Crédito Nubia Abe

Pajubá tem sido como um processo de gestação, uma gestação que se iniciou há muito tempo. Desde que comecei a perceber este corpo e suas complexidades, passando pelo momento de concepção das letras e enfim chegando no momento presente, culminando na materialização do álbum. Lembro que de início veio um jorro de composição, como se algo estivesse entalado na minha garganta ou no meu corpo inteiro.

E então eu começo a perceber o que significa produzir música. Eu nunca tinha pensado nessa possibilidade, aquele era um processo completamente novo pra mim e de certa forma ainda é. Mas é naquele momento que eu entendo que fazer música é um processo que vai muito além da composição. Produzir música é como construir pontes. Estabelecer laços. Criar vínculos. Formar redes. Fazer parcerias. E isso se dá não somente na relação entre quem a produz, mas também, fundamentalmente, entre quem produz e quem consome.

A partir daí é quando eu começo a fazer minhas parcerias para tornar possível que as músicas aconteçam.  Nisso se dá meu encontro com a rapper Luana Hansen, que cede seu tempo e seu estúdio improvisado na sua quebrada. É com ela que nasce “Enviadescer”.  Depois, me junto à galera da minha quebrada, Fazenda da Juta, na ZL [Zona Leste] de São Paulo e produzimos também o clipe desta canção.

Eu sempre tive muita vontade de compartilhar tudo aquilo que eu tava fazendo, e por isso, toda e qualquer oportunidade que eu tivesse de mostrar, eu mostrava. Sem pretensão alguma cantava os versos que vinha compondo. Foi assim também que pude fazer meu primeiro show, no Festival Periferia Trans. E nessas a rede foi se consolidando.

E escrevendo este texto eu percebo que na verdade eu sempre tive muita sorte. A sorte de ter pessoas que também estavam muito afim de fazer tudo isso acontecer junto comigo. E isso se deu em todos os processos, de cada música, cada vídeo, cada show, até hoje.

Lembrando que Pajubá só está acontecendo justamente porque essa rede vem se estabelecendo de tal forma que foi possível inclusive dividir os custos dessa produção entre todas nós. Cada uma dessas pessoas que contribuiu com o álbum também é responsável por ele. Ou seja, todas nós dividimos aqui essa gestação compartilhada. Cada uma da sua parte, como pôde. E logo menos Pajubá vem ao mundo. Vocês não imaginam o quanto eu estou ansiosa!

Já estou sentindo as primeiras contrações. Este último mês foi o momento de gravação das vozes, produção de beats, de fazer as fotos que vão compor o álbum, de fazer as recompensas, mixar, masterizar e tudo mais. E eu tentei me manter o mais próxima possível de todos esses processos. E olha, tudo isso é muuuuito trabalho! A mixagem foi o processo mais enlouquecedor e ao mesmo tempo prazeroso disso tudo. Onde as músicas foram ganhando cada vez mais cor e espaço. Na verdade todo esse trabalho tem sido muito recompensador. Principalmente agora, com tudo tão perto, ganhando cada vez mais forma. Como se eu estivesse vendo os ultra-sons do nosso bebê. E o mais interessante é que ele é seu próprio sexo, seu próprio corpo. Algo totalmente novo pra mim, onde ainda me sinto completamente surpresa.

Foi um grande desafio, por diversas vezes pensei que foi loucura demais assumir essa gravidez, um grande risco.

Mas tudo sempre foi muito arriscado, agora não seria diferente. E dessa vez quem esteve e está comigo dividindo não só esse risco mas também a vontade de ver essa criança nascer foram a BadSista e o Sants, que vem dividindo a direção e produção musical do disco. Lógico que tem muitos outros nomes envolvidos neste álbum, mas vou guardar algumas surpresinhas pra depois.

Só posso dizer que não vejo a hora de pegar essa criança no colo, ouvir cada um de seus sons, e dividir com todas vocês todo o trabalho e prazer que tivemos em sua criação. Pajubá é grito, é vírus, é filhx, é antídoto. Pajubá é nossx! Que venhaaaa!

 

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* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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