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Marias em Fuga

Nas rotas de migração pelo Brasil afora, uma constante chama atenção: nordestinas partindo para escapar da violência doméstica e familiar.
    5 de maio de 2020

    Maria Celeste Braga, 75, saiu às pressas de Florânia, no Rio Grande do Norte, com 22 anos e hoje vive em Goiânia. Entre as muitas coisas que perdeu ao migrar, a que mais lhe doeu foi a guarda do filho, que tinha seis  meses na época. Maria da Guia Xavier, 52 anos, fugiu aos 15 anos de Riachão, no Maranhão, sem contar com nenhum tipo de apoio familiar, por anos, precisou trocar seu trabalho como doméstica por comida e moradia. Maria José dos Santos, 47 anos, natural de Santa Teresa do Paruá, também no Maranhão, saiu de lá aos também 15 anos, deixando para trás família e amigos, e hoje vive em Governador Nunes (MA). 

    Maria José, Maria Celeste e Maria da Guia. Três mulheres nordestinas que, apesar de nunca terem se conhecido, partilham muito em comum, para além do nome. As três foram vítimas de violência doméstica e, por causa disso, migraram de suas cidades de origem para outras localidades do Brasil, em fuga. 

    Historicamente, o Nordeste é uma região com elevado índice de evasão migratória. Para se ter uma ideia, atualmente 9,5 milhões de nordestinos residem em outra região do país, representando, desta maneira, 53,6% do total nacional de migrantes, revelam dados do Censo 2010. 

    Dentre os vários motivos para migrar, a busca por emprego, oportunidades de estudo e melhores condições de vida costumam ser as razões mais citadas. No entanto, se tratando da migração feminina, um outro fator tem sido frequentemente mencionado: a violência doméstica, que, segundo dados da Pesquisa Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, realizada pela Universidade Federal do Ceará (UFC) em parceria com o Instituto Maria da Penha, se faz presente na vida de três em cada dez nordestinas (27,04%) entre 15 e 49 anos.

    Foi a violência doméstica que fez com que Maria José, aos 15 de idade, se visse obrigada a partir de Santa Teresa do Paruá (MA) para Santa Inês, cidade vizinha, fugindo das recorrentes ameaças de morte por parte do ex-marido a ela e toda a sua família

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    Na época, ainda adolescente, havia acabado de sair de um relacionamento de quase dois anos, marcado por xingamentos, empurrões e socos. Maria José decidiu separar-se quando ouviu o companheiro dizer que tinha a intenção de abusar sexualmente da filha, uma criança de oito meses.

    “Ele fez foi me falar que não ia plantar um pé de bananeira para vir outro e cortar o cacho. Ou seja, quis dizer que um dia ia usar minha filha”, reproduz as palavras do ex-companheiro.

    Violência enquanto fator migratório

    “Ao não encontrar no espaço social do qual faz parte os mecanismos necessários para reprimir a violência que enfrenta, a mulher se vê obrigada a partir”, explica Carlos Bernardo Vainer, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e sociólogo que estuda a violência enquanto fator migratório.

    Ele comenta que esse tipo de deslocamento compulsório revela a ineficiência do Estado em proteger mulheres em situação de violência e é algo recorrente tanto nos pequenos municípios, como ocorreu com Maria José, que vivia num local com cerca 9 mil habitantes, quanto em grandes cidades, como é o caso de Maria Celeste.

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    Cinco décadas atrás, ela teve que ir às pressas de Natal, capital do Rio Grande do Norte, para a casa de um tio que vivia em Florânia (RN) para fugir do companheiro que, após ter sido contrariado, cortou sua cabeça com uma faca.

    “A situação foi assim: a tia dele cortou o meu cabelo, mas ele não queria que cortasse. Aí ele passou a faca aqui [aponta a cabeça] e cortou”, relata.

    Pretas e pobres, as mais vulneráveis

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    Sem apoio da família, Maria da Guia teve de trabalhar como doméstica em troca de teto e comia quando migrou. Foto: Indy Braga

    A classe social e a cor são dois elementos determinantes nas probabilidades de sofrer ou não com a violência de gênero, segundo a pesquisa do Instituto Maria da Penha com a Universidade Federal do Ceará. Isso porque a intersecção entre a desigualdade social e o racismo deixam essas mulheres mais vulneráveis, com menor estrutura e suporte  para sair da violência em um estágio inicial. 

