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Gordura é doença?

O corpo gordo está envolto em uma série de estigmas sociais e muitos deles se baseiam na visão de que excesso de gordura, por si só, é uma doença. Mas focar apenas no peso pode fazer mais mal do que bem à saúde
Reportagem Camila de Lira
Ensaio fotográfico Jéssica Chamma
    22 de janeiro de 2019


    Considerada uma das primeiras representações da forma humana, a Vênus de Willendorf é uma estátua de 11 centímetros esculpida cerca de 25 mil anos antes de Cristo. Descoberta em um sítio arqueológico na Áustria em 1908, pouco se sabe sobre sua origem e significado cultural. O único consenso em torno da pequena estátua é que ela é uma idealização da figura feminina. No entanto, os significados para a sua forma corpulenta – com seios, barriga, vulva e bunda fartos – foram mudando ao longo dos tempos. A começar pelo nome, que se refere à deusa do amor e da beleza na mitologia romana.

    Há quem torça o nariz para essa classificação, pois não consegue ver na figura de uma mulher gorda o ideal de Vênus. Estudiosos sugerem que, em uma comunidade paleolítica caçadora e coletora, ela representava um status social elevado, como símbolo de fertilidade, segurança, sucesso e bem-estar. Hoje, porém, um corpo gordo é visto exatamente na ponta oposta a essa representação, como doente e preguiçoso.

    O corpo gordo está envolto em uma série de estigmas sociais e mitos. Entre eles o de que pessoas gordas não são saudáveis pelo simples fato de serem gordas. “A pessoa gorda já é marcada como não saudável de antemão”, observa Linda Bacon, psicóloga e nutricionista associada da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.

    Mas será o peso de uma pessoa, de forma isolada, um indicativo de doença? Estudiosos e organizações que questionam a patologização da gordura dizem que não. “O maior estigma com o corpo gordo se deu no momento em que o excesso de gordura passou a ser visto como doença”, diz Cezar Barbosa Santolin, pesquisador e professor do curso de Educação Física da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS).

    A obesidade é classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma doença cujo único sintoma é o excesso de gordura acumulada no corpo, cuja característica é o Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 30. Esse indicador é obtido por meio da relação entre o peso e a altura ao quadrado.

    Segundo o psiquiatra e porta-voz da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), Adriano Segal, a obesidade é como a cárie. “O único sintoma da cárie é o dente ter a bactéria da cárie. Para ser considerado uma doença não precisa de mais sintomas”, diz o médico. Para ele, não chamar o corpo gordo de doente é “superproteger” essas pessoas.

    gordofobia

    Focar no peso pode fazer mal à saúde

    O problema do IMC é que ele não contempla todos os fatores da saúde de um corpo, como hormônios, nível de colesterol, hábitos saudáveis de alimentação e atividade física, além da condição mental, diz Linda. “O grande problema de saúde das pessoas gordas é a gordofobia, não é apenas o corpo delas por si só”, diz a nutricionista, que é uma das criadoras do movimento Health at Every Size (Saúde em Qualquer Tamanho, em uma tradução livre). O movimento advoga a favor do chamado “body positive”, que promove uma visão positiva de corpos em qualquer formato.

    A preocupação é que, ao focar na perda de peso ao tratar pacientes gordos, os médicos deixem de tratar outros eventuais problemas de saúde.

    Além de estimular, direta ou indiretamente, comportamentos pouco saudáveis, como a cultura das “dietas milagrosas”, da restrição alimentar e, em último caso, dos distúrbios alimentares, diz Linda. “Nos tratam como uma bomba-relógio”, diz a artista plástica Paula*, de 32 anos. Ela conta que não é incomum que os seus médicos peçam para que ela refaça seus exames, pois desconfiam dos resultados, que costumam estar dentro dos parâmetros considerados saudáveis.

    Médicos e profissionais de saúde seriam, ao mesmo tempo, reflexo e parte importante da gordofobia, porque reforçam a visão negativa do corpo, observa Cezar. “A patologização se vincula à estigmatização na medida em que se busca uma homogeneização dos cidadãos, tornando uma diferença um ‘estigma’ que a sociedade tende a problematizar de algum modo, seja criminalizando ou patologizando, para se legitimar o direito de intervir, transformar e tornar “normal’”, diz o professor.

