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Após perder família em Brumadinho, ela se tornou ativista dos direitos humanos

Helena Taliberti criou instituto com foco nos ideais dos filhos que perdeu: defesa das mulheres e do meio ambiente
por Amanda Célio
10 de dezembro de 2019

Quando recebeu a notícia de que a barragem da mineradora Vale havia se rompido em Brumadinho, em Minas Gerais, naquele 25 de janeiro, a economista Helena Taliberti, de 62 anos, passeava pelas ruas de São Paulo. Sem entender muito bem o que estava acontecendo, voltou para casa em busca de informações de seus filhos que passavam férias na cidade mineira. 

Depois de dias de aflição, descaso de autoridades e erros em cadastros no IML (Instituto Médico Legal), foi confirmada a morte de cinco pessoas de sua família. Eles estavam hospedados na Pousada Nova Estância, que foi soterrada pela lama. O número de mortos identificados pelo rompimento da barragem da Vale foi de 259 pessoas. Mas ainda há 11 pessoas que continuam desaparecidas. 

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Prestes a completar um ano da tragédia, Helena aprende a lidar com a dor de ter perdido seus dois filhos, Camila e Luiz Taliberti, de 33 e 31 anos, sua nora Fernanda Damian, grávida de cinco meses, de 30 anos, seu ex-marido Adriano da Silva, de 61 anos, e a esposa dele, Maria Lurdes Bueno, de 58 anos. “Não tive outra escolha a não ser ativista, não tive outra escolha a não ser lutar. Transformei minha dor em amor”, disse Helena em um jantar de ativistas há algumas semanas, quando a conheci. 

Ela se juntou a familiares e amigos para criar o Instituto Camila e Luiz Taliberti com foco nos ideais dos filhos: defesa das mulheres e do meio ambiente. Sua filha Camila era advogada e ativista pelos direitos das mulheres. Ela oferecia assistência jurídica gratuita a mulheres em situação de vulnerabilidade, como vítimas de violência doméstica.

Helena Taliberti criou instituto com os ideias dos filhos vítimas de Brumadinho: defesa das mulheres e do meio ambiente (Foto: arquivo pessoal)

Hoje, no Dia Internacional dos Direitos Humanos, Helena conversou com a Revista AzMina para falar sobre a importância dessa luta e como ela ganhou outro significado após a tragédia que se abateu sobre sua família. 

Revista AzMina: Quando conheci a senhora algo me chamou muita atenção no seu discurso, que foi quando disse que depois de Brumadinho não teve outra alternativa senão se tornar ativista. Como foi iniciar um projeto num momento de tamanha dor?

Helena Taliberti: Quando uma mãe perde um filho, ela perde, de certa forma, a maior parte do sentido da vida. No meu caso, perdi dois na tragédia de Brumadinho, além da minha nora e do meu neto. Perdi minha família e, com ela, uma parte de mim também se foi. Mas a outra ainda estava aqui, com muita dor, mas também com uma necessidade impulsionada por essa dor, de lutar por justiça. No início era só o que eu pensava. Queria que todos os responsáveis por essa tragédia fossem punidos, mesmo sabendo que isso não traria minha família de volta. 

Depois de um período, percebi que, na realidade, a causa era muito maior. Então, o Instituto Camila e Luiz Taliberti foi criado em homenagem aos meus filhos e às demais 270 vítimas que morreram com o rompimento da barragem. Hoje temos a missão de fomentar ações de defesa dos direitos humanos, empoderamento de grupos vulneráveis, especialmente mulheres, e a proteção do meio ambiente frente aos impactos sobre as pessoas, fruto de ações danosas de organizações privadas ou públicas. 

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AzMina: Quais são os projetos do Instituto? 

Helena: Antes de qualquer projeto, a ideia do Instituto é não deixar que essa e outras tragédias sejam esquecidas. Queremos apoiar e financiar pesquisas sobre atividades que impactam negativamente o meio ambiente, promover mais debates e eventos e engajar organizações. O lançamento do Instituto foi na Câmara Municipal de São Paulo, em 25 de julho, quando se completaram seis meses da tragédia. Promovemos o debate “Destinos Rompidos: O Impacto das Barragens na Vida das Mulheres”. 

O segundo grande evento que promovemos foi no Itaú Cultural quando a tragédia completou nove meses, com a exibição do documentário “O Amigo do Rei”, que aborda a tragédia de Mariana, seguida do debate “Mariana: A Sirene de Brumadinho que Não Foi Ouvida”. A discussão se deu em torno da repetição de falhas que também ocorreram em Brumadinho. Não dá para separar as duas tragédias, Brumadinho foi a continuação de Mariana e há importantes pontos de contato entre elas.

Estamos com muitos projetos para 2020, que devemos anunciar no dia 25 de janeiro do próximo ano, quando se completa um ano da tragédia. Queremos ser um grande acervo que reunirá todos os registros de ocorrências de casos como Brumadinho, Mariana e outros que tiveram impacto ambiental e em comunidades, e não só os dos Brasil.

