Foto: Paula Fróes

Em fevereiro de 2016 aconteceu o primeiro casamento no acampamento das cinco irmãs viúvas. Juliana, filha de Delir Fernandes, e seu primo Alexandre, o caçula de Maria Paula, casaram em um fim de semana de sol, ambos com 15 anos. Luci conta que quando as famílias têm dinheiro, geralmente, os pais dos noivos pagam R$ 60 mil, cada, para a realização da festa, além de presentear o casal com uma caminhonete. No caso de Juliana e Alexandre, os familiares tinham poucos recursos financeiros e, por isso, o casal não pôde desfrutar de todos esses presentes. No entanto, a comemoração, que durou três dias consecutivos, trouxe música e dança ao acampamento.

A noiva, branquinha, de olhos castanhos e cabelos compridos usava um vestido longo, branco, com rendas e fitas brilhantes, feito pela tia Lindacir. Na cabeça, uma coroa de crochê e pingentes de medalhas douradas, perfeitamente encaixada, servia tanto como um acessório de beleza, quanto como uma prova de que ainda era virgem. Na tradição Calon, ao contrário dos homens, as mulheres ciganas apenas podem casar caso nunca tenham tido relações sexuais. Antes da celebração, um teste é realizado: se a coroa cair ou ficar frouxa, significa que a noiva não é virgem. O mesmo adereço é colocado também na cabeça de uma cigana não virgem, para que uma comparação seja feita como prova.

Após o primeiro ato sexual, a noiva ainda deve mostrar aos familiares  a roupa manchada de sangue. Caso contrário, o casamento pode ser cancelado.

O matrimônio entre integrantes da mesma família é comum para esse grupo de ciganos. Segundo Delir, é mais fácil por serem pessoas conhecidas. A única regra é que “primo-irmãos” não podem casar, ou seja, quando os pais e as mães dos noivos também são irmãos. Antigamente não se podia decidir com quem viver. Em caso de fuga, havia perseguição e morte. Hoje, ainda existem casamentos arranjados – onde a noiva e o noivo são prometidos uns aos outros, pelos pais, quando crianças – mas não são obrigatórios. Os filhos e filhas podem escolher suas companheiras ou companheiros, respectivamente, mas apenas casam com a permissão dos pais.

Quando viúvas, as mulheres só podem usar saias e blusas. Na cultura Calon, a maquiagem, os acessórios e vestidos apenas são usados enquanto as ciganas estiverem casadas.

– É uma tradição, né. Não tem marido, por que por a roupa assim? Pra ficar bonita? Se vestir roupa linda tem que tá com o marido. O marido morreu, já não veste mais. Tem que considerar o marido debaixo da terra. Mas é difícil pra acostumar – explica Delir.

Para as ciganas, depois de perderem os maridos elas não podem mais casar, em respeito ao falecido e à comunidade. Em caso de separação, um segundo casamento é permitido, mas apenas se o homem da relação tiver casado primeiro.

– Se ele casou nós também pode casar. Mas se ele tiver separado ainda, não pode casar. Daí dá morte. Eles seguem a gente pra matar, porque é que nem passar vergonha. Tem que respeitar a lei. Se ele casar primeiro daí eu posso achar qualquer um pra mim casar – relata Lindacir.

As irmãs falam que, independente das regras, elas já não têm vontade de se casar novamente.

– Não adianta, é só trouxa que vem em cima da gente. Se pega um marido bão, é bom, mas às vezes pega bêbado, só pra judiar da família da gente? Não, Deus o livre! Hoje em dia só tem o que não presta. Se for pra sofrer eu sofro sozinha – justifica Luci.

Há outra tradição específica do grupo étnico das irmãs Fernandes que é a queima da barraca e de todos os pertences após a morte do companheiro. As Calins garantem que nada do que foi usado pelo esposo pode ser usufruído pelas viúvas depois de sua morte. O que não vira cinza é jogado fora ou doado. Foi o que aconteceu com Maria Paula, após perder o segundo marido. Atualmente, ela dorme no chão, e divide a lona com a irmã Lindacir, pois ainda não conseguiu construir seu próprio lar. Luci também passou pela mesma situação e, até hoje, divide a tenda com Vilma. Ela e o caçula Guguinha dormem juntos. Seu filho mais velho, de 15 anos, casou e atualmente vive em São Paulo.