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    Gordofobia médica

    Tratar o peso como uma doença atrapalhou o diagnóstico do problema de coluna da jornalista Mariana Kuper, de 27 anos. Ela teve suas dores nas costas tratada por anos como sintoma de seu sobrepeso até ser diagnosticada como uma hérnia de disco decorrente de um acidente de carro que sofreu aos 19 anos. Apesar de o acidente ter sido grave (o carro capotou), Mariana não teve ferimentos aparentes sérios. Mas desde então começou a ter episódios de dores nas costas, a ponto de travarem e ela não conseguir andar.

    A cada crise de dor, ela visitava um médico diferente, que fazia um raio X e dizia sempre a mesma coisa: a dor era resultado de Mariana ser gorda. “Falavam que a solução era emagrecer, porque meu corpo não me aguentava, literalmente. Fiquei dois anos indo de médico em médico, e a recomendação era sempre a mesma”, lembra.

    Em 2012, a jornalista se consultou com um médico que lhe pediu uma ressonância magnética, suspeitando que o problema no ciático era incompatível para a sua idade e peso. “Ali ele descobriu profusões e extrusões na minha lombar, resultados dos anos sem o atendimento correto”, conta. Assim, uma lesão provocada pelo acidente se transformou em uma hérnia de disco após dois anos sem o devido diagnóstico.

    Para Adriano, da Abeso, a ação de médicos que apenas receitam o emagrecimento é falha em casos de doenças complexas como a de Mariana, mas não completamente errada. “O que a pessoa tem que entender é que se ela é obesa e está doente, ela tem duas doenças. Acontece que a obesidade é mais facilmente diagnosticada”, diz.

    Em alguns casos, a abordagem focada no peso pode matar.

    A figurinista e cientista política canadense Ellen Maud Bennett descobriu em 2018 um câncer terminal, após anos de visitas a médicos por não se sentir bem. A prescrição médica era sempre a mesma: emagrecer. Poucos meses após o diagnóstico, ela faleceu aos 64 anos.

    “Ao longo dos últimos anos sem se sentir bem, ela procurou ajuda médica e ninguém ofereceu qualquer apoio ou sugestão além da perda de peso. O desejo final de Ellen era que mulheres gordas fizessem que a sua morte importasse defendendo fortemente sua saúde e não aceitando a gordura como único problema de saúde relevante”, diz o obituário que viralizou nas redes sociais.

    Focados em tratar a doença que seria o corpo gordo, os médicos muitas vezes deixam de tratar a pessoa que ocupa este corpo. Uma pesquisa da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, com dados de 8,4 mil mulheres acima de 50 anos mostrou que quanto maior o IMC, menor foi a prevalência e indicação de exames preventivos, como papanicolau e mamografia.

    Enquanto 71% das mulheres com peso considerado normal (IMC de até 24,9) tinham feito papanicolau nos últimos dois anos, o percentual caía para 57% em mulheres consideradas obesas (IMC acima de 40). O mesmo foi observado com mamografia, exame feito por 74% das mulheres com peso normal e 68% das obesas.

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    Viés negativo do corpo gordo

    A constatação de que pacientes com excesso de peso relatam discriminação em ambientes de cuidados de saúde foi o ponto de partida de um levantamento realizado por pesquisadores das universidades de Washington e da Virgínia, também nos EUA. A partir da entrevista de pouco mais de 2 mil médicos, a conclusão foi de que eles têm um viés negativo do corpo gordo.  

    “Atitudes negativas implícitas e explícitas sobre peso entre os médicos podem contribuir para interações clínicas abaixo do ideal e para que pacientes com excesso de peso evitem cuidados médicos”, conclui o estudo.

    Para Juliana Kassar Cordoni, pesquisadora e professora da Faculdade de Medicina do ABC, é importante considerar o impacto de percepções, ideias, representações e crenças daqueles que se dedicam ao atendimento e tratamento de pacientes obesos. “A presença de ideias predominantes de rejeição e crítica pode influenciar o tratamento, comprometendo-o, já que não favorece a empatia, a compreensão, o acolhimento e outros subsídios necessários para uma abordagem adequada da obesidade como patologia multifatorial”, afirma.

