Brianne Butler, 27 anos, é chef de cozinha e foi quem organizou a marcha que mobilizou cinco milhões de pessoas pelo mundo. Foto: Isadora Varejão Marinho

Após uma campanha eleitoral marcada por declarações racistas e misóginas, denúncias de assédio sexual e polêmicas envolvendo desde a Rússia à atriz Meryl Streep, o magnata do setor imobiliário Donald Trump tomou posse como o 45º presidente dos Estados Unidos. Doze horas depois, a primeira crise do mandato: um milhão de pessoas – mulheres, em sua maioria – chegavam de todas as partes do país e tomavam as ruas de Washington D.C., colorindo-as de rosa, cartazes pintados à mão e alguns palavrões.

“Uma coisa é se esconder atrás de um Twitter e receber críticas em 140 caracteres. Outra é acordar com milhares de pessoas na porta da sua casa, lhe chamando à responsabilidade pelas atrocidades que disse”, disse Brianne Butler, 27 anos, organizadora global da Marcha das Mulheres em Washington.

Ela conversou com AzMina na véspera do protesto, no Clube Democrata Nacional das Mulheres, espaço utilizado desde a década de 1920 pelo movimento sufragista, e que se tornou o quartel-general da Marcha na capital norte-americana. Voluntários e manifestantes produziam cartazes, bordavam toucas e promoviam palestras, enquanto Brianne se preparava para o evento que se tornaria a maior mobilização popular da história. Em todo o mundo, cinco milhões de pessoas foram às ruas. Falamos sobre engajamento político, as críticas que a Marcha recebeu de outros grupos ativistas e o mundo pós-Trump. Confira o nosso bate-papo exclusivo.

A Marcha das Mulheres em Washington se desdobrou em mais de 600 protestos espalhados por 36 países nos sete continentes, incluindo a Antártida. Vocês esperavam esse alcance?

Não esperávamos essa expansão global, embora soubéssemos que chamaria a atenção do mundo, afinal, é Washington D.C. O engraçado é que tudo começou com um evento no Facebook criado por uma senhora no Havaí. Ela convidou as netas e 40 amigas dela. A estilista Bob Land, no Brooklyn, criou um evento parecido logo depois, do qual eu tomei conhecimento. Lembro que ficamos superempolgadas quando chegamos a 3.000 pessoas confirmadas. Mal sabíamos o que estava por vir.

Como vocês se articularam internacionalmente?

Foi muito rápido. Eu criei páginas para os estados americanos como forma de ajuda-los a organizar a vinda para D.C. No dia seguinte, grupos da Inglaterra, Noruega e Austrália entraram em contato pedindo páginas próprias. “Queremos fazer marchas aqui em solidariedade a vocês”. Isso tudo há apenas dez semanas. Foi um movimento que tocou o coração de mulheres do mundo todo e desaguou aqui em Washington.

Mas é importante frisar que começou com pequenas ações. São elas que geram as grandes ondas de mudança.

Trump finalmente assumiu a presidência. Quais são as principais preocupações da organização?

Durante a campanha ele atacou, de forma muito clara, diversos outros grupos além das mulheres. E embora não seja uma marcha temática anti-Trump, vamos nos reunir com todos esses grupos para mostrar que estamos unidos e de olho nele. Tendo falado sério ou não, o fato é que nós somos de carne e osso e viemos até aqui para chama-lo à responsabilidade pelas coisas que ele disse. Uma coisa é se esconder atrás de uma conta de Twitter e receber milhares de críticas pela internet. Outra é acordar com milhares de pessoas na porta da casa para a qual você acabou de se mudar.

Como você acha que a nova administração enxerga o movimento?

Eles não estão acostumados com pessoas vindo de carro de Nevada, Colorado, e até do Alaska. Não são famílias tradicionais de D.C. que estão protestando, são famílias que gastaram suas economias para estar aqui ou parcelaram a viagem no cartão de crédito porque querem fazer parte desse momento. É prova de que as coisas estão mudando e isso os deixa apavorados. E outra, eles acharam também que o movimento ia morrer.

Por quê?

Quando anunciamos, em novembro, a data da Marcha, recebemos muitas críticas, tipo  “por que vocês não fazem em dezembro, antes de o Colégio Eleitoral decidir quem vai assumir a presidência”? Mas decidimos esperar para fazer direito. Temos uma mensagem poderosa para entregar, e era preciso faze-la ganhar corpo antes de ser concretizada. Se deixássemos a bola cair, com essa rede de contatos gigantesca, seria ainda mais difícil recolocar a pauta dos direitos das mulheres à frente do movimento, sabe? Então fomos com calma, mantendo o estímulo e ganhando gás. Tem mulheres bordando chapéus e toucas para a marcha há meses, pessoas de todos os cantos do país que fizeram todo um planejamento para poder estar aqui. Menininhas que viram o debate se intensificar na mesa de jantar, dia após dia.

