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Diante de fotos de geladeiras vazias, liderança feminina distribuí marmitas em Paraisópolis

Presidente da Associação de Mulheres de Paraisópolis, Elizandra Cerqueira lidera ação de alimentação na favela na epidemia do coronavírus
por Letícia Ferreira
29 de abril de 2020

Paraisópolis, em São Paulo, tem sido considerada uma comunidade modelo no combate ao coronavírus. Para suprir as faltas do poder público, lideranças comunitárias têm trabalhado para garantir a sobrevivência da população local, de cerca de 100 mil habitantes, durante a pandemia. Uma das lideranças à frente desse movimento é Elizandra Cerqueira (32), presidente da Associação de Mulheres de Paraisópolis, que está organizando a distribuição gratuita de marmitas para as famílias mais vulneráveis. Foram 7 mil marmitas só no dia 24 de abril. 

Elizandra Cerqueira Paraisópolis coronavirus
Elizandra Cerqueira em Paraisópolis (Foto: Frankiki Rodrigues/Agência Paraisópolis)

A experiência de trabalho na favela fez as lideranças acreditarem que o governo municipal não chegaria em Paraisópolis. “O poder público deveria ter um plano de combate ao covid nas favelas. Não adianta você criar uma proposta que serve para o Morumbi, mas não funciona para a nossa realidade”, diz Elizandra. Localizados na zona sul de São Paulo, os dois bairros vizinhos são um retrato das desigualdades. 

Entre fotos de geladeiras vazias e os corres para fazer as marmitas, Elizandra não tem mais hora para sair do restaurante que comanda e que produz as refeições para entrega. Ela deixou de ver seus pais e irmãos, que também moram na comunidade, para prevenir a transmissão do vírus.

Como as estatísticas já estão mostrando, ela acredita que a maioria das vítimas será dos lugares que já são os mais vulneráveis. “Na favela, o vírus mostra como ainda existe essa questão forte da desigualdade social”, afirma Elizandra, que convive com as diferenças sociais desde que se entende por gente.

Elizandra Cerqueira Paraisópolis coronavirus
Elizandra recebe doações para a produção de marmitas (Foto: Reprodução/Facebook)

Geladeiras vazias 

Filha de mãe empregada doméstica e pai pedreiro, Elizandra chegou a Paraisópolis quando tinha um ano da idade. A família voltava para a cidade após uma temporada na Bahia, origem da família paterna. Essa era a segunda vez que a família morava em Paraisópolis, atualmente a segundo maior favela de São Paulo e a quinta maior do Brasil. Nesta volta ao bairro, nove anos depois, as condições continuavam precárias, com ruas sem asfalto e saneamento básico. 

A mesma falta de acesso à água e ao tratamento de esgoto em Paraisópolis afeta a vida das pessoas que vivem ali em meio à epidemia do novo coronavírus 30 anos depois. Com isso, o risco de contágio é uma ameaça constante. E um outro medo assombra os moradores: a fome. 

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O avanço da covid-19 e as recomendações de isolamento deixou muitos dos moradores sem renda. Elizandra e outras lideranças comunitárias começaram, então, a receber fotos de geladeiras vazias e pedidos de ajuda para conseguir emprego e cestas básica de quem não tinha mais recursos para sustentar suas famílias. 

Em Paraisópolis, boa parte da população trabalha com serviços. São diaristas, empregadas domésticas, porteiros e zeladores. Entre eles, as mulheres estão entre os mais vulneráveis, avalia Elizandra. “Tem muitas mães solos aqui. Elas são as chefes de família, que cuidam de tudo. Essas mulheres precisam de apoio financeiro, porque estão sem ter como sustentar a casa.”

Realidade demonstrada pela pesquisa  “Coronavírus – Mães da Favela”, realizada pelo Data Favela e pelo Instituto Locomotiva, que mostrou que 92% das 5,2 milhões de mães que vivem em favelas terão dificuldades para comprar comida após um mês de renda. 

Lideranças femininas no combate ao covid

Diante dessa realidade, Elizandra e sua sócia, Juliana da Costa Gomes, decidissem agir. O seu negócio social Mãos de Maria, um restaurante que sofreu com os impactos econômicos da covid-19, tornou-se o ponto de partida para a distribuição gratuita de marmitas para as famílias mais vulneráveis de Paraisópolis.

