De Nova Déli


O artista indiano Sujatro Ghosh fotografou mulheres com máscaras de vacas para questionar se os animais, sagrados na Índia, estão mais seguras do que as mulheres do país

Você está em um café sozinha. Pede uma bebida e os dois homens da mesa ao lado puxam um papo com essa desculpa. Eles são simpáticos, educados e parecem genuinamente interessados em conversar. Meia hora é suficiente para que o real motivo da conversa apareça. Obama e seu amigo me contaram, sem constrangimentos, que estavam procurando “duas garotas brancas” para colocar nas garupas de suas motos e olhar as montanhas de Rishikesh, ou ir a uma praia do rio Ganges e tentar “fazer alguma coisa”.

Já imagino vocês ainda do outro lado, preocupados com minha segurança e me pedindo pra tomar cuidado. Agradeço, mas prefiro que você avise aos homens que sexo não é a única maneira de se relacionar com uma mulher.

E não precisa vir até a Índia pra fazer isso.

Minas, quantas vezes vocês já deixaram de conhecer gente nova por acharem que o único interesse do outro era sexo?

Caras, quantas histórias e pessoas incríveis vocês já deixaram passar porque vocês olham pra nossa cara e só enxergam uma buceta?

Estou há cinco meses morando em Nova Delhi. Fiz alguns amigos e amigas brasileiros, conheci poucos indianos ou indianas e percebi que precisava fazer um esforço para sair da minha bolha. Então peguei o tapetinho de yoga, a câmera fotográfica e fui pra Rishikesh.

Quando o verão chega na Índia, Rishikesh recebe inúmeros indianos procurando as águas geladas do rio Ganges, que derretem dos himalaias e chegam relativamente limpas à cidade. Já os turistas estrangeiros chegam procurando yoga, espiritualidade e o isolamento dos ashrams, os retiros de yoga ou meditação famosos por aqui.

Depois da yoga, minha programação no retiro era livre e fui passear pela cidade. Foi quando encontrei Obama e seu amor por mulheres brancas. Pra tentar me explicar sua preferência, ele disse que se fosse conversar com uma indiana assim como fez comigo, ela ficaria bastante desconfiada. Obama, mulheres brancas, amarelas, negras e indianas ficariam desconfiadas com essa sua conversa. Tantas vezes, no Brasil ou na Índia, mulheres são tratadas como um pedaço de carne. Mesmo me conhecendo há apenas alguns minutos, Obama já parecia convencido de que carne branca é mais fácil de comer.

Não são raros os relatos de turistas que sofreram assédio na Índia. Uma regata, não estar acompanhada por um homem ou simplesmente estar em um local público podem ser usados como desculpa para olhares ostensivos, cantadas e até apalpadas. Mas o país, obviamente, não é o único onde as mulheres não se sentem seguras nas ruas.

Segundo pesquisa da ONG britânica Action Aid, 73% das mulheres indianas relataram ter sofrido algum assédio ou violência no mês anterior à pesquisa, que é de novembro de 2016. No Brasil, esse número é ainda pior, 87% das mulheres entrevistadas. No Reino Unido, a porcentagem de mulheres que sofreu assédio ou alguma forma de violência ficou em 57%.

A pesquisa também afirma que a cada dez mulheres indianas, oito tomam precauções diárias para evitar assédio ou se sentirem mais seguras. Atitudes como evitar áreas escuras ou parques (35%); mudar sua rota (36%), até o uso de dispositivos como spray de pimenta ou apitos (18%).

Aqui na Índia, as minhas precauções são evitar táxi sozinha à noite, usar o vagão feminino do metrô e, em certos lugares, os olhares insistentes tornam tão desconfortável usar um decote ou roupa curta que eu prefiro me cobrir a tornar cada caminhada uma luta.

No Brasil, por muito tempo eu evitei amigos homens, recusei conversas com desconhecidos e deixei de sair na hora e no lugar “errado” para não passar a impressão “errada”. E agora eu me pergunto: quantos caras legais e histórias interessantes eu deixei de ouvir e viver porque eu tive medo?

Na Índia, no Brasil e em quase qualquer lugar do mundo, ser mulher envolve pesar (às vezes de maneira inconsciente) nossa vontade de liberdade e nosso medo do assédio ou violência. A luta por um mundo em que homens e mulheres sejam reconhecidos como seres humanos e não como objetos é coletiva. Mas enquanto a utopia não chega, cada uma de nós vai buscar o seu equilíbrio para estar no mundo que temos hoje.

Eu decidi que, sempre que possível, vou continuar viajando sem companhia masculina, frequentando cafés sozinha e usando as minhas roupas. E, se me der vontade, vou conversar com estranhos. Quando o próximo Obama vier, e sinto que ele não demorará muito a chegar, eu me levanto, pago meu café e sigo em frente. Quem sabe da próxima eu até ensino uma ou duas coisinhas pra ele sobre feminismo e preconceito?

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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