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24 de abril de 2020

“Sou empregada doméstica e me sinto sem opção nessa pandemia”

Para poder se isolar alguns dias, patroa exigiu que ela dormisse no trabalho uma semana, conta trabalhadora em relato

“Eu me sinto sem opção. Ou trabalho, ou fico sem emprego. Para mim, não existe a escolha por fazer quarentena e cuidar da minha saúde no meio dessa epidemia de coronavírus. E sei que não sou única, muitas pessoas passam por algo parecido. Muitas mulheres que, como eu, trabalham em casa de família e são obrigadas a seguir cuidando dos outros, enquanto colocam sua própria saúde em risco. 

Eu trabalho há duas horas do meu serviço. A casa deles fica em um bairro nobre e eu moro na periferia de São Paulo. Tenho que pegar ônibus, metrô, trem e outro metrô. A minha patroa está gestante e tem duas crianças, e eu sinto que ela acha que a família dela é mais importante que a minha, como se a minha família não tivesse valor.

Mas eu tenho família, também. Duas filhas adolescentes e minha companheira, que me ajuda a cuidar delas. E mesmo não sendo dos grupos de risco, eu fico preocupada, e se eu levar essa doença para dentro da minha casa? 

Engraçado que minha patroa, o marido e os filhos estão de quarentena há semanas já, mas acham que o que está acontecendo é um exagero, tipo nosso presidente. Eu já não acho isso. Até porque eles têm mais recursos que eu, quando se trata de saúde. Se eu pego esse vírus, vou depender do SUS. 

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Por ela eu passaria a quarentena na casa dela sem voltar para casa nem um dia. 

O que consegui foi fazer um acordo: vou tirar 5 dias das minhas férias, que já estão vencidas, pra ficar em casa e poder fazer o isolamento que estão recomendando. Mas ela só aceitou se na semana seguinte eu trabalhar de segunda à sábado direto sem voltar para casa, dormindo no serviço. Aceitei a proposta.

Não que eu goste desse acordo. Quando eu durmo lá tem muito mais trabalho, raramente paro de trabalhar antes das 23:00. Normalmente, meu horário é das 8:30 às 17:30, mas quando fico até de noite, acabo nem tendo horário. Meus patrões estão fazendo home office. E trabalhar com eles em casa é bem cansativo porque tudo fica em dobro, não é como quando estão fora que eu arrumo e fica arrumado. Tenho que refazer tudo, parece. 

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Além disso, não tem muito cuidado em relação ao vírus lá. A única coisa que eles me dão é o álcool em gel, eu preciso passar sempre que chego lá. Não tem máscara, nem luva. Nada pra me proteger, nem para proteger eles também, se eu tiver doente. 

Isso tudo me faz pensar que trabalhador hoje é tratado como robô: se não tem serventia é trocado. E como nosso sustento vem todo do trabalho, não posso perder o emprego e acaba que a única opção é pôr a saúde em risco.”

O relato foi dado sob a condição de anonimato para a repórter d’AzMina.


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Suzana quer ser jornalista desde os sete anos de idade inspirada pela maravilhosa Glória Maria. É estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, onde além de aprender a fazer reportagens, participa do Coletivo AfriCásper. Engajada em causas sociais, agora também é estagiária da Revista AzMina. É mãe de três gatos: Princesa, Luna e Harry.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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