Elizandra no restaurante Mãos de Maria (Foto: Reprodução/Facebook)

Elas financiam as marmitas com uma vaquinha virtual, em que pessoas e empresas podem comprar uma marmita para os moradores por R$ 10 cada. “Sinto que mesmo com o distanciamento, nunca estivemos tão unidos. Só estamos conseguindo nos fortalecer pela corrente do bem que empresas e amigos estão fazendo.”

Com os recursos arrecadados, o Mãos de Maria mantém a distribuição gratuita de marmitas e remunera 20 mulheres que trabalham no restaurante e foram alunas de um curso de culinária que é oferecido desde 2006 pela associação de Mulheres de Paraisópolis.  

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Outras iniciativas lideradas por mulheres tentam minimizar os efeitos da pandemia na favela. Rejane Santos, com o Emprega Comunidade, lançou o programa Adote uma Diarista. Qualquer pessoa pode doar para que as empregadas domésticas de Paraisópolis cadastradas recebam por três meses uma cesta básica, kit de limpeza e R$ 300. 

O Costurando Sonhos, outro negócio social liderado por mulheres, produz máscaras que são distribuídas em Paraisópolis e financia a capacitação das costureiras, que são remuneradas pela produção das máscaras. 

A tecnologia social que Paraisópolis desenvolveu para combater o novo coronavírus inspira outras favelas pelo Brasil. Elizandra mantém contato com lideranças comunitárias de Heliópolis, a maior favela de São Paulo, que desejam ampliar a distribuição de marmitas durante a pandemia inspiradas no modelo do Mãos de Maria.  

Trajetória de trabalhos comunitários

A trajetória de Elizandra com o trabalho comunitário em Paraisópolis é antiga. Começou quando ela estava no ensino médio e percebeu que não tinha condições de estudar publicidade, como queria. Ajudou, então, a formar um curso pré-vestibular popular apoiado por professores de universidades públicas.

Elizandra em Paraisópolis (Foto: Reprodução/Facebook)
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Depois do ensino médio, ela continuou envolvida com trabalhos comunitários voltados à educação, dando aulas em um curso que pretendia erradicar o analfabetismo na região. Elizandra conseguiu uma bolsa integral para cursar publicidade, no ano seguinte, após a sua saída da agência de publicidade onde trabalhou. 

A oportunidade no ensino superior afetou o relacionamento que tinha há cinco anos. Ela começou a sofrer violência doméstica do namorado, com quem morava, com agressões físicas e psicológicas. “Eu não queria que as pessoas me vissem fragilizada, tinha muito vergonha de falar com os meus pais. Eles iam ficam decepcionados e eu não queria fazer isso com eles”, conta.

Apesar da experiência comunitária com outras mulheres que viviam em situações de violência, Elizandra quase virou mais uma vítima, mas decidiu pedir ajuda para a polícia e à sua família para sair da casa que dividia com o agressor durante uma das agressões. 

Elizandra continuou com trabalhos voluntários em Paraisópolis até criar, em 2017, o restaurante Mãos de Maria. A ideia do negócio começou  quando a publicitária começou a estudar sobre empreendedorismo feminino. Os rendimentos do restaurante financiam o curso de formação em culinária da Associação de Mulheres de Paraisópolis, que desde 2006 atua para possibilitar renda para mulheres em situação de vulnerabilidade e vítimas de violência doméstica.

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No mesmo ano de criação, o Mãos de Maria foi premiado pelo Instituto Stop Hunger, organização que combate a fome com o empoderamento de mulheres. 

A solidariedade, para Elizandra, é o caminho para diminuir a diferença entre as realidades das pessoas. “Ninguém vive sozinho, todo mundo precisa de alguém e pode ajudar alguém. E que dessa forma a gente consiga romper as desigualdades. Precisamos nos unir para superá-la.”

Essa reportagem faz parte da parceria d’AzMina com o Data Labe, Gênero e Número e Énois na cobertura do novo Coronavírus (Covid-19) com foco em gênero, raça e território. Acompanhe a cobertura completa aqui e nas redes e pelas tags #EspecialCovid #CovidEMulheres

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