    Ela fez uma pesquisa para identificar a percepção de estudantes da área de saúde sobre a obesidade, em que constatou que, enquanto a figura de uma mulher magra comendo diversos alimentos gordurosos e ultraprocessados foi lida como “comer sem culpa” por 25% dos estudantes, a imagem de quatro mulheres gordas de biquíni teve a resposta de “nojo” e “bizarro”’ por quase 28% dos entrevistados.

    Essa visão culpabilizadora marcou Adriana*, de 25 anos, na infância. Por conta de um remédio para asma, aos 12 anos ela começou a inchar e chegou ao limite do peso considerado saudável. “O médico disse que isso era resultado de eu comer muito e que não tinha nada a ver com o metabolismo, que era só ver fotos de judeus em campos de concentração para constatar que todos eram magros. Então, se fosse o caso, era só eu seguir uma dieta de campo de concentração”, lembra.

    A comparação pode parecer absurda, mas, em 2011, a nutricionista ortomolecular Emília Pinheiro lançou um livro intitulado “A dieta de Auschwitz versus o pão nosso de cada dia”, em que compara a situação de fome e de falta de comida dos judeus na Segunda Guerra Mundial com a abundância de comida atual.

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    Cirurgia e dietas

    Animada e ansiosa, Julia*, de 35 anos, entrou na sala de cirurgia em 2014 para o procedimento médico que prometia mudar a sua vida para sempre: um bypass gástrico. Naquele dia, depois de um ano de idas e vindas em médicos de várias especialidades, a advogada teria seu estômago grampeado e depois ligado diretamente ao intestino por meio de um duto artificial, em um procedimento realizado em duas partes que dura em média seis horas.

    Ao sair do hospital, a principal preocupação de Julia era fazer a recuperação de forma correta, o que significava seguir uma dieta de líquidos por 15 dias e comidas pastosas pelos 20 dias subsequentes. “Fiquei um mês comendo papinha, tudo no liquidificador, mas continuei sentindo muita fome”, conta. A advogada catarinense sabia que não deveria estar sentindo tanta vontade de comer, pois a falta de apetite era um dos principais resultados relatados por pacientes.

    Na primeira consulta de retorno, Julia descobriu o motivo: o seu estômago, que deveria estar com um espaço menor, não havia sido tocado durante a cirurgia, que não foi feita de forma completa porque seu fígado estava maior do que o normal durante o procedimento. A advogada ficou sem reação ao escutar do médico que não havia lhe contado do resultado da cirurgia para que ela emagrecesse “na marra” para, então, finalizar o procedimento.

    Na época, o médico informou o resultado da cirurgia apenas para os pais de Julia, mas pediu que eles não contassem a ela. “Ele tratou como se aquilo fosse normal”, conta a advogada, que decidiu não processar o médico por avaliar que não tinha condições psicológicas para enfrentar o processo. Pela mesma razão, ela preferiu não revelar o nome do profissional.

    Em 2017, foram realizadas 105,6 mil cirurgias bariátricas no Brasil, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM). O número cresceu 47% em cinco anos. Em 2016, o Conselho Federal de Medicina (CFM) ampliou de seis para 21 o número de comorbidades (duas ou mais doenças em simultâneo na mesma pessoa) que podem ter indicação para realização de cirurgia bariátrica em pacientes com IMC acima de 35.

    Asma grave, síndrome dos ovários policísticos e infertilidade foram algumas das doenças incluídas na lista. A estigmatização social também é listada como uma das condições eletivas para a indicação da cirurgia. A cirurgia, porém, não pode ser indicada para questões estéticas ou sem análise de um grupo de profissionais da área da saúde, entre eles gastroenterologista, endocrinologista, cardiologista, nutricionista, psicólogo e psiquiatra, diz Adriano, da Abeso.

    Um traço de gênero é observado nos números de bariátricas. Apesar da frequência de adultos considerados obesos ser a mesma entre homens e mulheres no Brasil, são elas que mais realizam a cirurgia.

    As mulheres corresponderam a 76% das pacientes de bariátricas no Brasil em 2017, de acordo com a SBCBM.

    Nesse mesmo ano, 18,9% dos brasileiros tinham IMC acima de 30, segundo a Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção de Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) do Ministério da Saúde, sendo 19,2% entre os homens e 18,7% entre as mulheres.

