Quem senta no divã de hoje é nossa editora-chefe Helena Bertho. 

“Como assim? Feminista com vergonha do corpo?”. Foi a frase que ouvi outro dia quando censurei a publicação nas redes de fotos do meu corpinho na praia. Foi também o momento em que alguém deu voz a algo que vivo disfarçando (até pra mim mesma) com medo de que meu alvará de feminista seja cassado: mesmo com o feminismo sendo central na minha vida, mesmo estudando e aprendendo horrores com as mulheres desse mundo, mesmo escrevendo muito sobre aprender a amar o próprio corpo e se aceitar, eu não consigo lidar com o meu próprio corpo.

Aprendi muito sobre gordofobia. Aprendi muito sobre como os padrões de beleza servem para nos controlar, manter preocupadas com coisas desimportantes e perder o foco em outras áreas como carreira ou política, sobre como esse controle todo tem um belo dedo do mercado e um grande valor de consumo. Aprendi que nossa insegurança vende, que padrões de beleza são construções sociais, aprendi horrores. Sei muito na teoria, mas na prática. Ah! Como é difícil.

Se no Facebook eu publico o meme dizendo que a revolução é amar seu próprio corpo, em casa eu passo um tempão na frente do espelho levantando meus peitos e imaginando como eles ficariam belíssimos uns 10 cm para cima e uns dois números menores.

Se eu digo pras amigas que elas são lindas como são (e realmente as acho lindas, vejam só), não consigo achar bonita a gordurinha que dobra sobre a minha calça ou a ausência de um traseiro que faça volume na parte de trás do meu ser. Se eu sei muito bem que não sou gorda (e até aprendi com textos como esse, que ficar falando que sou gorda na verdade é algo bem zuado), mesmo assim sinto culpa a cada chocolate consumido e vivo com vergonha da minha barriga. Se tenho como base na vida hoje em dia que a competição entre mulheres não é legal, fico olhando as migas de biquíni e invejando seus corpos loucamente.

Imagine o quanto não me sinto hipócrita.

Eu queria, mesmo, do fundo do meu coração, era começar a colocar em prática toda a teoria que aprendi sobre os padrões estéticos inatingíveis impostos para nós mulheres e conseguir aceitar que meu corpo é real e jamais será como o da capa da revista – e que eu posso ser bonita assim. Mais ainda: queria conseguir o poder e a sabedoria de aceitar que ser bonita é só mais uma característica que eu posso ter ou não, e que tudo bem, muitas outras características importam. Que ser feia é ok.

Mas não consigo. Aprendi a não tolerar comentário machista, a reconhecer as pequenas misoginias do dia a dia, a respeitar e admirar outras mulheres, a não competir por homem, a não passar a mão na cabeça de preconceito, a encarar meus próprios preconceitos, a dedicar uma porção considerável do meu tempo a difundir informação sobre desigualdade de gênero… Mas não aprendi a aceitar o que meu corpo é.

O máximo que consegui foi desapegar um pouco dessa questão, tirar ela do primeiro plano da minha vida – lugar que ocupou por muito tempo, a ponto de me levar a fazer uma plástica aos 15 – para abrir espaço para outras prioridades.

Antes eu não passava um dia sem pensar que devia fazer dieta. Hoje chego a passar meses sem lembrar de me pesar. Mas de repente a nóia volta e eu me vejo odiando meu corpo, me achando horrenda e indesejável. Ao menos, hoje isso não se torna mais o maior problema da minha vida. Com o feminismo, consegui ao menos aceitar que a aparência não é a questão mais importante que tenho. E, é claro, isso me causa bem menos sofrimento do que um dia já causo. Mas ainda causa sofrimento e ainda desvia minha atenção. 

Será que isso me torna uma feminista hipócrita? Será que publicar esse desabafo vai gerar em todos a mesma reação que a censura das minhas fotos gerou na minha amiga? Como assim, você, editora da revista AzMina, não ama seu corpo do jeito que ele é?

Pois é… Não consigo. Mas prefiro acreditar que isso não é hipocrisia. É mais um sinal de que sou humana, do tipo que não é oito ou oitenta, do tipo confusa, do tipo que foi socialmente criada pra se odiar e, por mais que se esforce, ainda não conseguiu mudar todas as chavinhas lá dentro da cabeça. E nem acho que um dia vou conseguir.

Por tanto tempo eu tive certeza de que eu devia ser bonita, de que ser bonita era a moça da novela, de que isso era uma parte essencial do que é ser mulher, que isso se tornou parte do que me compõe. Eu posso racionalmente discordar, mas o assunto precisaria de um bom tempo de divã (do profissional, não esse aqui), para poder ser desmontado.

Tomei a decisão de encarar essa minha falha (que é só uma de muitas), porque hipocrisia seria eu fingir que não ligo pra minha aparência, que aceito meu corpo, e ir deixando esses sentimentos/pensamentos me consumirem de dentro pra fora de maneira inconsciente, abafados. Então eu reconheço, sou uma feminista que não ama o próprio corpo. Agora preciso ver como desconstruir ou aprender a conviver de maneira saudável com isso.

E enquanto fico na praia comparando meu corpo com o das outras mulheres, tento aliviar a consciência com o pensamento de que talvez as filhas das amigas possam já ser criadas com essa chavinha virada pro lado certo, sem esses padrões doidos que nos torturam.


Também tem um desabafo para fazer ou uma história para contar? Então senta que o divã é seu! Envie seu relato para helena.dias@azmina.com.br