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    Maria da Guia é negra  e conta que conviveu com a pobreza extrema durante a infância. No caso dela, a violência familiar foi a razão pela qual foi embora de Riachão, município no extremo sul do Maranhão, para Goiânia (GO). Tinha 15 anos quando foi agredida pelo irmão.

    “Lembro que ele me bateu tanto que minhas costas ficaram parecendo costas de escravo! Bateu de cinto, do lado da fivela”, relata. Outro agravante da situação foi o fato da mãe, que também já havia a agredido muitas vezes, ter defendido a atitude do irmão.

    Aymê Sousa, Comunicadora Popular da Associação Mulheres na Comunicação, aponta que, dentre os vários fatores que tornam as migrantes negras e pobres mais vulneráveis à violência, um deles é a falta de  transversalidade e interseccionalidade.

    “Infelizmente os serviços especializados não dialogam de fato com as várias instituições da sociedade civil, tampouco abarcam as várias especificidades da mulher, tais como classe social, raça e origem geográfica”, explica.

    A invisibilização da violência como motivação

    Após oito meses vivendo em Florânia, Maria Celeste voltou para Natal, de lá migrou para Santos (SP) e, anos depois, para Goiânia (GO). Do mesmo modo, Maria José ficou dois anos em Santa Inês, depois morou por três anos em Parauapebas e hoje reside em Governador Nunes Freire (MA).

    Ambas percorreram a seguinte rota de fuga: num primeiro momento migraram para uma cidade próxima, onde tinham algum familiar que pudesse ajudá-las e depois foram para outras localidades em busca de melhorrd condições econômicas.

    Essas migrações em sequência muitas vezes invisibilizam a violência enquanto motivo que as fez migrar, especialmente porque muitas delas sentem vergonha de comentar, ou sequer se dão conta de que sofreram um relacionamento abusivo.

    A socióloga Uianã Cruvinel comenta que a naturalização da violência é um dos fatores que impede que tais migrantes percebam a violência como o motivo do deslocamento.

    “Muitas delas não veem a violência doméstica como um fenômeno que piora a vida. O que piora a vida é o financeiro. A violência é vista como uma condição do gênero suportável e, portanto, um motivo secundário”, pontua.

    Faltam serviços especializados nas cidades de origem

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    “Não tinha como pedir ajuda”, conta Maria José sobre a falta de estrutura na cidade de onde partiu. Foto: Joel Pontes/ AzMina

    De acordo com a Pesquisa do Instituto Maria da Penha, o nível de violência fora das capitais – em pequenos municípios, como estes de onde saíram as três Marias, bem como nas médias e grandes cidades – costuma ser três vezes maior. Neles, o que se percebe muitas vezes é a inexistência de serviços especializados de atendimento à mulher, conforme relata Maria José.

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    “Não tinha como pedir ajuda até porque nem polícia lá tinha. Era um lugar muito parado, muito pequeno”, explica Maria José. Delegacia da Mulher então, até hoje não existe na cidade. 

    Além dessa falta de proteção e suporte imediatos, a ausência desses aparelhos do Estado acaba por resultar na proliferação das mentalidades e comportamentos machistas e violentos, já que não existem órgãos públicos para reprimir tais atos.

    Maria José conta, por exemplo, que não apenas o marido, mas também o pai dele e irmãos, agrediam suas companheiras. Um dos irmãos, inclusive, chegou a cometer feminicídio e, em represália, foi assassinado pelo cunhado.

    E o acolhimento na cidade de destino?

    Das três entrevistadas, Maria da Guia foi a única que migrou sem receber suporte algum da família. Por isso, sempre que chegava num novo lugar a única alternativa era buscar um emprego de doméstica com moradia inclusa. Nessa situação  extremamente vulnerável, muitas vezes chegou a trabalhar não em troca de um salário, mas por um lugar para dormir.

    “Trabalhava de domingo a domingo, não tinha salário, só ganhava roupa usada, tinha comida quando os patrões terminavam de comer, que eles saiam da mesa, daí o que sobrava eu comia”, conta.  

