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Mulheres que já se candidataram contam o que aprenderam com as eleições

Pesquisa traz dificuldades e aprendizados de candidatas que concorreram em 2016 e 2018
por Letícia Ferreira
13 de fevereiro de 2020
Mulheres ainda são apenas 15% da Câmara dos Deputados (Gustavo Lima / Agência Câmara)

A presença de mulheres em cargos políticos ainda é um desafio no Brasil. Na Câmara dos Deputados, por exemplo, entre 513 parlamentares, somente 77 são mulheres (15%). E mudar esse cenário de baixa representatividade envolve desafios diversos para as mulheres que querem se candidatar, passando por dinheiro, apoio dos partidos e até falta de conhecimento sobre os processos políticos.

Foi isso que a Pesquisa “Jornada da Candidata”, divulgada pelo coletivo Vote Nelas, mostrou. A partir de entrevistas em profundidade com 34 mulheres que disputaram as eleições de 2016 ou 2018 para os cargos de vereadoras e deputadas (estaduais e federais), realizadas entre junho de 2019 e janeiro de 2020, o documento reúne as motivações, dificuldades e aprendizados das mulheres que tentam ingressar na política brasileira.

Será que eu posso?

A grande motivação das candidatas para concorrer em uma eleição foi o cenário político, indica a pesquisa. Elas fazem parte do público de brasileiros que se incomodam com as dificuldades econômicas e políticas do país e perceberam, ao longo das crises que começaram com os protestos de 2013, que os cidadãos precisam participar mais da política, mesmo sem experiência prévia ou conhecidos na política. 

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“Nunca tive pretensão política, mas me senti obrigada a meter a cara, muito inspirada pelo assassinato da Marielle. Ela foi quem mais influenciou na minha decisão de ser candidata. Quero defender as causas que ela defendia como mulher”, contou à pesquisa uma candidata a deputada estadual de Roraima, pelo PSB, de 46 anos.

Com a decisão de se candidatar, as entrevistadas passaram por muitos questionamentos pessoais para saber se de fato poderiam seguir com a campanha. As poucas referências de outras mulheres na política aumentava esse receio.

As questões práticas e pessoais faziam parte dos receios dessas mulheres. Quem iria cuidar dos seus filhos? O que iriam no trabalho? Elas também se preocupavam com a exposição pessoal e familiar e algumas delas, casadas, contaram que o apoio dos seus maridos foi importante. As mais jovens foram criticadas por familiares e consideradas ingênuas por não avaliarem os riscos de uma eleição.

Com a mão na massa 

Um dos aprendizados que as mulheres que participaram da pesquisa citaram foi que uma campanha começa muito antes da data oficial determinada pelo Supremo Tribunal Eleitoral (TSE).  Para participar do processo, elas precisam criar uma rede de pessoas que poderão apoiá-las em casa e no dia a dia da campanha.

Quem estava pela primeira vez se  filiando e participando das estruturas partidárias teve o desafio de criar o seu espaço dentro dos partidos e entender como a instituição funciona antes da filiação. Segundo a pesquisa, as candidatas entraram em um ambiente com regras estabelecidas por homens e criam, com o tempo, a sua maneira de participar do jogo político. 

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Uma lição que as entrevistadas deixaram para futuras candidatas é de que devem entender como o partido ao qual querem se filiar funciona, para além da questões ideológica. Isso passa por saber como a organização pretende apoiar a sua campanha antes de se candidatar. Se existe algum grupo de mulheres que pense nas necessidades das candidatas, quais são os programas de formação política do partido, se eles existirem, e como ele distribuirá a cota de 30% de recursos para as campanhas de mulheres.  

Dinheiro é essencial

Falando da cota de recursos, as entrevistadas ressaltaram a importância de pensar em dinheiro ao decidir entra na política. “Você tem que ter clareza de quanto de dinheiro vai ter, de arrecadação, de parceiros, de amigos. É o mais importante, tem que ter dinheiro para fazer campanha… não adianta”, ressaltou uma deputada federal do PTB-PR, eleita.

As candidatas que participaram de outros eleições aconselham que a negociação do apoio financeiro do partido seja uma tarefa para o início da candidatura. Ter clareza dos valores que irá receber, datas de pagamentos são informações que construirão mais confiança e credibilidade para os planos da candidata. 

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Algumas das entrevistadas citaram também a sensação de serem “café-com-leite” dos partidos. Com a cota de 30% de candidaturas femininas, partidos passaram a recrutar mulheres, mas sem necessariamente incentivar suas candidaturas. A pesquisa mostrou que as candidatas percebem tarde demais quando foram usadas para preencher cota.

Tempo para ser candidata 

Fazer campanha toma tempo, foi outro aprendizado mostrado na pesquisa. A intensidade da campanha e o equilíbrio de muitas tarefas deixa pouco espaço para a candidata se apresentar aos seus leitores. O planejamento mal feito e equipes despreparadas são as principais dificuldades para que a presença delas no espaço público seja mais frequente durante a campanha.

E o movimento no sentido oposto também foi relatado pelas mulheres: as campanhas causaram fortes impactos psicológicos e físicos em suas vidas. Algumas largaram seus trabalhos, tendo impacto na vida profissional, enquanto outras encararam dupla jornada para seguir com a campanha e carreira.

Quando questionadas sobre os problemas que enfrentam por serem mulheres, o assédio foi o mais citado no nordeste. Houve também relatos assédio sexual e moral ao longo da campanha: desde serem desqualificadas em função do gênero, beleza, raça e cultura, até atacadas fisicamente.

As participantes da pesquisa são de 16 estados, 14 partidos, 10 eleitas e 24 não eleitas. Elas participaram de entrevistas individuais de 2h30, em média, com fases presenciais e remotas.

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