Foto: Flickr/Lucy Maude Ellis

Quem senta hoje no Divã é a Ana.

“A imagem clássica do estupro parece ser aquela cena de terror: você está caminhando na rua, é puxada para um matagal por um homem desconhecido, com uma faca ou arma em mãos. Grita, chora, pede ajuda, mas nada consegue fazer, até ser abandonada, com ou sem vida, no mesmo local onde foi violentada.

É isso que os noticiários mostram, é isso que parece ser a cara do estupro para a maioria das mulheres. Mas a verdade é que o estupro é muitas vezes mais silencioso. Coloque a mão no seu passado por alguns minutos e tente buscar na memória as experiências sexuais, desde a primeira transa até o último relacionamento. Você pode dizer que nunca foi estuprada? Que nunca sofreu uma violação silenciosa?

Eu, infelizmente, descobri que sim, já fui vítima mais de uma vez, e por muito tempo não me dei conta disto.

Sofri calada e achei que, infelizmente, era tudo normal. ‘Será que tenho o direito de recusar?’, eu vivia me perguntando.

Houve caras que me convenceram a ir até a casa deles para um almoço, um jantar, um filme durante a tarde. Lá pelas tantas os toques começam, uma mão retirada do peito, outra retirada de dentro da calcinha. Não quero! ‘Ué? Como assim? Você veio até aqui, é por que quer!’.

Escapei de poucas e boas, mas não me esqueço de dois episódios em que considero que, de fato, fui estuprada. Ele morava em outro estado e estava me visitando. Beijinho aqui, beijinho lá, até que rolou a ideia de ir ao cinema. ‘Vamos ao cinema? Claro! Mas primeiro, vamos passar rapidinho no meu hotel, podemos aproveitar e escolher o filme de lá, do notebook’.

Eu fui, realmente pensei que era isso, ainda ingênua nos meus 19 anos e, principalmente, crente de que tinha o poder de escolha sobre o meu corpo. Ao chegar lá, ele logo iniciou os amassos, que foram ficando intensos, e eu disse. ‘Não. Vamos escolher o filme, viemos aqui para isso’.

Um ‘não’ que não foi aceito, que foi repetido por diversas vezes e ignorado. Depois de vários minutos de embate, eu simplesmente pensei: ‘Melhor deixar, vai acabar rápido’.

E então ele colocou o membro em mim. Poucos segundos depois: ‘posso gozar?’, perguntou ele. ‘Sim’, eu disse, me sentindo aliviada porque iria acabar.

Claro que não fomos ao cinema depois disso, e nunca mais nos vimos.

Outro caso que ficou aceso na minha memória foi de um amigo estrangeiro, dez anos mais velho do que eu e casado. Éramos amigos de verdade, nada tinha rolado, nem uma paquera! Até que, em uma noite de festas e bares na cidade, acabei bebendo além da conta. Fiquei mal, vomitei e ele me ajudou, me colocou num táxi, disse ao motorista para nos deixar em um motel. Eu estava bêbada e confusa, mas lembro de pensar: ‘Motel? Acho que simplesmente não tem um lugar melhor nessa hora. Eu vou dormir e tudo vai passar’.

Chegamos lá e desta noite me recordo de pouca coisa. Lembro-me de tomar um banho cambaleando e alagar o banheiro ao tentar encher a banheira. Também me recordo de deitar na cama enrolada em uma toalha, já que a minha roupa ficou molhada. Eu só queria dormir, meu corpo doía, me sentia mal.

Mas enquanto estava lá, fragilizada na cama, impotente e ainda sob o efeito do álcool, simplesmente senti uma boca na minha, uma mão no meu seio.

E tudo aconteceu, sem o meu consentimento e sem nenhuma capacidade de dizer não, afinal eu estava lá, em um quarto de motel.

Então, pergunto: quantas vezes você foi estuprada? Quantas vezes você foi derrotada por investidas insistentes, deixou a coisa acontecer simplesmente porque era o jeito mais fácil de se ver livre? Quantas vezes a sua vontade não foi respeitada? Se pudesse voltar no tempo, apagaria quantos caras da sua história de vida?

O estupro nem sempre envolve violência e ameaças e nem sempre é praticado por pessoas desconhecidas. O estupro pode partir da pessoa que você ama e divide a vida, de um ex-namorado que não aceitou bem o término, de um amigo que acha que pode passar dos limites em algum momento conveniente para ele, quando o marido não sabe ouvir um ‘não estou a fim’.

De certa forma, qualquer homem que se recusa a ouvir um não, que age com insistência, que não respeita quando a companheira não está a fim ou que se aproveita do abuso de álcool é um estuprador. Quantos desses já passaram ou ainda estão presentes na sua vida?”

 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.


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