    Para ela, o Estado não deu nenhum suporte com políticas públicas. E seu caso não é exceção. Sem suporte familiar, essas mulheres precisariam de políticas públicas para moradia e emprego, no mínimo, para poderem restabelecer suas vidas.

    Goiás tem sido um polo de atração migratória do Centro-Oeste do país, região que mais retém imigrantes desde 2004, de acordo com dados do PNAD 2009/IBGE. Foi o estado brasileiro que mais recebeu migrantes 2004 (146.997 pessoas) e 2009 (129.056). 

    Diferente, por exemplo, de São Paulo, estado que recebeu muitos nordestinos entre as décadas de 1950 e 70, mas que hoje apresenta saldo migratório negativo, como o Sudeste de modo geral, que também apresentou saldo negativo tanto em 2004 como em 2009, segundo dados da publicação Reflexões sobre os Deslocamentos Populacionais no Brasil/IBGE.

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    Goiânia, capital de Goiás, conta com a Casa de Acolhida Cidadã (CAC), que abriga temporariamente famílias e adultos migrantes, além de pessoas em situação de rua. O atendimento prestado na CAC é voltado tanto para homens quanto para mulheres e inclui também atendimento psicológico e orientação e encaminhamento para o mercado de trabalho.

    Mas fora da capital, o estado ainda não não tem estrutura para atender as comunidades de migrantes nesse sentido, especialmente no que se refere a oferecer moradia em casos de risco de morte iminente, segundo Ana Rita Marcelo de Castro, presidente do Conselho Estadual da Mulher em Goiás (Conem). E também não há um olhar para gênero nas políticas para migrantes. 

    Ela traz o panorama de como estão os serviços especializados de atendimento à mulher em Goiânia. “No momento, o estado não tem nenhuma casa abrigo em Goiânia. Temos somente uma da prefeitura, e atuando com uma certa fragilidade. Porém, essa questão da violência contra a mulher migrante já é uma demanda que colocamos em pauta”, afirma. 

    Falta de suporte e revitimização

    A situação de vulnerabilidade e falta de apoio acabou colocando Maria da Guia em uma nova violência. Cinco anos após sua saída de casa, foi vítima de um abuso sexual. Hoje ela sente que essa vivência dolorosa é resultado, mesmo que indiretamente, de sua partida precoce de casa.

    “Depois que fui embora, minha mãe não tinha aquela preocupação comigo, sabe?”, tenta explicar. Em outras palavras,  desde cedo ela deixou de saber o que era ter um adulto por perto, aconselhando, cuidando e dando orientações.

    Na época do ocorrido, a única pessoa com quem pode contar foi com Márcia, que descreve como uma das poucas patroas que acabou se tornando sua amiga e, quando soube do abuso, levou ao médico para fazer exames e lhe deu a pílula do dia seguinte.

    Ela tinha 20 anos, ainda era virgem e sofreu abuso em uma festa a que foi com amigas da escola. “No dia seguinte quando eu acordei eu tava toda suja de sangue”, relata. Em função do ocorrido, ela parou de estudar, pois tinha medo que o rapaz viesse a tentar algo novamente e, por isso, também não fez boletim de ocorrência.

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    Migrações de retorno

    Tal como Maria da Guia, inúmeras migrantes, quando vítimas de violência e abuso, não vão até a delegacia. Ainda assim, Paula Meotti, delegada Titular da 1ª Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher (DEAM) e Coordenadora Estadual das DEAMs de Goiás, atende, em média, mil a dois mil casos de violência por ano.

    Ela afirma que o registro de ocorrências por parte de migrantes nordestinas é algo mais recorrente do que se pode imaginar. “Especialmente mulheres da Bahia, Pernambuco e Maranhão”, lista os estados que mais aparecem nas fichas.

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    Inclusive, a Delegada comenta que, assim como muitas mulheres partem do seu local de origem para fugir da violência, outras tantas regressam também para escapar desse tipo de situação.

    “Muitas vezes essa mulher vem acompanhando o marido, aqui ocorre a situação de violência e por isso ela decide voltar para seu estado, para perto dos familiares, para assim se sentir segura de fato”, explica.

    Outro ponto que enfatiza é que, em geral, migrantes se mostram mais fragilizadas ao chegar na delegacia, e explica o motivo. “Quando ela não tem vínculos familiares no estado, se sente menos empoderada para terminar o relacionamento, pois não terá uma rede de apoio com a qual contar”.