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AzMina: No lançamento do Instituto, vocês promoveram um debate só com mulheres sobre os impactos das barragens na vida das mulheres. Você poderia contar um  pouco mais sobre ele?

Helena: A ideia de reunir mulheres para falar do assunto é mostrar essas tragédias com a sensibilidade que elas pedem. Entre tantos aspectos humanos e ambientais dessas tragédias, as debatedoras nos contaram como as mulheres foram atingidas e qual a importância da atuação que tiveram e continuam tendo. Para se ter uma ideia, há muitos órfãos e mais de 200 viúvas tendo que lidar com a dor da sua perda de seus maridos e filhos e que precisam prosseguir sozinhas com a educação dos filhos, com seus trabalhos.

AzMina: A Camila era ativista dos direitos humanos e das mulheres. Numa entrevista, a senhora comentou que achava até exagerado da parte dela esse ativismo, mas com o tempo isso mudou. Como foi isso? 

Helena: Os filhos têm influência sobre os pais. No nosso caso, éramos muito próximas, o que nos dava muita liberdade para conversarmos sobre as coisas da vida, como chamávamos. Camila me convenceu de que não há saída para uma sociedade mais justa sem que os direitos de todos sejam respeitados, em sua totalidade. 

Não foi fácil esse convencimento, mas ela trabalhou arduamente para isso. O que mais me marcou em todas as nossas conversas foi um dia em que ela, pouco antes de morrer, me disse: “Mãe, eu não vou sossegar enquanto todos não tiverem as mesmas oportunidades e condições que eu tenho”. Isso foi muito forte para mim e essas palavras ainda ecoam na minha cabeça e coração. Depois do que aconteceu, as fichas caíram e as peças desse quebra-cabeça social foram se mostrando e se encaixando.

AzMina: Qual a importância dos direitos humanos para a senhora?

Helena: Todo cidadão precisa estar assegurado em seu direito de viver, de ser respeitado, de ter uma vida digna e justa. E vejo que ainda estamos longe de alcançar isso. Mas é de nossa responsabilidade, enquanto sociedade e pessoas conscientes, nos aprofundar nessa legislação, fomentar e promover debates sobre direitos humanos. Somente essa união é capaz de consolidar, na prática, a igualdade estabelecida na Constituição Federal. 

Helena Taliberti e os filhos que ela perdeu em Brumadinho
Helena Taliberti e os filhos. Foto: Arquivo pessoal

AzMina: Hoje há uma confusão sobre o que são direitos humanos e há quem acredite que seu propósito é a defesa de “bandido”. Falta entendimento sobre a importância dele na sociedade? 

Helena: As pessoas precisam se aprofundar melhor no significado de direitos humanos. Não adianta dizer que “bandido bom é bandido morto”, por exemplo, porque nos direitos humanos não se faz diferença entre um executivo e um ladrão, entre homem e mulher, entre brancos e negros, héteros e LGBTQ+. Nenhuma vida vale mais que a outra e isso precisa ser praticado.

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AzMina: A senhora disse em algumas entrevistas que transformou a dor em amor. Como foi e é esse processo?

Helena: Na verdade, a dor continua aqui. E a saudade é imensa e é de todos nós do Instituto. Não tem sido um luto normal para nenhum de nós, pois a todo momento se tem notícias de que a tragédia poderia ter sido evitada e isso aumenta muito a dor, a indignação e a incredulidade. Mas se ficarmos presos à dor e deixar que ela nos defina, não vamos a lugar nenhum. Recebi e ainda recebo muitas manifestações de carinho e apoio e isso me dá forças. Ganhei filhos, filhas, netos, netas.

AzMina: Quem são as pessoas que fazem parte do Instituto?

Helena: O Instituto é formado pelos amigos e amigas da Camila e do Luiz e nossos familiares. Nos reunimos com frequência e as decisões são tomadas de forma colegiada. Temos tido muito apoio e contribuições valiosíssimas de amigas e amigos que nos ajudaram na estruturação legal do Instituto, no planejamento, na comunicação, tudo de forma voluntária. No grupo de associados tem todas as formações. E esse trabalho com múltiplos olhares é muito rico e nos dá segurança de que estamos no caminho certo.

AzMina: Como as pessoas podem ajudar o Instituto?

Helena: Elas podem entrar em contato conosco para nos dizer quais suas habilidades e como podemos interagir. Temos nossa página do Facebook, Instagram e nosso site irá ao ar em breve e faremos ampla divulgação.

AzMina: Qual recado a senhora deixa para as mulheres que lutam pelos direitos humanos e pelos direitos das mulheres, como a Camila lutava?

Helena: Meu recado é que não desistam nunca. Se forem vítimas de violência, que procurem ajuda para sair dessa situação. Além da Camila, minha mãe era uma feminista nata, e ela sempre dizia que mulher pode fazer o que quiser, sair como quiser, falar e pensar o que quiser – e ninguém pode tirar esse direito de nós.

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