Culturalmente, as Calins estão aptas a casar após a primeira menstruação. Desde pequenas, elas são preparadas para o momento do casamento.

Por este motivo, quando conseguem ter acesso às escolas, elas costumam encerrar os estudos assim que entram na vida conjugal, para poderem se dedicar mais ao marido, filhos e organização das barracas.

Depois de casados, Juliana e Alexandre passam o dia desenhando e pintando livros de colorir – é o que mais gostam de fazer.

O rapaz, assim como os outros jovens casados, já realizou alguns serviços como auxiliar de pedreiro nas obras da região, mas não possui emprego fixo. A menina não trabalha fora do acampamento e tampouco almeja fazer faculdade ou sair de perto da família. Ambos gostariam de ter filhos, mas avaliam que na atual conjuntura não seria prudente, pois não teriam dinheiro para sustentá-los.

Milton Zanotto, diretor de Legislação e Assuntos Jurídicos do Sinpronorte, que já teve contato com muitos grupos ciganos durante a juventude – ao viajar como seminarista pelo Brasil -, argumenta que a cultura dos Povos Romani é machista e, na sua opinião, deve ser superada, mas trabalhada com respeito. Nesse contexto, as viúvas são as que mais sofrem.

– Não dá pra dizer que a viúva é marginalizada, porque ela acompanha o grupo, mas ela está sempre à margem. O viúvo, o “bato”, que seria o homem, tem todas as regalias do grupo, porque é visto como o sábio, experiente, que conhece. Então tudo o que se faz se consulta a ele. Enquanto a viúva não, ela é mulher. Por exemplo, eu era o cara que transportava as coisas das viúvas, porque ninguém queria, ninguém se interessava. Então eu, quando tinha condições, ajudava a levar. Só que também era um problema, porque teve um momento em que o grupo começou a me olhar estranho, porque eu comecei a ajudar a viúva. A mulher que eu falo era uma velhinha, ela não tinha força pra buscar uma lenha no mato. Então eu ia ajudar, mas isso não era bem visto. Ela também não era bem vista. Então falavam, “deixa ela se virar!”. Isso acontecia em alguns grupos que eu fui. Em outros, a viúva era tratada a pão de ló. Mas era diferente, não dá pra aplicar a mesma realidade a todas.

O sindicalista também fala que a situação das mulheres separadas é ainda pior, pois são vistas como prostitutas, uma vez que “se largaram os maridos, é porque não prestam”. Mas ele sublinha que os motivos verdadeiros são outros, como a violência doméstica.

– Acontece em tudo quanto é lugar, mas no caso deles é mais complicado, porque é algo velado, fica somente entre as lonas. Hoje, se a mulher passa por um processo de violência, você tem como denunciar. Embora muitas mulheres ainda relutem em expor isso. Mas pra elas é muito complicado, porque não é bom falar que você é separada, é vergonhoso.

A submissão aos homens também reflete na segurança, ou insegurança, da área onde acampam. Quando são casadas, os companheiros são os chefes e lideram o acampamento. Então ao decidirem o local onde vão ficar, um “teatro” é realizado pelos homens com o intuito de demarcar território e avisar aos “gadjons”, os não-ciganos, que aquele lugar tem dono e não deve ser invadido.

– Em geral, faz-se um movimento teatral de tiro para cima, pra demonstrar que o espaço é deles e que ninguém entra. Mas esse tipo de teatro tem hora, início, meio e fim, para que as pessoas vejam e para dizer ao gadjon, “olha, fica no teu lugar”. Eles fazem entre eles. Mas aqui esse elemento não existe mais. Elas não são violentas. O dia que eu cheguei aqui, meu Deus, eu não sabia onde encontrar resistência. Pra mim, entrar aqui e não encontrar resistência é horrível, porque significa que “estamos a mercê”. E isso sempre foi um elemento de proteção, porque esse teatro é feito para dar um recado a alguém. Mas aqui infelizmente não existe esse teatro, então não há um respeito e acaba acontecendo o que se passa aqui: o pessoal está entrando, está roubando, e a insegurança é visível – relembra Milton.

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