E depois da Marcha, o que vocês vão fazer?

Continuar educando e mobilizando pessoas no país inteiro para que possam promover mudanças em suas comunidades, porque é isso que gera mudanças em larga escala. E outra: ninguém sabe o que vai acontecer daqui a 4 ou 8 anos. A próxima grande guerra, talvez?

A gente tem que estar preparada para ir para às ruas a qualquer momento.

Eu sei que eu estou. Não somos um Occupy Wall Street, que chega lá, grita, não tem um foco definido e fica por isso mesmo.

Como foi sair de uma cozinha de restaurante para comandar pessoas no mundo inteiro?

Trabalhando em cozinha, eu garanto que todos cumpram suas funções para que as coisas aconteçam, ainda que sob pressão. Eventos do tipo “o bolo do casamento caiu no chão, precisamos de outro em duas horas!” eu faço acontecer. Esse é meu ponto forte. E eu pude aplicar essas minhas habilidades em um evento desse porte. Se eu posso, todo mundo pode.

Mulheres de todas as partes dos Estados Unidos se reuniram no quartel-general da Marcha para preparar cartazes e compartilhar histórias. Foto: Isadora Varejão Marinho

Qual o conselho que você dá para quem quer promover mudanças?

Você tem que achar aquelas duas ou três coisas que faz de melhor, ou seja, o seu ponto forte, onde sua confiança reside. Depois, encoraje as pessoas ao seu redor, diga a elas quais são as características que você mais admira nelas. A pessoa é boa ouvinte? Consegue manter a calma sob pressão? Faz planilhas incríveis de Excel? Não importa o que seja. A partir daí, é só pensar em como você pode aplicar todas essas qualidades ao ativismo político. Comece pelo seu bairro e você alcançará a cidade, estado, país… um dia sua mensagem vai para o mundo.

Inicialmente, o protesto se chamava “Million Women March”. Mudou para “March on Washington” para, finalmente, receber o nome de “Women’s March on Washington”. A ativista dos direitos civis dos negros Brittany Oliver publicou uma carta aberta dizendo não apoiar o evento porque os dois primeiros nomes tinham sido “roubados” de movimentos criados por negros e esvaziados de seu propósito original [Nota: A Million Women March foi realizada por mulheres negras, em 1997, na Filadélfia, e a emblemática March on Washington foi liderada por Martin Luther King Jr, em 1963]. Qual o posicionamento da organização?

Lemos o artigo da Brittany e pensamos: merda! Estamos distribuindo arco-íris e fofura e ela vem com essa bomba. Mas decidimos abordar a questão e analisar a fundo os argumentos dela. Quando terminei de ler, eu disse: vamos agradecer a ela. Ela está certa. Nós não estamos sendo sensíveis com a cultura negra e não estamos levando em conta que existe o “privilégio branco”. Essas questões são válidas.

Eu fico feliz que ela tenha chamado a nossa atenção para isso porque, como foi bem no início da campanha, tivemos a oportunidade de mudar.

Foi quando trouxemos uma maior diversidade para o comitê organizador, fizemos uma conference call com a Bernice King, filha do Martin Luther King, com 100 organizadores de marchas estaduais do outro lado da linha. É importante reconhecer que nós não apoiamos a comunidade negra quando ela precisou de nós. É importante reconhecer também que neste momento é urgente que a gente se uma. Porque estamos aqui agora. E queremos lutar com eles e por eles, fazer essas vozes serem ouvidas, porque se a mulher negra vencer, o homem negro também vence.

Por que a Hillary não conseguiu se eleger e o que falta para os Estados Unidos colocarem uma mulher na Casa Branca?

Nosso país ainda é extremamente misógino e racista. A gente precisa consertar isso. Como, eu não sei. Mas é urgente que a gente se reconecte, saia de detrás das telas e volte a se encontrar. As mulheres que estão no Clube hoje não imprimiram os cartazes numa gráfica. Estão sentadas, juntas, sujando as mãos e pintando elas mesmas as suas palavras, enquanto compartilham histórias de vida. Cinco minutos com elas é melhor do que cinco horas fazendo qualquer coisa no celular.

 

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