    “Nas minhas pesquisas observei que mulheres não precisam pesar muito mais do que é considerado saudável para que médicos recomendem que elas tenham que emagrecer. Homens precisam pesar muito mais do que é considerado como saudável para indicarem bariátrica”, diz Esther Rothblum, professora de estudos femininos da Universidade Estadual de San Diego, na Califórnia, e consultora da Associação Nacional para Promover a Aceitação do Corpo Gordo (Nafaa, na sigla em inglês).

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    Impactos da cirurgia

    Além das mudanças físicas, a cirurgia bariátrica pode trazer consequências psicológicas. Pesquisadores da Universidade de Leipzig, na Alemanha, observaram que pacientes submetidos à cirurgia bariátrica apresentam taxas de suicídio mais elevadas que a população geral. Apoiado pelo Ministério da Educação e Pesquisa alemão e publicado em 2013, o estudo analisou dados de quase 24 mil pacientes bariátricos de 11 países.

    O resultado mostra que a taxa média de suicídio entre os pacientes da cirurgia era quatro vezes maior que a taxa mundial.

    Enquanto o indicador da OMS era de 1 a cada 10 mil habitantes, o resultado da pesquisa chegou a uma taxa de 4,1 para cada 10 mil pessoas. “Uma diferença que é particularmente alarmante se considerarmos que há evidências significativas indicando que pessoas obesas tendem a ter uma taxa de suicídio menor do que pessoas em peso normal, como mostram estudos”, dizem os pesquisadores.

    Adriano, da Abeso, questiona o resultado do estudo, indicando que os números não foram levantados de forma massiva e controlada, mas reconhece os riscos psicológicos. Em seu dia a dia como psiquiatra, que acompanha pessoas antes e depois dos procedimentos, ele avalia que o maior risco é de alcoolismo. Com a absorção do estômago reduzida, explica, algumas pessoas podem ficar mais sensíveis aos efeitos do álcool. A taxa de bariátrica que viram alcoólatras é próxima de 20%, segundo o médico.

    Há casos em que a perda de peso é recomendada como pré-condição para outras cirurgias. A maquiadora Naldinha Nunes, de 36 anos, ouviu de um médico vascular de que para fazer a cirurgia de varizes ela precisava perder 20 quilos em dois meses.  Ela conta que nem mesmo tinha feito exames quando ouviu a recomendação do médico. Ela acabou desistindo da cirurgia pela impossibilidade de perder peso em tão pouco tempo. A maquiadora conta que nunca fez dietas restritivas. Há oito anos fez uma reeducação alimentar acompanhada de nutricionista, mas desanimou quando perdeu 10 quilos em seis meses e viu que demoraria para atingir sua meta de perda de 60 quilos.

    Segundo o movimento Health at Every Size, este é um dos principais problemas do enfoque no peso: criar uma meta numérica e pouco controlável como a recompensa de um hábito saudável. A obsessão se torna a perda de peso, e não o hábito. 

    A civilização ocidental deixou de focar nos comportamentos para focar no corpo principalmente a partir do século 18. “Antes disso, ter um comportamento guloso era recriminado, mas depois o corpo gordo passa a ser uma espécie de signo indireto do comportamento guloso. Mas houve muitos outros fatores complexos que influenciaram a inversão valorativa da corpulência e a patologização da obesidade. Houve questões ético-morais, estéticas, sociais e políticos”, afirma Cezar, pesquisador e professor da UFMS.

    A promessa das dietas

    As dietas milagrosas e as propagandas de academias têm implícita nas entrelinhas a ideia de que só é gordo quem quer. O cálculo parece ser simples: para emagrecer basta comer menos calorias do que o corpo gasta. “É muito simplista ver a obesidade como uma questão energética. Existem muitas coisas que acontecem no corpo que não só esse balanço”, afirma a nutricionista Maria Cláudia Soares Carvalho, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenadora do Laboratório Núcleo de Estudos e Ações de Educação Alimentar e Nutricional.

    Segundo ela, os hábitos, a condição psicológica, o cotidiano e até a classe social da pessoa se refletem no corpo. “Falar de pessoas é falar de afetos, necessidades, vida, esperança, motivação, exercício físico, hábitos.”

