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Eu devia ter uns 12 anos de idade. Era, portanto, 1990, quando minha mãe, desabafando, me fez um pedido, olhando para o chão: que eu nunca fosse professora.

A profissão do ensinar era muito desvalorizada. Ela, pedagoga formada pela Universidade de Brasília (UnB) e professora em uma escola de Ensino Fundamental e Médio no bairro onde morávamos, na periferia da capital federal, não queria que eu tivesse o sonho de formar pessoas e fosse desprezada. Isso ecoou fortemente na minha cabeça. Eu não gostaria, de forma alguma, de importuná-la. Mas ela também queria que, caso a docência fosse minha opção profissional futura, que ela fosse, antes de tudo, uma decisão consciente.

Apesar do alerta, da experiência de longa data de minha mãe como docente, que acompanhei de perto desde pequena, foi que tomei o gosto pelo ensino e pela busca constante de aprimoramento didático, e também conheci, na prática, os desafios de gênero de mulheres ante às relações de poder, configurados pelas dificuldades para ascensão profissional dela, mulher negra, que no fim da vida assumiu a direção do centro de ensino que há décadas conhecia como professora.

O primeiro curso superior em que ingressei foi em Química. Eu pouco sabia o que um químico fazia, mas certamente deveria ser algo mais “prático” do que o que um filósofo, que apesar de me atrair mais, era uma escolha que minha mãe não recomendava — dizia ser mais sensato fazer primeiro um curso que “desse dinheiro”, e depois fazer o que eu gostava.

No segundo semestre eu descobri um universo novo, onde poderia aprofundar meu conhecimento sobre as pessoas (que sempre foram meu principal interesse de pesquisa): a psicologia. A mudança de cursos não foi radical, ao contrário do que muitos pensam.

Com o repentino falecimento da minha mãe, em setembro de 1997, homenagearam-na dando seu nome à biblioteca da escola, considerando que ela assumia uma dupla jornada: de dia lecionava e à noite cuidava da biblioteca. Quantas instigantes leituras noturnas encontrei naquele acervo riquíssimo!

Em 2004 segui os passos de minha mãe: comecei a dar aulas na UnB, quando ministrei a disciplina “Psicologia Social”. Em 2006, fui aprovada no doutorado no recém-criado Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações da UnB. No período fui professora em duas instituições de ensino superior privada.

A minha “transição” (termo corrente, que prefiro chamar de um reconhecimento) como mulher trans ocorreu em 2009 e, diferentemente do que é comum para outras pessoas trans, encontrei enorme apoio nos meus ambientes de trabalho e junto à minha família. Doutora em 2010, lecionei em diferentes instituições particulares de ensino superior.

Desde então, para além de ministrar aulas no período noturno, conduzi inúmeras atividades instrucionais, em todo o Brasil. E neste 23 de maio de 2016, segunda-feira, fui empossada como professora de Psicologia do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), meu primeiro emprego em tempo integral como docente.

Como sempre digo, eu sou, infelizmente, uma exceção.Tanto entre pessoas negras como entre as trans (e principalmente entre as pessoas trans negras, as mais excluídas e invisibilizadas entre os os excluídos e invisibilizados).

Não que lecionar seja o suprassumo da inclusão e do “esclarecimento”, mas esse é, sim, um trabalho com extraordinário potencial transformador, tanto para a reprodução de violações quanto para a promoção de práticas libertadoras.

A dimensão subjetiva do ser humano — identitária e volitiva — é indissociável de qualquer papel que alguém exerça como ator social. Parafraseando o paradoxo da diversidade humana apresentado pelo psicólogo social Gordon Allport, posso afirmar que a forma como uma pessoa é, o que aprende, suas opiniões e experiências, são características únicas dela, porém, ao mesmo tempo, comuns a toda a humanidade.

Essa não é uma busca alienada, ressalto, mas pautada pela crença de que per scientiam ad justitiam (pela ciência se chega à justiça). Esse era o lema do Comitê Científico-Humanitário, fundado em 1897, pelo sexólogo Magnus Hirschfeld , pioneiro nos estudos sobre orientação sexual e identidade de gênero.

Reconheço os ganhos e as perdas desse processo de vida ainda inconcluso, pois na expectativa de novos desafios, e espero que este texto, ao seu término, demonstre que o meu desenvolvimento pessoal e profissional não é apenas fruto do acaso, mas das metas de alguém que reconhece as particularidades de seu universo e procura conhecer outros.

Quem eu sou marca meu pensamento e minha ação. Desse modo, como disse a antropóloga Lélia Gonzalez , “o negro tem que ter nome e sobrenome”.

Nesse ínterim, lembro da minha mãe e sinto revigorada a admiração pelos meus ancestrais, desde as antigas sacerdotisas que fazem parte do meu sangue e espírito. Ofereço esta minha nova etapa na vida àquela professora negra de uma escola na periferia de Brasília.