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Mulheres mudam rotina para cuidar de suas mães na quarentena

Isoladas e responsáveis pelos cuidados das idosas durante a pandemia, filhas relatam misto de preocupação e sobrecarga
por Letícia Ferreira
8 de maio de 2020

Trocar fraldas, fazer exercícios para a memória, limpeza, comida, compras… Durante o período de quarentena, devido à pandemia do novo coronavírus, para muitas mulheres o relacionamento com a mãe mudou completamente de forma. Responsáveis pelos cuidados das genitoras idosas, elas ficaram ainda mais isoladas e com mais responsabilidades do que já tinham antes. Convivendo com a sobrecarga e a também a preocupação, não só com a Covid-19, mas também com as complicações de saúde que suas mães podem ter devido ao isolamento. 

Izilda Ferreira, 66, é funcionária pública aposentada e  já mora com a mãe, dona Joventina, 98, há três anos, sendo sua principal cuidadora. Joventina perdeu a capacidade de andar após um período de internação para o tratamento de uma pneumonia.

À época, Izilda mudou a rotina da casa, que também divide com um irmão idoso. “Eu já estava esperando cuidar dela, foi um aprendizado porque eu não tenho filhos. Eu nunca tinha trocado fraldas na minha vida, a primeira vez foi com a minha mãe”. 

Antes da pandemia, porém, Izilda contava com ajuda de sobrinhos e irmãos. Uma das irmãs estava na casa todos os dias para dividir as tarefas domésticas e os cuidados com a dona Joselita. Com a quarentena, as visitas acabaram. 

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Sem a sua rede de apoio, ficou responsável pelas principais tarefas de manutenção da casa e da saúde de sua mãe. “Eu tenho que sair. Meu irmão não sai, uma filha proibiu que ele saísse, porque ele tem outros problemas de saúde. Eu tenho diabetes, pressão alta, mas eu saio, alguém tem que sair”, conta. 

“Criei exercícios para o alzheimer dela não piorar”

Em uma situação parecida está Solange de Albuquerque, 61 anos, no Rio de Janeiro. Professora de pedagogia no ensino médio, a sua rotina de aulas foi suspensa. Desde de 2013, ela dividia, com duas cuidadoras que se revezam, as responsabilidades com a rotina da sua mãe, dona Selma, 83 anos, que sofre de Alzheimer. 

Agora ela está completamente responsável pela mãe. Logo no início do isolamento, dona Selma teve um pouco de tosse e febre, sem um diagnóstico das consultas médicas virtuais que Solange mantém. A situação a deixou um pouco “fora da caixa”, segundo a filha.  Ela não saía muito da cama, não conseguia fazer pequenas atividades doméstica ou ir ao banheiro sozinha. 

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Com acompanhamento médico, a filha seguiu com o tratamento de uma febre comum, mas levou um susto. “Foi difícil, primeiro por eu estar sozinha e com muito trabalho físico. Segundo, eu tinha medo da mamãe piorar, ir embora, precisar internar, ir ao hospital justamente nessa época que é de isolamento. De ficar sem vê-la e sem poder cuidar dela, deixá-la sozinha”.

 Dona Selma melhorou, mas Solange tem ainda a preocupação com o avanço da doença, que afeta a memória. Até o início da quarentena, ela ainda reconhecia os familiares.

Para manter a saúde, Selma tinha uma rotina cheia antes da pandemia. Praticava yoga, ia à igreja, fazia um curso para exercitar a memória e pintava panos de prato com outras idosas. Com as atividades suspensas, ela perdeu hábitos que impediam a evolução da doença.

“A neurologista falou que a falta de rotina seria muito ruim para as pessoas que já tinham alzheimer como ela. O que mantinha a interação dela com a realidade era essa rotina bem amarrada, uma rotina com ritmo, atividades”, explica. 

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Acostumada a ensinar, Solange criou exercícios para manter a memória da mãe durante a quarentena, para que dona Selma continue reconhecendo seus familiares quando voltar a receber visitas, algo que ela não precisava antes. “Eu faço esses exercícios toda semana, de ver as fotos deles no quadros. Ela precisa dizer o nome deles. Tem fotos de várias fases, de quando os netos, sobrinhos eles eram criança até agora”.

Após dois meses em casa, Solange tem uma visão positiva. “Eu acho que ela vai ficar bem, ela está voltando à lucidez, a interação com a  realidade”. 

Levando a mãe para sua casa 

Cláudia e sua mãe, Fátima Foto: Arquivo pessoal

Já Cláudia Furlan, 40 anos, terá nesse dia das mães o primeiro dia de convivência na quarentena com sua mãe, dona Fátima, de 61 anos. Cláudia mora em Curitiba e vai buscá-la em São Paulo no sábado, para poder cuidar da mãe de perto.

As notícias e as restrições de circulação começaram a afetar a saúde de Fátima, que é aposentada, e está tendo crises de ansiedade. “Ela já teve dois infartos,  é diabética. Nós ficamos muito preocupados porque São Paulo é a cidade onde existem mais casos e aqui a incidência do vírus é menor”. 

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Claudia, que é advogada, mudou para Curitiba com o marido, que recebeu uma proposta de emprego na cidade. Além de impedir visitas à família, a pandemia fez com que ela perdesse uma proposta de emprego na nova cidade. Os papéis para admissão já estavam prontos quando a empresa decidiu desistir da contratação por dificuldades financeiras.

Sem a possibilidade de voltar a trabalhar, Flávia acredita que é a filha que pode oferecer as melhores condições de qualidade de vida para a sua mãe nesta quarentena. A advogada preparou um quarto separado para receber sua mãe e comprou uma cama para que ela fique mais confortável na nova casa temporária.

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