    As dietas foram uma realidade na vida da estudante Évelyn Galvão, de 26 anos, desde os cinco anos de idade. As pressões vinham primeiro da família, mas eram apoiadas por médicos. “Minha mãe procurava incessantemente médicos porque queria que eu emagrecesse antes de menstruar. Ela dizia que seu não emagrecesse antes da menarca, eu ia ter dificuldades para caminhar e até levantar da cama”, conta. Quando tinha sete anos, escutou de uma médica que “se continuasse daquele jeito, nunca deixaria de ser uma baleia”.

    As dietas foram muitas, entre chás, shakes e remédios para reduzir o apetite. Mas quanto mais ela tentava emagrecer, mais peso ganhava. Évelyn acabou fazendo as pazes com a comida e com seu corpo quando a pressão para que emagrecesse diminuiu e sua autoestima melhorou, por volta dos 20 anos. “A vida passou a ser mais leve e, ironicamente, eu emagreci um pouco“, conta a estudante, cujos exames médicos estão em dia e indicam que ela está saudável.  

    Há uma visão estabelecida de que a pessoa gorda é preguiçosa, que ela não tem força de vontade, observa Esther, da Universidade Estadual de San Diego.

    “As pessoas assumem que gordos não são atléticos ou que comem demais”, afirma.

    Ela lembra do caso de uma amiga, que é gorda e vegana. “As pessoas sempre se surpreendem quando ela diz que é vegana porque sempre acham que gordos só comem comidas ultraprocessadas”, diz.

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    De mãos dadas com machismo e racismo

    Dietas altamente restritivas acompanharam Luana Nazareth, de 29 anos, na sua relação com o balé desde bem cedo. Negra e com coxas e quadris largos, características já incomuns no no balé clássico, ela não se via representada na dança.  “Nem mesmo a sapatilha e a meia calça eram da minha cor,” conta.

    A dificuldade do mundo da dança, ampliada pela falta de diversidade e pelo racismo, acabou fazendo Luana desistir do sonho de criança antes dos 20 anos de idade. Seu corpo mudou sem as dietas altamente restritivas que, segundo ela, são comuns de se encontrar no balé. Foram anos até que a bailarina, cujo ensaio fotográfico ilustra essa reportagem,  fizesse as pazes com o corpo, num processo que veio junto da identificação da sua negritude, conta.

    A volta para o mundo da dança veio por convite de uma amiga. “Eu não achava que voltaria a dançar, mas acabei aceitando o convite”, diz Luana, que se diz feliz e plenamente saudável ao voltar a fazer o que ama, mesmo que não seja de maneira inteiramente profissional. Luana faz parte do grupo de dança “Me Gusta”, que conta ainda com outras duas integrantes gordas – uma delas é a fotógrafa dessa reportagem, Jéssica Chamma.

    A história de Luana ilustra como a gordofobia se cruza com outros tipos de preconceito, como o racismo e o machismo.

    As pessoas não têm esse tipo de preconceito individualmente, eles são correlatos com a sua visão de mundo e vêm dos mesmos lugares que o racismo e a xenofobia”, diz Chris Crandall, professor de psicologia social da Universidade do Kansas, especialista no estudo de tipos de preconceitos. “Pessoas que não gostam de gordos também não gostam de imigrantes, de pessoas negras, porque os veem longe, à parte do ‘topo da sociedade’.”

    Ele fez uma pesquisa sobre a percepção de pessoas gordas que mostra que a intolerância com esses corpos está intimamente ligada à culpabilização e moralização. “Quanto mais uma cultura privilegia o individualismo, maior a tendência de ela fomentar o preconceito e a culpa contra o gordo”, diz Chris. O preconceito foi maior entre pessoas alinhadas a um pensamento mais conservador, que defendem a meritocracia ou apoiam ideologias que reforçam a figura do “self-made man”. “Pessoas que acreditam em responsabilidade pessoal pelo sucesso, e que ele virá apenas do trabalho duro, têm mais tendência a não gostar de pessoas gordas. Elas tendem a vê-las como um fracasso, como uma pessoa que desvia do bom comportamento”, explica.

