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Mulher parda clara de cabelos escuros cacheados na altura dos ombros, segurando um microfone.
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4 de agosto de 2025

98% das unidades prisionais do país não contam com ginecologistas

Dados de 2024 mostram que gestão ineficaz de equipes nas prisões fere direitos sexuais e reprodutivos das mulheres privadas de liberdade

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arte gráfica de incentivo à doação para o jornalismo feminista. À esquerda, há um QR Code. À direita, sobre um fundo em tons de azul claro com detalhes florais coloridos, está o texto:

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Colagem digital com fundo rosa mostra uma mulher  dentro de uma gaiola verde. Mãos com luvas médicas manipulam a estrutura: uma segura a parte superior da gaiola e a outra segura um espéculo ginecológico, apontado para a mulher.

Melhorar a gestão de pessoas no sistema prisional brasileiro é um passo essencial para garantir direitos básicos da população privada de liberdade — especialmente quando se trata da saúde das mulheres encarceradas. Em um cenário marcado por superlotação e carência de recursos, a forma como o Estado organiza, seleciona e acompanha seus profissionais faz toda a diferença na qualidade dos serviços prestados. E isso fica evidente quando se observa o número de profissionais de saúde nas prisões do país.

Dados de 2024 mostram que 98,34% das unidades prisionais do país não contam com ginecologistas, segundo estudo da República.org. Das 127 unidades destinadas exclusivamente a mulheres, 113 não têm esse atendimento especializado. O mesmo ocorre em 86 das 89 unidades mistas. A escassez não é apenas reflexo de falta de recursos, mas também da maneira como o Estado gere sua força de trabalho.

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O sistema prisional brasileiro contava com um total de 9.385 servidores da área da saúde atuando nas celas físicas, conforme o estudo. A maioria era formada por profissionais da enfermagem, enquanto os médicos representavam 18,7% da equipe de saúde (1.751). O número inclui clínicos gerais, psiquiatras, ginecologistas e outras especialidades.

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Descaso com saúde ginecológica

O dado mais preocupante? Apenas 24 desses profissionais eram ginecologistas. O que escancara o descaso com a saúde ginecológica das mulheres presas, ferindo direitos garantidos por lei.

São 29.137 mulheres com pouca ou nenhuma garantia de atendimento adequado às suas necessidades específicas de saúde feminina. Desde 2016, os dados do SENAPPEN (Secretaria Nacional de Políticas Penais) mostram que o número de ginecologistas no sistema nunca ultrapassou 40. O pico foi em 2021, com 39 ginecologistas para mais de 30 mil mulheres presas.

A Lei de Execução Penal (LEP), em vigor desde 1984, já previa a assistência à saúde como dever do Estado. Em 2009, foi acrescentado o direito ao acompanhamento médico da mulher presa no pré-natal, pós-parto e no cuidado com o recém-nascido. Quase 15 anos depois, a realidade segue muito distante do previsto em lei.

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Desigualdades regionais afetam acessos

O caso dos ginecologistas ilustra como a gestão de pessoas no setor público vai além da simples alocação de profissionais. Ela molda diretamente o acesso aos serviços e sua qualidade — sobretudo em contextos vulneráveis como o sistema prisional. Garantir dignidade à população privada de liberdade passa, necessariamente, por repensar a forma como esses profissionais são selecionados, capacitados, distribuídos e valorizados.

O quadro também é preocupante quando se olha para a distribuição de médicos de todas as especialidades por estados, exceto psiquiatras. Há uma expressiva desigualdade entre os entes, especialmente quando se considera a taxa de profissionais por mil pessoas privadas de liberdade. 

A Região Sudeste concentra os três estados com as maiores populações carcerárias do país: São Paulo (205.984), Minas Gerais (66.282) e Rio de Janeiro (46.115), e, apesar de também liderar em números absolutos de médicos atuando nas unidades prisionais, nenhum desses estados ultrapassa 200 profissionais. O caso de São Paulo é o mais emblemático, o estado tem uma taxa de 0,84 médicos por mil presos, com apenas 173 médicos registrados no sistema prisional, ficando abaixo da taxa média nacional de 2,11.

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Planejamento adequado é urgente

É fundamental dimensionar corretamente o número de profissionais necessários para atender a população carcerária. Isso inclui mapear quais atividades precisam ser realizadas, qual o tempo médio de atendimento e quais especialidades são mais demandadas. Também é preciso prever mecanismos de reposição em caso de licenças ou ausências.

Para atuar no sistema prisional, o processo seletivo precisa envolver não apenas conhecimentos técnicos, mas também o compromisso com os direitos humanos. Ter uma força de trabalho que reflita a diversidade de gênero e raça da população atendida favorece a construção de políticas públicas mais justas e efetivas. Profissionais que compartilham referências, vivências e experiências com os públicos atendidos — inclusive em funções de liderança — tendem a ter maior sensibilidade para reconhecer desigualdades, construir vínculos e propor soluções mais eficazes. 

Outro ponto-chave é o desenvolvimento contínuo dos servidores. Ter planos de desenvolvimento individual, alinhados às metas institucionais e às atividades desempenhadas, ajuda a garantir não apenas motivação, mas também qualidade na prestação de serviços. Gestão de pessoas não pode ser tratada como burocracia: é ferramenta estratégica para transformar a realidade.

Saúde prisional é instrumento de cidadania

A saúde prisional deve ser pensada como instrumento de cidadania — e não como um apêndice da política criminal. Quando a gestão de pessoas é negligenciada, perpetuam-se desigualdades e violações de direitos. 

Garantir a dignidade da mulher presa é reconhecer que a privação de liberdade não suspende seus direitos fundamentais. Mesmo em contextos marcados por vulnerabilidade extrema, como o sistema prisional, essas mulheres necessitam ter acesso a cuidados básicos de saúde, higiene, escuta qualificada e proteção contra violências. 

Muitas chegam ao cárcere já atravessadas por trajetórias de abandono, pobreza, violência doméstica e exclusão social. Ignorar o cuidado ginecológico, a saúde menstrual, o acompanhamento na maternidade ou o acesso à educação e ao afeto é perpetuar ciclos de desumanização. Tratar com dignidade é, acima de tudo, afirmar que o Estado deve ser capaz de proteger e cuidar, mesmo quando pune.

* Publicação feita em parceria com a República.org

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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