    O que fica para trás

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    Maria Celeste reconstruiu sua vida, mas ainda sofre por ter se afastado do filho ainda pequeno ao fugir. Foto: Indy Braga/ AzMina

    Das três entrevistadas, somente Maria Celeste chegou a acionar a polícia quando foi vítima de violência, e isto porque, mesmo tendo fugido para outra cidade, o ex-companheiro continuou a persegui-la.

    Sua sorte foi que o viu antes, e por isso tempo de chamar a viatura. Na mochila do ex-companheiro foi encontrada uma faca. “Tenho certeza que ele foi lá para me matar”, diz Celeste.

    Somente meses depois o rapaz parou de persegui-la. Ainda assim, a separação lhe custou a perda do direito de estar perto do filho, que tinha apenas alguns meses de vida.

    “Eu não levei meu menino comigo porque ele tomou. Não deixou de jeito nenhum”, conta. Além de impedir que Celeste levasse a criança, o ex-marido proibiu que mantivessem contato. Só anos depois, a mãe conseguiu a reaproximação com o filho, que atualmente vive em Natal.

    O caso de Celeste foi extremo, mas todas essas mulheres deixam algo para trás: família, amigos, bens e trabalhos.

    “Quando eu fugi deixei tudo para trás. Até minha família teve que ir embora da cidade para gente poder viver em paz”, relata Maria José. 

    Escassez de dados

    Gláucia de Oliveira Assis, cientista social e antropóloga que estuda a feminização das migrações, comenta que só muito recentemente a questão de gênero foi incluída nas teorias sobre fluxos migratórios e nas pesquisas estatísticas sobre o tópico, o que acaba por dificultar a identificação da violência contra a mulher como fator migratório e, consequentemente, a implementação de políticas públicas nesse sentido.

    Para se ter uma ideia, na publicação de 2011, Reflexões sobre os Deslocamentos Populacionais no Brasil, do IBGE, é feita uma proposta de reedição do questionário aplicado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD). Dentre as reformulações sugeridas, há a inclusão do quesito “violência no lugar de origem” como possível motivo para migrar. Mas  essa proposta nunca entrou em vigor. 

    A falta de mecanismos de apoio no local de origem e a ausência de políticas públicas no local de destino acabam por tornar cada vez maior a migração de nordestinas para escapar da violência doméstica e familiar, modificando para sempre as trajetórias de vida de tais mulheres.

    Vidas reconstruídas

    Hoje Maria José tem 47 anos, é casada e tem cinco filhos. Quando pergunto sobre a relação entre o pai, seu ex-companheiro, e a filha, vítima de ameaça de estupro, ela comenta que chegaram a se ver uma vez, mas desde então perderam contato.

    “Eu contei para ela o que aconteceu. Ela é muita revoltada com ele, viu”, releva.

    Já Maria Celeste, hoje com 75 anos, teve, além do filho que teve que deixar para trás, uma outra filha e afirma ter sido muito feliz no seu segundo casamento, que durou mais de 40 anos até que, em 2007, o marido faleceu. Para além do ofício da costura, uma paixão que descobriu desde a juventude, sua maior alegria são os dois netos Ingryd e Yan.

    No caso de Maria da Guia, 52 anos, a depressão tem sido sua atual companheira. Dentre os vários motivos para ter desenvolvido a doença, ela cita as vivências traumáticas do passado, as dificuldades financeiras presentes e o fato da mãe ter sido diagnosticada, dois anos atrás, com alzheimer.

    “Às vezes acho que fraquejei. Fico pensando assim… E se eu tivesse estudado. Como seria? Hoje eu e meus filhos teríamos uma vida melhor e eu daria conta de cuidar da minha mãe”, diz. 

    Após ter saído de Riachão, Maria da Guia ficou seis anos sem dar notícias para a família. Hoje já retomou contato com todos, é casada há mais de 30 anos, tem dois filhos, uma filha adotiva e um neto e possui uma loja de roupas online chamada Flor de Maria Gyn.

    Essa reportagem foi produzida pela Bolsa de Reportagem AzMina Especial Violência Doméstica, realizada em parceria com o Volt Data Lab

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