    “Se engordar, nenhum homem vai querer você”, foi o que Tatiana*, de 29 anos, escutava toda noite antes de dormir, desde quando tinha 14 anos.

    Sua mãe a obrigava a usar uma cinta pressionando a barriga para dormir, para que não engordasse mais. Levada a endocrinologistas, um deles a receitou Sibutramina, remédio que controla o apetite. Ela chegou a sentir palpitação e alteração na pressão sanguínea, contraindicações comuns do medicamento.

    Depois de tentativas de emagrecer frustradas, Tatiana conheceu o seu primeiro namorado aos 18 anos. Mas no lugar de acolhimento, ela recebeu mais julgamentos. “Ele vivia me dizendo que eu tinha engordado, que precisava fazer academia. Ele era do Exército e tinha vergonha de me apresentar para os amigos”, conta. A vida sexual foi igualmente difícil, uma vez que ela se sentia “um lixo” toda as vezes em que ia para a cama com o namorado. “Ele colocava revistas de mulheres nuas sobre mim para transar comigo.”

    Não é de hoje que a pressão sobre o tamanho do corpo é maior com as mulheres. “A barriga masculina foi tolerada por muito mais tempo que a da mulher. E, entre muita gente, ela ainda é tolerada”, observa Denise Bernuzzi de Sant’Anna, professora de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e líder do grupo de pesquisa “A Condição Corporal”.

    “Enquanto já havia cintas e espartilhos à venda no Brasil nas primeiras décadas do século 20, a “pança” masculina era elogiada e bem colocada nas publicidades. O homem com barriga, durante muito tempo, foi considerado sinal de como tendo uma boa esposa, lembra Denise no livro “Gordos, magros e obesos: uma história de peso no Brasil”.

    A pressão para que mulheres ficassem menores data do século 20, indica a professora Esther. “Nem sempre os médicos receitaram que o melhor era emagrecer. No começo do século, na verdade, era o contrário”, afirma. No Brasil, de fato, até os anos 50, o corpo gordo era considerado forte e saudável, explica Denise, da PUC. “Até então ser gordo não era uma questão de saúde. Então começam a surgir estudos divulgados pela mídia em revistas como a Cruzeiro e revistas americanas que estavam por aqui”, afirma.

     A questão das dietas e do foco em emagrecimento começou a ser popular na década seguinte, nos anos 1960, quando pesquisas que ligavam o corpo gordo a doenças começaram a aumentar. Segundo Esther, o crescimento desse tipo de narrativa veio junto com a maior atuação dos movimentos feministas.

    “Não é interessante que quando as mulheres começam a se posicionar mais é que começa a existir a pressão para que elas emagreçam e fiquem menores?”

    gordofobia

    Ativismo gordo

    A resistência a esses padrões tem crescido nos últimos anos no Brasil. O movimento de ativismo em favor do direito e da liberdade dos corpos gordos se estende pelas redes sociais com influencers gordos falando de gordofobia e body positive, pela música com cantoras como a rapper Preta Rara e pela moda com marcas que criam peças para todos os tipos de corpos, como a Cosmo Swim.  

    A festa “Toda Grandona” é um resumo disso. Promovida por um coletivo de mesmo nome, é resultado da junção dos canais do Youtube Alexandrismos (de Alexandra Gurgel), Bernardo Fala (de Bernardo Boechat) e Caio Revela (Caio Cal). “Queremos levar a palavra da aceitação, do amor próprio e do combate à gordofobia com muito fervo e militância”, diz a página do coletivo body positive.

    Para todas as mulheres escutadas nessa reportagem, a mudança começou justamente a partir do contato com representações positivas de gordas.

    “As pessoas precisam começar a ver a gordofobia como um problema da sociedade e não como algo individual”, afirma a professora Esther, da Universidade de San Diego. Ela explica que a resistência começa com a criação de espaços para pessoas gordas falarem de suas experiências e discutirem as representações com relação ao corpo.

    Assim, promover a visão de que o corpo gordo é normal e livre tem sido revolucionário para essas pessoas. “Corpo é instrumento, não finalidade. O corpo não é só pele, músculos, volume carnal. O corpo é ele se movendo no espaço, é o que ele fala, o que ele veste, é tudo que ele se torna”, diz a professora da PUC Denise Sant’Anna.

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