vire um creme. Misture com a pasta da folha de babosa. Por fim, acrescente o óleo de coco ou amêndoa. Misture bem até ficar com a textura parecida com a de um creme. Passe sobre o cabelo, coloque uma touca de banho e deixe agir por uma hora.

Modo de usar: fazer hidratação uma vez por semana, deixar agir nos fios por uma hora com touca de banho.

Prepare ao som de:

Fizemos uma playlist de crespas para crespas. Siga o perfil da Revista AzMina no Spotify:

 

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