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31 de março de 2020

Violência contra mulher: mais uma epidemia que Bolsonaro minimiza

O presidente privatiza um problema social: não é a falta de trabalho que ocasiona a violência, é o machismo

“Tem mulher apanhando em casa. Por que isso? Em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão”. A fala é do presidente Jair Bolsonaro. Mais uma vez, ele usa um dado real para contar uma mentira e diminuir a gravidade que é o problema da violência contra a mulher no Brasil. 

Sim, desde que a crise do coronavírus começou tem sido destacado pelos movimentos feministas e organizações internacionais de defesa dos direitos humanos (como a ONU e a Human Rights Watch) que o isolamento social para evitar a propagação do coronavírus pode levar a um aumento do número de casos de agressões de mulheres.

A China já registrou três vezes mais denúncias, os Estados Unidos já apontaram para esse aumento e, na semana passada, o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos também mostrou um crescimento no número de ligações para o 180, o disque denúncia nacional. Mas isso não significa que o fim do isolamento seja a solução para este problema. Muito pelo contrário. 

O presidente privatiza um problema social: não é a falta de pão, a falta de renda, a falta de trabalho que ocasiona a violência. O real gerador da violência de gênero é o machismo, é este elemento histórico que faz com que muitas mulheres – que vivem num ambiente com ou sem coronavírus – saibam o que é ter casa, mas nunca saibam o que é ter um lar, porque é este o ambiente onde elas mais são atacadas. 

É preciso que o contexto fique claro: o Brasil é o 5° país no mundo que mais mata mulheres vítimas de violência doméstica; um país onde se acredita que mulheres merecem morrer quando não cumprem com os seus papéis sociais de gênero. Se estamos diante do combate de uma pandemia onde o isolamento é a principal forma de enfrentá-la, isso significa que, como órgão de Estado, o governo brasileiro precisa trabalhar no fortalecimento de políticas públicas que atendam essas vítimas, como os canais de denúncia e as redes de atendimento à mulher vítima de violência.

“Em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão. Como é que acaba com isso? Tem que trabalhar, meu Deus do céu. É crime trabalhar?”. A frase significa praticamente um destino de morte para as mulheres e o não julgamento para os agressores. É como se a origem das brigas fosse apenas a disputa por alimento e que, quanto a isso, só basta ao governo não meter a colher. É espantoso.

A frase também é um destino de morte para milhares de brasileiras que têm que continuar saindo para trabalhar, como enfermeiras e trabalhadoras autônomas, e que estarão mais expostas à pandemia porque o presidente tem sido irresponsável ao estimular o fim do isolamento social como medida preventiva a um colapso do sistema de saúde.  

Uma vez, uma colega de trabalho me contou que ouviu a seguinte fala de um agressor, em uma delegacia: “mas eu trabalhei o dia todo e não posso nem bater na minha mulher?”. Pois é presidente, será que então, sair de casa e trabalhar o dia todo também faz com que os homens percam as estribeiras? Não, a culpa é do machismo e a melhor forma de combatê-lo é por meio de uma educação pela igualdade. 

Nesse momento em que as mulheres estão distantes de suas redes de apoio, é preciso mais do que nunca fortalecer o atendimento a elas. Se você vive em um relacionamento abusivo, violento e não se sente segura em casa, você pode:

– Ligar 180, o Disque Denúncia;
– Ligar 190, para a Polícia
Baixar o aplicativo PenhaS: nem toda mulher quer iniciar um processo contra o agressor, então, mulheres que precisam de ajuda ou aquelas que querem ajudar vítimas de violência, baixem o PenhaS, app de combate à violência contra a mulher da Revista AzMina, para ter uma forma segura de contatar uma rede de apoio

Marília Taufic é feminista, jornalista e idealizadora do PenhaS, um projeto que pretende usar a tecnologia como forma de defender mulheres vítimas de violência.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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